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Ainda as preservatices

por Teresa Ribeiro, em 28.03.09

Lamentamos, mas o cardeal Ratzinger é mesmo polémico. E enquanto as críticas, considerandos, adendas ou o que lhe queiram chamar que ele inspira partirem de católicos, nem sequer poderão argumentar que se trata de ingerências abusivas de ímpios nos assuntos da Igreja.


20 comentários

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De fartodisto a 28.03.2009 às 15:30

Em África o maior dos problemas é a malária, não é a sida. Não brinquem com coisas sérias, deixem lá de falar tanto do preservativo.
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De Teresa Ribeiro a 28.03.2009 às 16:18

Tem razão, afinal o que são 20 milhões?
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De ímpia a 28.03.2009 às 18:46

É vê-los a fazer contorcionismo argumentativo para justificar as boutades do santo padre.
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De CasualFriday a 29.03.2009 às 00:41

Ainda acerca dos ecos da viagem do Papa a África , a atenção geral centrou-se unicamente na divulgadíssima frase do Papa sobre o preservativo que "agrava" o problema da sida. Não se falou doutra coisa, e na memória de todos o saldo final da visita do Papa a África fica por aí. Não tenho dúvida nenhuma de que o Papa não focou este problema simplesmente porque é contra o preservativo. O Papa focou um problema de comportamento sexual promíscuo ou anárquico, e referia-se á necessidade de alteração de comportamentos, á diminuição drástica do número de parceiros e á monogamia, como sendo os meios eficazes para combater a propagação da sida. Mas, ao exprimir o seu pensamento repetindo apenas o dogma da proibição do preservativo, a escolha das palavras de Bento XVI foi lamentável. No entanto, também me parece claro que a chuva de críticas de que o Papa foi alvo por causa daquelas palavras não tem origem apenas na proibição do preservativo, antes entronca no problema mais vasto da proibição do uso de todos os métodos anticoncepcionais artificiais determinada pela Igreja Católica. Refiro-me á doutrina "oficial" consagrada no Catecismo da Igreja Católica, e á encíclica Humanae Vitae, que, como é bem sabido, considera moralmente inaceitável e proíbe o recurso pelos casais católicos aos métodos artificiais de regulação dos nascimentos, incluindo a pílula , o preservativo, o DIU, etc.
A meu ver, a raiz de todo aquele alarde pode resumir-se nas palavras certeiras de um activista camaronês: "O Papa vive no céu, mas nós vivemos na terra."
É que, de facto no que concerne á moral sexual, a Igreja Católica fala para o céu, num registo de dogma intransigente, e paralelamente fala para a terra, num registo mais flexível e mais humano, . Por outras palavras: no que concerne p. ex. ao controle da natalidade, a Igreja Católica não tem uma única posição, tem duas: Por um lado, temos a posição "oficial" da Igreja de Bento XVI que vive e fala para o céu, proibindo inflexivelmente o recurso a todos os métodos contraceptivos artificiais (aos cépticos desta doutrina oficial, recomendo desde já a consulta dos pontos n.º 497, 498, 499 e também n.º 492 do Catecismo da Igreja Católica ).
E, paralelamente há a outra a Igreja "da terra" que, pela voz de sacerdotes católicos, sérios e empenhados, aprova indubitavelmente e sem problemas o recurso pelos casais á pílula ou ao preservativo como método para regular e espaçar os nascimentos. Esta Igreja "da terra", feita nas paróquias e nos Movimentos católicos, como as ENS e os CVX, não nos prega a "abstinência", mas sim o sentido de responsabilidade numa vida sexual correctamente assumida.
É nas divergências entre a Igreja do céu e a Igreja da terra que está a questão. Note-se que não se trata apenas de uma diferença de grau, porque há situações em que há uma oposição evidente. Além disso, as divergências entre a Igreja do Céu e a Igreja da terra não se resumem á contracepção, são bem mais vastas. Há muitas outras situações da vida em que a Igreja de Bento XVI diz "NÃO" e a Igreja "da terra" diz "sim". Tal é o que acontece a propósito do recurso á procriação medicamente assistida PMA ) por casais inférteis. Recentemente o Vaticano veio proibir totalmente, seja em que circunstâncias for e sem excepções, o recurso a técnicas de PMA que impliquem a fertilização in vitro , fora do corpo da mulher. Pois a Igreja "da terra" pela voz de sacerdotes católicos consente aos casais inférteis o recurso á fertilização in vitro , recomendando somente a redução do numero de embriões, no sentido de evitar os excedentários. Também a situação dos divorciados recasados obrigatoriamente arredados da comunhão e dos sacramentos é fonte de controvérsia entre a Igreja "do céu" e a Igreja "da terra".
Sobretudo, o que mais choca é que a a Igreja de Bento XVI centra o seu discurso na defesa intransigente do do dogma e da tradição, e transmite uma imagem de Igreja intolerante, desligada dos problemas quotidianos das pessoas do nosso tempo. Pior, de uma Igreja afastada do ser humano, e até insensível ao sofrimento humano associado a algumas das situações referidas, quando o pilar do cristianismo é o amor, a caridade, e a compreensão do humano.
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De Teresa Ribeiro a 29.03.2009 às 02:06

