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Vidas ligadas às máquinas

por Rui Rocha, em 16.10.11

Estamos no início de 2003. A empresa tem dois meses de salários em atraso. A Administração está ausente como  acontece sempre que as coisas aquecem. As máquinas estão paradas e os sindicalistas à porta. Nada de novo. Sinto-me cada vez mais velho. Treme-me o coração. Que as pernas nunca me tremam quando chegar lá fora. O corredor faz-se em dez passos. Mas, cada um deles tem o peso das oitocentas vidas que estão ligadas às máquinas paradas. Vejo cabeças através dos vidros. Apenas a parte de cima delas. Dezenas e dezenas. Ponho-me a imaginar de quem serão. Aquela parece a do Zé Fernando, o dirigente sindical.  Há sindicalistas que são muito mais equilibrados do que certos patrões. Respiro fundo antes de abrir a porta que dá para o exterior. Força, preciso de força na voz e nas pernas. Penso no Dinis: de quem é isto, DinisÉ Ninis. E na Adélia, grávida da nossa menina. De repente, ouço a voz da Elisabete: está aí a SIC. Fico a pairar, agarrado ao chão. A SIC...  Que se lixe, que filmem, que mostrem.  Depois disso, isto rebenta e cada um vai à sua vida. Sei que a situação é desesperada. Que a empresa já não se salva. Mas, também sei que ainda se podem salvar uns meses. Se a notícia se espalhar, os clientes não colocam nem mais uma encomenda... A SIC que entre para aqui, Elisabete. Apressam-se as apresentações, atropelam-se os argumentos. Não há alternativa a falar, a tentar apresentar a versão mais favorável à empresa e, embora eles ali fora não saibam, às oitocentas vidas ligadas à máquina. Incluindo a minha. A jornalista insiste, com os caninos afiados: devo ser directo nas respostas. O festim de sangue a servir nas notícias à hora do jantar não se compadece com evasivas. Força, preciso de força na voz e nas pernas. De quem é isto, Dinis? É Ninis. Um momento antes de a entrevista começar, um lampejo: a SIC está em processo de despedimento colectivo. Agora apetece-me muito ser directo e conciso. A empresa está em dificuldades, pergunta-me a predadora. Sim, está, tal como a SIC, presumo. Continua, mais agressiva: mas, os trabalhadores estão descontentes, estão a manifestar-se. Sim, mas imagino que a SIC também terá muitos trabalhadores descontentes. Insiste: vai haver despedimentos? Estamos a tentar evitar a todo o custo, mas, como sabe, a situação está muito difícil em todo o lado. A própria SIC, se não me engano, está a fazer um despedimento colectivo, atiro-lhe com um sorriso gelado. Chego a casa em cima das oito da noite. Tenho o Dinis ao colo. Na SIC, as notícias vão saltando até chegarem aos vinte minutos dedicados ao futebol. Tal como esperava, nem uma palavra sobre a empresa. As máquinas, entretanto, voltaram a trabalhar a partir da hora em que o bom senso se fez consenso. O Zé Fernando ajudou muito. Hão-de parar para sempre uns meses mais à frente. O telefone toca. É o Senhor Presidente do Conselho de Administração. Digo-lhe que não passou nada na SIC. Graças a Deus, exclama. Pergunto-lhe se vai à fábrica no dia seguinte. Responde-me que está em Cabo Verde. Em Cabo Verde não há fiações, nem confecções, nem tinturarias. Enquanto penso nisso, já só tenho tempo de me ouvir gritar para o telemóvel: Vá-se...!

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10 comentários

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De Luís Reis Figueira a 16.10.2011 às 15:39

Excelente esta sua crónica, Rui. Porque será que estes "gajos", quando as coisas aquecem, gostam todos tanto de ir para Cabo Verde? Parece-me que o Dias Loureiro ainda continua por lá 'escondido', não?
Se não está escondido, está pelo menos por lá esquecido, que é o que interessa durante os tempos mais próximos, até que apareça alguma esponja conveniente para apagar toda a sujeira e que o reabilite como tem acontecido a muitos outros.
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De Rui Rocha a 16.10.2011 às 15:44

Os répteis têm o sangue frio, Luís. Gostam de se pôr ao sol.
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De Luís Reis Figueira a 16.10.2011 às 18:52

Até nem me pareceria mal se estivessem postos ao sol,... mas ao sol aos quadradinhos!
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De Rui Rocha a 16.10.2011 às 18:54

Bem visto, Luís.
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De IsabelPS a 16.10.2011 às 18:36

O que eu pergunto sempre a mim mesma é que histórias é que eles se contam de manhã ao fazer a barba. Sim, porque imagino que têm de se convencer que a sua estadia em Cabo Verde é absolutamente imprescindível, por exemplo. Confesso que tenho alguma curiosidade.
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De Rui Rocha a 16.10.2011 às 18:43

Eles têm sempre uma história, Isabel. A deles. Completamente desfasada da realidade. Mas, acreditam nela até ao fim.
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De José António Abreu a 17.10.2011 às 10:44

Apetece-me comentar mas nem sei bem como o fazer. Acho que me vou limitar a agradecer a partilha da experiência.
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De Rui Rocha a 17.10.2011 às 14:54

Obrigado, Teresa.
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De Rui Rocha a 17.10.2011 às 14:52

Ah, não tens de quê.

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