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Trade-off, Otelo

por Rui Rocha, em 10.11.11

O Senhor Otelo Saraiva de Carvalho criticou os militares por estes terem prevista uma manifestação para os próximos dias e, de passagem, afirmou que "ultrapassados os limites, devem fazer uma operação militar e derrubar o Governo" sendo que, na sua faiscante e explosiva opinião, "Portugal está a atingir esse limite".

 

Para que a memória não esqueça, recupero a partir do Díário de Notícias o fio de acontecimentos dramáticos da democracia portuguesa e reproduzo o registo das principais datas da história das Forças Populares 25 de Abril (FP-25):

28 de Março de 1980-  Cria-se a Força de Unidade Popular (FUP), organização política de extrema esquerda que viria mais tarde a ser associada às FP-25, consideradas como o braço armado deste partido; 20 de Abril de 1980- FP-25 anunciam o seu surgimento com a publicação do “Manifesto ao Povo Trabalhador”,  que é distribuído por todo o país numa aparatosa operação de rebentamento de petardos; No manifesto as FP afirmam que o seu surgimento acontece para “o derrube do regime, instauração da ditadura do proletariado, criação do Exército Popular e implantação do socialismo”; 5 de Maio de 1980- Primeira acção violenta da organização, em que é assassinado o soldado da GNR Henrique Hipólito, em Meirinhos, Mogadouro, num assalto às agências do Banco Totta e Açores e da Caixa de Crédito e Providência, no Cacém; 13 de Maio de 1980- Assassínio de Agostinho Ferreira, comandante do posto da GNR de Alcoutim; 6 de Dezembro de 1982- Assassínio de Diamantino Bernardo Monteiro Pereira, administrador da Fábrica de Loiças de Sacavém, em Almada; 7 de Fevereiro de 1984- Uma das maiores e mais  emblemáticas “operações de recuperação de fundos” da organização.  Assalto a um veículo de uma empresa de segurança que transportava 108 000 contos (538 701,70 euros); 30 de Abril de 1984-  Morte de um bebé de quatro meses num atentado à bomba na casa da sua família em São Mansos, Évora; 19 de Junho de 1984- Início do desmantelamento das FP-25 com a Operação Orion, coordenada entre a PJ, PSP e GNR. No centro desta operação esteve a rusga efectuada à sede da FUP e posterior ilegalização do partido; 20 de Junho de 1984-  Prisão de Otelo Saraiva de Carvalho; 21 de Setembro de 1985- Evasão de nove membros das FP-25 do Estabelecimento Prisional de Lisboa; 7 de Outubro de 1985- Começa o julgamento das FP-25; 15 de Fevereiro de 1986- Assassínio do Director geral dos Serviços Prisionais Gaspar Castelo-Branco, à porta de sua casa, em Lisboa; 20 de Maio de 1987- Condenação de Otelo Saraiva de Carvalho a 15 anos de prisão pelo crime de terrorismo; 16 de Agosto de 1987- Último assassinato das FP-25. O agente da PJ Álvaro Militão é morto durante uma perseguição a três elementos da organização, em Lisboa; 17 de Maio de 1989- Libertação de Otelo Saraiva de Carvalho; 1 de Março de 1996- Assembleia da República aprova amnistia para os elementos presos das Forças Populares 25 de Abril; 6 de Março de 1996- Mário Soares, então Presidente da República, promulga a lei 9/96, que amnistia as “infracções de motivação política cometidas entre 27 de Julho e 21 de Junho de 1991; 9 de Julho de 2003- Prescreve o processo dos chamados crimes de sangue, no qual quase todos os réus foram absolvidos e dois arrependidos condenados, porque o Ministério Público deixa expirar o prazo para recorrer da sentença para o Supremo Tribunal de Justiça; Junho de 2004 - O então Procurador geral da República, Souto Moura, aplica uma pena disciplinar de advertência ao magistrado Gomes Pereira, a quem estava atribuído, na Relação, o processo FP-25. O magistrado apresenta recurso.

 

Em 2009, o Senhor Otelo Saraiva de Carvalho foi abrangido pelo regime previsto na lei de reconstituição de carreiras e foi promovido a coronel, recebendo uma indemnização de perto de 50.000€, e reclassificado num salário de cerca de 3.500€ por mês. Reformado, recebe a pensão correspondente do estado português.

 

As palavras de Otelo merecem uma resposta. A minha, como cidadão, é mandá-lo com todas as letras para um sítio que rima com Carvalho. A das associações representativas dos militares começa a ser dada. Falta agora a das instituições a quem cabe, em primeira linha, preservar o estado de direito. Isto dito, resta-me apenas explicar o título do post. Embora me apetecesse muito e fosse esse o termo adequado, a minha educação não me permite colocar no DELITO um texto começado por fuck off.

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1 comentário

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De macarvalho a 10.11.2011 às 19:02

Excelente post, Rui.
Na mouche.
Nada a menos, nada a mais, mas é urgente lembrar.

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