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Angola, 1973. Os flamingos equilibram-se sobre uma das patas, na sonolência da tarde. O rádio estremece a cada lance de perigo. A ventoinha do tecto espalha o calor pela sala. Observo o meu pai e ouço o relato. Não entendo bem o que se passa, mas vou fixando alguns nomes. Fraguito é muito engraçado. Percebo que tudo se desenrola em volta do Esférico. Deve ser muito bom jogador. Indigno-me quando um jogador do Benfica agarra o Esférico. E fico muito confuso quando, passado uns minutos, é um tal Alhinho, do Sporting, que o agarra. Aproveito um momento de pausa para colocar ao meu pai a dúvida que me atormenta: papá, de que equipa é o Esférico? A resposta surge, surpreendente: o Esférico é de todas as equipas. Arquivo a informação preciosa sobre o mundo da bola: há um jogador chamado Esférico que alinha por todas as equipas. As emoções do relato acabam por me aborrecer. Apetece-me dar um passeio no cavalo de madeira que está na varanda. Fecho os olhos. Agora é no quintal da Avó Palmira, na motróple, que estou a cavalgar. Imagino-me a espreitar a capoeira, de longe. O bico das galinhas sempre me meteu muito medo. Lá estão os frangos. Franguitos. Fraguito. Sim, sim. Está na hora de dar uns pontapés na bola. A baliza é na parede. Hoje chamo-me Esférico e vou marcar muitos golos. Mas, vão todos ser do Sporting. E, logo à noite, quando formos dar a volta dos tristes na Restinga do Lobito, hei-de contar ao Calita quantos marquei. E havemos de apanhar muitos peixes com os frascos de compota em que, para os atrair, colocaremos pequenos pedaços de pão.

 

* Na foto (roubada aqui), a equipa do Sporting na época 1973/74. Não está lá o Esférico. Mas estão: em baixo, da esq. para a dir. - Tomé, Yazalde, Nélson, Márinho, Dinis; em cima, mesma ordem - Laranjeira, Manaca, Alhinho, Damas, Fraguito, Carlos Pereira.


12 comentários

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De Ana a 26.11.2011 às 19:19

Este seu post deu cabo das minhas memórias. O meu pai era louco pelo clube da sua alma - o Sporting. Cresci a ouvir relatos ao domingo e a viajar até Lx, ao estádio José Alvalade, para delícia de meu pai e enfado meu e de minha mãe. Não percebo nadinha de futebol, mas ainda me sabe bem ouvir na rádio: Goooooolo do Sporting. Bem haja pela recordação.
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De Rui Rocha a 26.11.2011 às 22:03

Pelo visto, hoje não vamos ter essa alegria, Ana.
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De macarvalho a 26.11.2011 às 19:31

Lembro-me muito bem de alguns destes nomes.
Que excelente viagem no tempo!
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De Rui Rocha a 26.11.2011 às 22:02

Ainda bem que gostou, Macarvalho.
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De Pedro Correia a 26.11.2011 às 23:06

Grande equipa. Vários deles viriam a ser campeões nacionais no ano seguinte. Damas, Marinho, Nelson e Dinis já tinham sido campeões também na grande época 1969/70.
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De Rui Rocha a 28.11.2011 às 13:14

Esta é uma das minhas primeiras memórias, Pedro. Bem mais presente tenho o golo do Manaca na própria baliza em Guimarães que vi "in loco"...
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De Cristina Torrão a 27.11.2011 às 11:20

Yazalde, Dinis e Alhinho eram grandes heróis da nossa infância (minha e do meu irmão). E o Damas, claro, o maior de todos. Com todo o respeito por guarda-redes como o Bento e o Vítor Baía, o Damas era o Damas. Portugal nunca mais teve um guarda-redes como o Damas!
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De Rui Rocha a 28.11.2011 às 13:11

Concordo, Cristina. O Damas foi e é insuperável.
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De Gi a 27.11.2011 às 18:07

Mas eu vejo lá o Esférico! Rui, esqueceu-se de pôr os óculos :-)
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De Rui Rocha a 28.11.2011 às 13:12

Pois. Esse esférico está mesmo lá .
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De Observador do Caos a 27.11.2011 às 22:37

Excelente recordação, esta avivada agora pelo seu post. Lembro-me deste jogo quase como se fosse hoje (há factos que moram na nossa memória a vida toda). E já lá vão uns bons anitos. Não vi a partida, porque também eu estava em Angola, na guerra.
Naquela tarde estava com o meu grupo de combate a patrulhar uma curta zona (20 km) do caminho de ferro de Benguela, próxima do Luso, hoje Luena. A missão era dissuadir os guerrilheiros de sabotarem a linha do combóio. E foi o que fizemos durante quatro dias. No último dia, um domingo, quase à hora do jogo, a patrulha entrou no mato e parou numa casa em ruínas, queimada anos antes num assalto de guerrilheiros e pertença de uns colonos, que devem ter morrido no confronto que se seguiu. Silêncio na progressão era a norma a que estávamos obrigados; no mato não se fumava, nem se falava alto, a comida era servida fria para não despertar a atenção de quem nós não queríamos. Mas naquele dia, àquela hora da tarde, mandámos as normas às malvas: o rádio foi aberto com as «goelas» no máximo para que a tropa ouvisse as incidências do jogo e pudesse gritar em conjunto com o relatador, quando este gritava GOLOLLOLOLOLOLOLLL.
Todos? Bem, todos não. Só os adeptos do Benfica, porque nessa tarde de Dezembro de 1973, os encarnados ganharam por 2-0.
Inocência, quebrar da guarda, medo, por pensarmos que pudessemos ser atacados, depois de denunciados pelo barulho do rádio? Não! Qual quê. Um derby parava a guerra. Por quê? Porque a tropa e os «turras» tinham uma coisa em comum: eramos todos do Benfica e do Sporting. Nós e eles.
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De Rui Rocha a 28.11.2011 às 13:12

Que bela crónica, OC.

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