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A gente vamos ao Continente?

por João Carvalho, em 06.10.11

Finalmente, começo a perceber que não sou o único chocado com o caso, o que me deixa muito mais aliviado.

O Continente

Somos Todos Nós

O país inteiro tem visto e ouvido isto vezes sem conta. Mas, apesar do massacre orgulhosamente exibido, bem pode a marca limpar as mãos à parede. O Continente somos?! O sujeito na primeira pessoa do singular e o verbo na primeira pessoa do plural? Tipo a gente queremos ir ou a gente vamos? E por que não o Continente é todos nós?

O erro é de palmatória. Longe vai o tempo em que a SONAE Distribuição tinha uma direcção de marketing exigente, que punha qualquer agência a deitar fumo pelas orelhas, se quisesse ficar com a conta do Continente. Adivinha-se que esta falta de exigência hoje em dia nada augura de bom.

Afinal, era tão simples criar a mesmíssima ideia em bom português. E até dava para incluir uma rima no slogan (o que, nestas coisas, às vezes não é totalmente indiferente).

O Continente

É Toda a Gente

Tão simples que até chateia. Claro que "ele é" não gera o mesmo envolvimento que "nós somos", mas não se pode ter tudo ao mesmo tempo. As campanhas servem precisamente para preencher o que falta e resolver isso. Só nunca resolvem a promoção da subcultura.


24 comentários

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De sampy a 06.10.2011 às 12:23

Mais uma vez, permita-me discordar da análise feita. Mesmo dando de barato que o assunto não é consensual.

Neste tipo de frases, as funções de sujeito e predicado não são determinadas pela posição que as palavras ocupam - se antes, se depois do verbo.

No caso em apreço, é de todo possível e aceitável considerar como sujeito da frase o pronome "nós". Pelo que a concordância verbal estará correcta.
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De João Carvalho a 06.10.2011 às 12:41

Na verdade, está incorrecta. Em linguagem (digamos assim) "popular", pode considerar-se passable, mas está incorrecta. Pior ainda quando existem alternativas que repõem cabalmente o bom português.
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De sampy a 06.10.2011 às 13:33

Insisto: a norma não se aplica a este tipo de frases, chamadas de identificacionais, isto é, em que surge o verbo "ser" identificacional. É mais uma das subtilezas da língua portuguesa, que a tornam tão complicada e tão saborosa.

Numa frase deste tipo, a presença de um pronome pessoal nominal acaba por condicionar a fórmula verbal. É como se tivesse maior poder de atracção ou mais força gravitacional que outras expressões nominais presentes. Surja em que posição surgir, torna-se o sujeito da oração.

Exemplos:
O Continente sou eu
O Minipreço és tu
O Lidl somos nós
O Pingo Doce são eles
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De João Carvalho a 06.10.2011 às 14:51

Eu percebi à primeira, essa das frases e dos verbos identificacionais (o mundo mudou muito). Faz muito bem em insistir. É como eu, com uma diferença: eu sou um pré-identificacional!
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De José a 06.10.2011 às 15:57

O João Carvalho que me desculpe, mas neste post faz triste figura. Nem é preciso falar-se em orações identificacionais, uma vez que estas questões já são reflectidas há muito tempo. Eu dei-me ao trabalho de ir consultar a gramática do Lyndley Cintra e do Celso Cunha: com o verbo ser a concordância pode fazer-se arbitrariamente quer com o predicativo quer com o sujeito. E passo a citar: "com o singular [os autores] procuram realçar o conjunto, e não os elementos que o compõe, a fim de sugerir-nos as diferentes realidades transformadas numa só coisa." Em seguida oferem-nos como exemplo a seguinte citação de Camilo Castelo Branco: "Há neles muita lágrima, e o que não é lágrimas são algemas." Qualquer que seja a nomenclatura gramatical utilizada, parece-me pouco sensato querer corrigir Camilo Castelo Branco. Mas há mais: "O resto são atributos sem importância" (Miguel Torga), "Um dia não são dias" (expressão absolutamente comum), "Tudo na vida são verdades de relação (Urbano Tavares Rodrigues), "Se calhar, tudo é símbolos" (Fernando Pessoa) etc etc etc
Se calhar, a direcção de marketing da Sonae não vai tão mal quanto se faz crer...
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De João Carvalho a 06.10.2011 às 16:08