CasualFriday: Agradeço o seu comentário, tão bem fundamentado e que subscrevo inteiramente.
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De Pedro Correia a 29.03.2009 às 02:38

Subscrevo também muito do que escreveu, Casual Friday. E parabéns pelo blogue, que já figura na nossa barra lateral.
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De João Carvalho a 29.03.2009 às 03:49

O seu comentário, Casual Friday, é na verdade um artigo sério que merece toda a reflexão. Não o subscrevo, mas não recuso muito do que escreveu.

Porém, a «Igreja do Céu» e a «Igreja da Terra» é uma dicotomia que facilita o seu raciocínio, mas a vida não é exactamente Céu e Inferno, bom e mau noite e dia, sol e chuva. Em suma: as coisas não se resumem a preto e branco.

A Igreja tem dogmas que os homens aceitam ou não, por sua livre vontade e opção consciente. Mas há meios termos (se assim pode dizer-se), há matizes, os quais resultam precisamente da natureza humana: é que cada homem, mesmo aparentemente afastado da prática "padronizada" do devoto, pode manter a sua fé e ter (como muitas vezes tem) uma relação com Deus que apenas diz respeito a essa sua fé e à sua consciência.

O tema é infinito, como sabe. Pela minha parte, quis apenas lembrar que é inteiramente natural que a Igreja pregue a sua doutrina com base nos seus princípios e não me parece razoável que isso suscite indignação. A Igreja é o que é, apenas isso. E, contudo, ela está reconhecidamente em todos os terrenos a prestar ajuda e toda a sorte de assistência às fraquezas e aos males do mundo e de quem mais precisa.
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De Teresa Ribeiro a 29.03.2009 às 10:34

"... não me parece razoável que isso suscite tanta indignação" - quando, para defender a doutrina da Igreja, vale tudo até ignorar e/ou negar preceitos considerados fundamentais por toda a comunidade científica no domínio da saúde pública, entramos no domínio da irresponsabilidade e do irracional. O Papa, que de acordo com a doutrina católica, tem a particular incumbência de fazer a intermediação entre os céus e a Terra é o último a poder permitir-se ver a realidade a preto e branco.
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De João Carvalho a 29.03.2009 às 12:33

A Igreja, nos seus dogmas, tem posições claras sobre o comportamento sexual, o qual se aceita ou não se aceita. Só isso.

Porém, a prática da Igreja não permite que ignoremos o papel essencial que desempenha, na educação e formação como em todos os níveis da assistência, sem olhar a credos.

Não considero razoável que fiquemos parados a discutir uma expressão infeliz do actual Papa e a ignorar que a Igreja está presente em todo o mundo a fazer o que era constitucionalmete devido aos Estados. A recente afirmação papal não altera nada de nada a esse papel fundamental que a Igreja desempenha na sua prática com indiscutível mérito.
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De Teresa Ribeiro a 29.03.2009 às 13:16

Embora o dogma da infalibilidade papal não determine propriamente que o Papa nunca erra, será certamente fonte de alguns incómodos e constrangimentos por parte dos católicos quando o vêem ser alvo de críticas... Percebo! Mas algo me diz que com o cardeal Ratzinger este tipo de inómodos vão ser mais que muitos :))
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De João Carvalho a 29.03.2009 às 13:21

Vão ser, certamente. Mas a infalibilidade papal não é um dogma, Teresa. E a infalibilidade papal não existe: foi revogada há algumas décadas já.
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De Teresa Ribeiro a 29.03.2009 às 13:30

Foi proclamado no Concílio Vaticano I e revogado há algumas décadas, sim. Porém, os constrangimentos permanecem. É tão óbvio! (sempre vi a "infalibilidade do Papa" ser identificada como um dogma da Igreja Católica...)
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De mike a 29.03.2009 às 12:31

