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Delito de Opinião

Estou a ler A Mecânica da Ficção (1)

Ivone Mendes da Silva, 03.11.11

 

Ontem, na caixa de comentários ao post que escrevi sobre releituras, resolvemos iniciar uma série nova no Delito: Estou a ler

Mais me valia ter estado caladinha, em dieta de posts. Coube-me começar a série, que avançará por ordem alfabética. Um por dia.

Como lá disse, de momento releio A Mecânica da Ficçãode James Wood. Não me perguntem o porquê da releitura. Não sei.

Lembro-me de ter estado, há dias, a escrever num mail uma frase de Mau tempo no canal , “Margarida não ia triste nem alegre: ia embrulhada no casaco cinzento, de gola puxada para cima”, porque era uma excelente frase para ilustrar o que pretendia dizer, mudada a cor do casaco.

Que associação de ideias fiz, não vo-la sei contar, o certo é que, dali a instantes, estava sentada no sofá a beber chá dos Açores e a ler, a reler, A Mecânica da Ficção.

James Wood é um renomado crítico literário, com aversões e admirações como qualquer bom crítico que se preze e, actualmente, professor de Prática da Crítica Literária em Harvard.

Neste livro, conduz-nos ao longo de pequenos capítulos aforísticos entre metáforas e diálogos, como se de uma visita guiada se tratasse. Wood aponta, mostra, chama a atenção. De Iris Murdoch a Tolstói, de Saramago a Joyce, de Proust a Virginia Woolf, de Updike a Shakespeare, de Coetzee a Flaubert, está lá tudo. Quase tudo.

Eu que me prendo, às vezes, nos emaranhados gongóricos de algumas frases e estilos e, por muito que não queira, acabo sempre por voltar ao damasco ondulado de certas formas de dizer e de contar as coisas, não deixo, não quero deixar nunca, de me deslumbrar com a capacidade iluminadora de parágrafos como este:

 

Em Sea and Sardinia, Lawrence descreve as pernas curtas do rei Vítor Manuel; mas refere-se às “suas pequenas pernas curtas”. Tecnicamente, não há necessidade para “pequenas” e “curtas” na mesma frase. Se Lawrence fosse um estudante, o seu professor teria escrito “redundância” na margem da folha e riscado um dos adjectivos. Mas se repetirmos a frase em voz alta, o que é redundante passa a ser inevitável. A frase precisa das duas palavras, porque só as duas juntas produzem o efeito cómico. E “pequenas” não significa exactamente o mesmo que “curtas”: as duas desfrutam da companhia uma da outra; e “pequenas pernas curtas” é mais original que do “curtas pernas pequenas”, por ser mais eufónico, mais absurdo, forçando-nos a tropeçar ligeiramente – um tropeção de pernas curtas – no ritmo inesperado.

 

Estou sempre disposta a que me ensinem a ler melhor. Estou convicta de que ler melhor é viver melhor.

E agora passo ao jaa.

 

Wood, James A Mecânica da Ficção

Tradução de Rogério Casanova

Livros Quetzal (2010)

Col. Textos Breves

ISBN 9789725648551

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