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Delito de Opinião

Um Telefone à Janela

Ana Cláudia Vicente, 18.10.11

Não é difícil figurar a ocasião: apeada em Katowice como correspondente do Daily Telegraph, uma rapariga de quase vinte oito anos cumpria os primeiros dias da tarimba jornalística. O Verão de 1939 não iria durar. Hospedada pelo cônsul britânico, seu patrício, a dita rapariga haveria de ganhar à-vontade suficiente para pedir um dos automóveis do serviço diplomático (dos poucos que ainda tinham direito de  passagem entre a fronteira germano-polaca) para uma caça à notícia e avio de víveres. Do lado de lá traria velas, vinho, muitos rolos para a máquina e aquele que estava destinado a ser o primeiro dos 'furos' da sua vida: o avistamento de um aparato militar massivo no sentido polaco, sinal claro de uma manobra de invasão em curso. De volta a Katowice, conseguiria horas depois linha para a embaixada em Varsóvia de maneira a reportar o que vira. Sabemos hoje que começou por não ser levada a sério: ninguém - nenhuma autoridade militar ou diplomática - tinha ainda relatado tal iminência. Mas o tempo tinha passado, por isso Clare percebeu que restava esticar a corda, ou melhor, o fio do telefone até à janela - a ocupação já estava a acontecer. Em menos de quarenta e oito horas o Reino Unido e a França entrariam no conflito. O resto é História.

Ms. Hollingworth saiu ilesa desse e vários outros palcos de guerra, continuando a trabalhar até muito recentemente; reformou-se lá pelos oitenta, e só porque os olhos lhe começaram a falhar. E qualquer perfil biográfico é pródigo em mostrar o quanto fez após aquele primeiro scoop. Cem vezes parabéns, Clare Hollingworth.

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