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Crowding out

por Rui Rocha, em 03.12.11

Um galambista muito galamboso criou uma galamba que nem o melhor desgalambista conseguia desgalambar. Assim foi galambando, num doce galambar. E enquanto galambava, cantava canções de engalambar: galambas tu e galambo eu, galambas tu mais eu e galamba que galamba e torna a galambar. E assim galambando, fez-se galambeiro. E logo outros galambistas começaram a galambar. Com tantos galambistas, era ver qual deles galambava mais e, se virmos bem, todos galambavam por igual. E galamba que galamba e torna a galambar. E se o galambeiro galambava como galambava e os outros galambistas galambavam como ele, ali se formou um belo galambal. E galambas tu e galambo eu, e galambas tu mais eu. Havia nesse galambar coisas de esgalambar. Quanto mais o galambeiro galambava mais os galambistas galambavam com ele. E todos juntos galambando, foram ao parlamento galambar: a galambice é uma loucura que nem o melhor desgalambeiro consegue curar e galamba que galamba e torna a galambar. Um desgalambeiro veio e outro desgalambeiro também. E ao galambeiro não o desgalambava ninguém. E galamba que galamba e torna a galambar. E mais outro veio e o galambeiro a galambar. Um dia chegou o Governador do Banco de Portugal e o galambeiro foi ao ar.


1 comentário

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De José Luiz Sarmento a 04.12.2011 às 16:33

O jogo de palavras é muito engraçado - até eu me ri - mas vamos a factos.

Discutia-se no Parlamento a questão da emissão de moeda pelo BCE. Qualquer político realista sabe que o BCE não pode continuar por muito tempo a ser um caso aberrante entre os Bancos Centrais do resto do mundo. Não pode ter como missão exclusiva a estabilidade monetária prescindindo das outras duas pernas do tripé: promover o financiamento da economia real e contribuir para o combate ao desemprego. Temos assim que o Ministro da Economia e o Governador do Banco de Portugal são, na sua qualidade de políticos, irrealistas.

Segundo: qualquer economista competente sabe que a estabilidade monetária tanto consiste na ausência de inflação como na ausência de deflação. A inflação é causada, entre outros factores, pela emissão de moeda em demasia; a deflação pela insuficiente emissão de moeda. O nível óptimo de emissão de moeda é o que leva à activação plena dos factores de produção instalados. Qualquer economista competente sabe que o problema económico da Europa - económico, realço, e não financeiro - é, neste momento, o excesso de capacidade produtiva que não é utilizada por falta de liquidez. Ou seja: na conjuntura actual, tudo o que uma emissão massiva de moeda por parte do BCE faria seria conter a deflação nas periferias europeias e provocar no centro níveis de inflação perfeitamente suportáveis. Seria bom que o Governador do Banco de Portugal e o Ministro das Finanças português se preocupassem um pouco mais com o perigo de deflação em Portugal e um pouco menos com o perigo de inflação na Alemanha.

Qualquer economista que saiba um pouco de História Económica tem obrigação de não confundir a Alemanha de 1923 com a Alemanha de 1933. Agitar o papão da hiperinflação, como o fez Vítor Gaspar no Parlamento, para justificar as políticas de austeridade que nos são impostas é isso mesmo: agitar um papão. E agitar o papão do crowding out sabendo, como qualquer economista competente sabe, que ele não se aplica à conjuntura presente nem na UE, nem nos EUA, é totalmente descabido. Não é João Galamba que precisa de estudar melhor o conceito de crowding out (incluindo as muitas e autorizadas objecções que tem suscitado), mas sim o Ministro das Finanças e o Governador do Banco de Portugal.

Temos então que estas duas personagens são, não só irrealistas enquanto políticos, mas também incompetentes enquanto economistas.

De onde lhes vem a incompetência? Da falta de qualificações e de currículo não é, com certeza. Ambos têm currículos impressionantes, tanto do ponto de vista profissional como académico. O currículo profissional foi feito no sector financeiro, é certo, e o académico em escolas onde a pureza ideológica tem sido desde há décadas a preocupação dominante, conduzindo a purgas e saneamentos. Em vez da rasoura de Occam para aferir a realidade recorre-se, para usar a metáfora feliz de Paul Krugman, à construção de epiciclos cada vez mais complicados. E aqui está a resposta à pergunta que abre este parágrafo: a incompetência profissional destas criaturas decorre do seu fanatismo ideológico e dos seus compromissos com o poder financeiro.

Irrealistas enquanto políticos, incompetentes enquanto académicos, fanáticos enquanto ideólogos, corruptos enquanto profissionais, estes homens têm tanta autoridade para mandar João Galamba estudar o que entendem por "economia" como para o mandar estudar astrologia, que é outra "ciência" tanto mais falsa quanto mais exacta.

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