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A publicação do livro de Rui Verde trouxe de novo para o debate a questão da licenciatura de José Sócrates. Não faltarão vozes a repescar a tese do assassinato de carácter. Percebo o ponto e parece-me que merece ser debatido. É claro que a discussão pressupõe que admitamos que o percurso de Sócrates na Independente foi tão imaculado como o seu amor pelo Estado Social (recordo que este nunca foi consumado). Admito que esse ponto de partida possa exigir algum esforço a certos leitores. A esses peço que o considerem, tal como à própria licenciatura de Sócrates, uma mera hipótese académica. Esclarecida a questão prévia, vamos ao que interessa.  Ora, impõe a imparcialidade a que me obrigarei ao longo deste texto que afirme, desde já, que a tese do assassinato de carácter dá o flanco a várias objecções. Em primeiro lugar, a viabilidade da condenação na praça pública (é aí que estamos) pela prática do crime de assassinato de carácter depende da exibição do corpo do delito. Ora, há muito quem defenda que jamais será possível a José Sócrates apresentar o cadáver do carácter assassinado. Pela simples razão de que não tinha um (carácter, entenda-se). Na mesma linha, situam-se os que, admitindo embora  que José Sócrates possa ter tido um carácter, afirmam a pés juntos que este teria morrido num grave acidente. Em surdina, sugere-se mesmo a possibilidade de suicídio. Ora, como bem se compreenderá, não é possível assassinar o que já tinha morrido. Estaria em causa não o assassinato de carácter, mas o assassinato de cadáver, situação que, sendo contraditória nos seus próprios termos, não é punível nos termos do Código Social. Confesso que me inclino para esta versão dos factos. Ela é a que permite salvaguardar a abordagem do bom selvagem de que sou muito cioso. Não há rapazes maus e o inferno são os outros. E, cá para nós, aquele Teixeira dos Santos sempre me pareceu um tipo muito inquietante. Em todo o caso, e mesmo que não fosse assim, seria sempre necessário apurar se não existem, no caso concreto, causas de exclusão da ilicitude. E aqui parece-me que se poderá argumentar que a prática em causa, condenável em geral, deve ser tolerada sempre que se prove que as acções do carácter assassinado teriam como consequência a aniquilação do país. Isto é, a ilicitude deve ter-se por afastada num assassinato cometido contra um carácter que se comporta como um serial killer dos fundamentos económicos e políticos de uma sociedade. Estaríamos, nesse caso, a falar de legítima defesa. 


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