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A árvore e a floresta

por José Gomes André, em 01.12.11

A crise chama o populismo, que com ele traz a vertigem pelo acessório, pelo trivial, pelo mesquinho. Nos últimos dias, os jornais, os blogs e as redes sociais encheram-se de indignados comentários sobre o ministro que trocou a Vespa pelo Audi, o deslize freudiano de um deputado e uma pretensa "gaffe" da Presidente da AR. No entretanto, a União Europeia vive a maior crise da sua história e o euro está em colapso. Vamos empobrecer drasticamente, recuar ao PIB dos anos 80, ter taxas de juro brutais, um desemprego galopante e um clima económico irrespirável. Esqueçam as "imposições" da troika ou o "plano de austeridade" de Passos Coelho. O que aí vem, se vier, será pouco menos que um desastre épico.

 

Mas que importa tudo isso, se há ministros a usar carros de alta cilindrada e deputados a gozar de um fim-de-semana antecipado?


2 comentários

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De Ulisses a 01.12.2011 às 02:24

E nunca ninguém lhe disse que muitas árvores juntas fazem uma floresta? E se é como diz um desastre épico andamos de audi a 86 mil? Haja pachorra.
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De Luís Reis Figueira a 01.12.2011 às 13:32

O 'caso' principal que relata no seu post (o do carro do ministro) foi, tal como refere, debatido até à exaustão (para não dizer até à náusea) por todos os cantos e esquinas de todos os formatos da comunicação social. Televisões, rádios, jornais, blogosfera, todos sem excepção, se debruçaram, comentaram e dissecaram este pequeno caso até ao osso, se não mesmo até à medula. Este "insignificância" justifica, então, tanta torrente noticiosa e tanto comentário acerca dele? Em minha opinião, sim, e passo a explicar porquê:
O título que lhe atribuiu - A árvore e a floresta - quer sugerir que nenhum daqueles episódios, com especial relevância para o "caso do Audi", merece o grande destaque que lhe foi dado pela opinião pública. Trata-se, em sua opinião, de ver a árvore e não a floresta, de dar atenção ao pormenor em detrimento de uma visão mais alargada do conjunto. A questão essencial, porém, emana precisamente do facto de, frequentemente, nos esquecermos que uma floresta é um conjunto de muitas árvores. E para todo esse conjunto possa formar um todo harmónico e saudável, temos de cuidar e vigilar cada um dos seus elementos. Uma árvore podre, doente, contaminada, pode determinar a breve trecho o extermínio de toda uma floresta. É a velha história da maçã podre no meio das sãs.
O episódio do carro, há seis meses atrás, muito provavelmente não teria sido notícia em lado nenhum, ou, se o fosse, seria apenas 'mais um caso' entre os muitos que na altura povoavam o dia-a-dia e a loucura da nossa classe política de então. Aconteceu, entretanto, que com a mudança ocorrida, foi-nos prometido, mais uma vez, que novos tempos viriam e que esses desvarios tinham acabado de uma vez por todas. Foram-nos pedidos brutais sacrifícios e até àqueles que já muito pouco tinham para si, foi exigido que apertassem ainda mais um cinto que já não tem mais furos e já dá duas voltas à cintura. Esta onda de indignação surge exactamente dessas promessas mais uma vez feitas e não cumpridas que fazem emergir, de uma forma desmesurada e violenta, o tal populismo de que fala. É certo que cabe a todos e a cada um de nós o sermos vigilantes da nossa floresta e que todos somos responsáveis pela existência e pela eliminação atempada de todas as árvores doentes que ameaçam a sobrevivência de toda ela. Somos, assim, pelo nosso alheamento da coisa pública, pelo nosso desleixo, todos co-responsáveis pela existência destas anomalias no meio da nossa floresta. É por isso que agora, por todos os motivos e mais um, estamos - devemos estar - todos mais vigilantes, como se sabe.
O 'desastre épico' de que fala, pode revelar-se uma fatal realidade com que talvez nos venhamos a confrontar num futuro próximo, é certo. Mas não invertamos a ordem das coisas: não partamos do princípio que não há mal algum em deixarmos a floresta por sua conta e risco, sem vigilância alguma. Esse 'desastre épico' provém exactamente de uma árvore doente que infestou uma floresta, que infestou as florestas vizinhas, que por sua vez alastrou a todo um continente e que alastrará a uma escala planetária. É desta forma que começam e alastram todas as grandes epidemias mundiais. Se partirmos do princípio de que não é preciso tratar um indivíduo infectado com uma doença grave, só porque é um de entre milhões, estamos a abrir inexoravelmente a porta para, a breve trecho, estarmos todos fatalmente infectados.

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