A uma conclusão já chegámos: os interesses cruzados de governantes, banqueiros e empresas várias (dos ramos da construção civil, do imobiliário, da gestão de infra-estruturas e de resíduos, das energias renováveis, etc.) tiveram um papel crucial na definição do trajecto que nos trouxe à situação de falência. Demorámos a atingi-la mas ainda bem que agora não restam dúvidas. E escrevo «ainda bem» por dois motivos – por em grande medida ser a conclusão certa e porque nos permite chegar a um corolário confortável: as causas da crise estão na ganância e na miopia dos capitalistas, ávidos de lucro mas incapazes de verem para além do curto prazo, e na corrupção dos políticos. Excelente. Ao menos que exista uma explicação fácil e meia dúzia de culpados que possamos apontar.
Mas esta explicação está incompleta. A miopia não foi somente de quem tinha muito dinheiro e muita influência. Cada pessoa pensou – e continua a pensar – apenas nos seus interesses imediatos. Cada pessoa usou o poder que detinha para cuidar deles. Os banqueiros detinham mais, é certo. Mas os trabalhadores das empresas públicas de transportes, que faziam greves reclamando aumentos salariais num tempo em que os alertas já eram diários, estavam a seguir exactamente a mesma lógica. Como também o estavam os grupos exigindo a admissão de mais funcionários públicos no sector A ou no departamento B. Ou os cidadãos da cidade C ou da vila D reclamando a construção de uma auto-estrada mesmo à porta. Ou as pessoas lutando contra quaisquer reformas que parecessem cortar «direitos adquiridos». Ou as que recebiam subsídios sociais indevidamente. Quase todos nós, de uma forma ou de outra. Em 2009, 54,23% dos portugueses que votaram nas legislativas ainda escolheram o PS, o Bloco ou a CDU, continuando a reclamar direitos impossíveis de satisfazer ou a manutenção de um
status quo que os mantinha relativamente confortáveis (2009 foi o ano em que Sócrates aumentou os funcionários públicos em 2,9% e garantia ser Portugal o primeiro país a sair da crise, lembram-se?). Ao mesmo tempo, empresas definhavam (com excepção das públicas e das que operavam em sectores protegidos, claro) e o desemprego disparava.
So what? Quem mantinha o seu salariozinho intacto permitia-se um trejeito de compaixão em frente do televisor, passava a oferecer dois pacotes de flocos em vez de apenas um durante as campanhas do Banco Alimentar contra a Fome e voltava a concentrar-se na maneira de conseguir mais para si mesmo, usando todo o poder que conseguira arrebanhar. Sim, uns tinham mais responsabilidades – os políticos, que são eleitos para cuidar do interesse geral. Sim, outros tinham obrigação, ainda que apenas por interesse pessoal, de ter percebido a armadilha – os banqueiros, os empresários do regime, os gestores auferindo centenas de milhares de euros por ano em prémios de desempenho. Mas a lógica foi a mesma em todos os níveis da sociedade. Preocupação com os interesses próprios e imediatos. Visão de curto prazo. Miopia. E ainda não mudou. Nem irá mudar. O facto de continuarmos a culpar apenas os outros e a usar os mesmos métodos de sempre (os trabalhadores das empresas públicas de transportes vão
fazer greve em Novembro? A sério?) demonstra-o. Não é defeito do capitalismo, é defeito humano.