Muito bom, o comentário de Casual Friday. Sabe o que eu acho Teresa? Que Sua Santidade devia ser uma daquelas pessoas que quando fala ou diz que quer dizer alguma coisa, a maior parte das pessoas deveria ter a curiosidade de escutar. A sua posição assim o legitima. Afinal não. E se perguntarem "queres saber o que o Papa pensa sobre...", normalmente encolho os ombros e respondo "nem por isso".
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De Teresa Ribeiro a 29.03.2009 às 13:23

E se calhar o Mike até é um bom católico... Infelizmente estou em crer que este Papa vai fazer mais pelo alheamento e/ou divisão dos católicos do que pela sua união. Nos tempos que correm a Igreja e o mundo ocidental precisavam de tudo menos de um chefe religioso com este perfil.
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De João Carvalho a 29.03.2009 às 18:32

Nisso tem razão. João Paulo II era muito mais sensível aos tempos. E antes dele outros Papas houve, ao longo do século XX, que o foram também. Bento XVI não parece ser.
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De Casual Friday a 29.03.2009 às 19:00

Hello again.
Parabéns pelo vosso blog. Inspirador !!

A Igreja “do céu” e a Igreja “da terra” são obviamente expressões metafóricas, mas exprimem uma divergência real de posições dentro da própria Igreja e entre os seus bispos (O Papa é um bispo) sobre inúmeros temas de fé.

João Carvalho diz que “A Igreja tem dogmas que os homens aceitam ou não de sua livre vontade”.
Certíssimo. A pessoa é livre de fazer e aceitar o bem entender.

Mas não é essa a questão.

A questão põe-se aos católicos que desejam viver em plena coerência com os Mandamentos e a doutrina da Igreja de Roma, mas que são confrontados com 2 posições doutrinais diferentes, por vezes até opostas: uma expressa pelo Papa (e consagrada no catecismo da Igreja da Católica), e outra – diferente ou mesmo oposta - expressa pela hierarquia mais próxima dos fiéis.

Nem de propósito, veja-se como ontem o Senhor Bispo de Viseu não hesitou em defender e sustentar o uso do preservativo por aqueles que não vivem na “abstinência” que prega o Papa.

A questão é que os católicos – a grande maioria – não consegue viver e praticar plenamente a doutrina da “Igreja do Céu – sobretudo nas questões que referi no meu comentário anterior. Então, têm de fazer uma espécie de religião- shopping ”, escolhendo e aceitando alguns preceitos (mas não todos), e rejeitando totalmente os preceitos da Igreja do Céu que lhes parecem demasiados rígidos, intolerantes, impraticáveis, injustos, inalcançáveis, etc..

E, depois sucede aquilo que mike refere no seu comentário: certas declarações do Papa são desvalorizadas entre os próprios católicos, porque nem entre estes colhem aceitação nem compreensão.
O que eu lamento profundamente.

A fé move montanhas, mas ninguém adere sem compreender. «Crê para compreender; compreende para crer» - Santo Agostinho.

A meu ver, o Papa deveria descer do céu e aproximar-se da terra e da Igreja da terra.


P.S. O dogma da infalibilidade papal não foi revogado. Existe ainda e está em vigor.
Transcrevo aqui o ponto 185 da Catecismo da Igreja Católica (in: http://www.agencia.ecclesia.pt/catecismo/default.asp?offset=100):

«185 Quando se exerce a infalibilidade do Magistério (da Igreja)?
A infalibilidade exerce-se quando o Romano Pontífice, em virtude da sua autoridade de supremo Pastor da Igreja, ou o Colégio Episcopal, em comunhão com o Papa, sobretudo reunido num Concílio Ecuménico, proclamam com um acto definitivo uma doutrina respeitante à fé ou à moral, e também quando o Papa e os Bispos, no seu Magistério ordinário, concordam ao propor uma doutrina como definitiva. A tais ensinamentos cada fiel deve aderir com o obséquio da fé. »
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De João Carvalho a 29.03.2009 às 20:15

Foi revogada a prática de outrora: o Papa é infalível em tudo o que afirma. A infabilidade que se conserva está reservado às excepcionais condições especiais definidas.
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De Teresa Ribeiro a 29.03.2009 às 23:54

De facto dogma que é dogma não se revoga. Mas estava certa de que este tinha sido revogado após o Concílio do Vaticano II. Pesquisei e percebi a confusão: Paulo VI quis que a infalibilidade papel não impendesse sobre as directivas que emanaram desse concílio
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De João Carvalho a 30.03.2009 às 00:00

Exactamente. A infalibilidade ficou reservado àquela definição. Caiu então o princípio segundo o qual o Papa era infalível em tudo quanto dizia.
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De Teresa Ribeiro a 30.03.2009 às 00:43

Graças a Deus! (eh!eh!)

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