É, se calhar a direcção de marketing são bons. Esta discussão não existe, meu caro: trata-se apenas de pôr direito aquilo que pode estar direito e não está. Ponto final.
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De Gustavo a 06.10.2011 às 17:54

Caro João Carvalho, A frase está certa, como se diz no comentário acima. Continente aqui é o complemento directo: todos nós somos o quê? O continente. Exemplo: todos nós somos Portugal (formamos, contituímos Portugal). O sujeito da frase é «todos nós», o verbo é ser e o complemento directo (o que somos?) é o continente.
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De João Carvalho a 06.10.2011 às 18:33

Quase me convenceu.
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De Gustavo a 07.10.2011 às 02:56

Portugal somos todos nós.
Aponte o erro. Não há qualquer liberdade. É bom português.
Mas antes alguém que erra por preocupação com a gramática, do que que quem erra por se «estar nas tintas».
O verbo ser concorda com o sujeito e/ou com o complemento directo. Assim, não se diz Portugal é todos nós - o que também não é erro... mas Portugal somos todos nós.
E vou dormir que são quase três da manhã? São três? Ou «é três da manhã»? «São» é o correcto...
O verbo ser tem regras próprias de concordância.
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De João Carvalho a 07.10.2011 às 03:16

Hum... Ser humano? Seres humano? Passa das três da manhã? Passam das três da manhã?
(Estou a brincar, claro.)
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De Eduardo Louro a 06.10.2011 às 16:11

Eu acho, João, que, mais que um verbo, é uma questão "identifcacional": de identificação, mesmo!
Tem tudo a ver com a Madeira, a verdaeira chave do "identificacional". Por cá, só quando isto começou a apertar se percebeu que "o estado somos todos nós". "Identificacional, portanto!
Agora, que a coisa por lá também vai apertar, vão os madeirenses, para quem o Estado é outra coisa, perceber que "o continente somos todos nós! Todos eles, também, por causa do "identificacional". Os tipos da SONAE só acharam isto giro...
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De João Carvalho a 06.10.2011 às 18:37

Quase me convenceu. Para que conste: a gramática foi dando cobertura, quando necessário, a diversas liberdades literárias. Esta é uma delas... mas pode ser que não. Sim, quase me convenceu.
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De PALAVROSSAVRVS REX a 06.10.2011 às 19:00

Já tinha observado o fenómeno, João. Demasiadas sms e muito pouco Celso Cunha e Lindley Cintra dá no que dá.
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De João Carvalho a 06.10.2011 às 23:15

Também acho, Joaquim. Mas reconheço que há boas e convincentes lições nos comentários mais acima. No mínimo, o caso é polémico e, como procurei explicar, era escusado.
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De Ana Lima a 07.10.2011 às 00:30

Mesmo não entrando na questão gramatical pura não me parece que os técnicos de marketing da Sonae não estivessem cientes das dúvidas que esta frase iria causar. Pode-se discutir o assunto, claro, mas, quanto a mim, ela é apenas fruto da liberdade publicitária pois comparando a frase utilizada e a proposta pelo João não há dúvida que a primeira produz um efeito de envolvimento num colectivo que a outra não tem. "Somos nós" é bem diferente, em termos psicológicos de "é toda a gente".
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De beep a 07.10.2011 às 02:40

A frase está correcta. O que é uma questão gramatical impura?
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De João Carvalho a 07.10.2011 às 02:59

Deve ser o contrário de uma questão gramatical pura. Que tal? Acha que andei bem agora?
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De João Carvalho a 07.10.2011 às 02:55

Exactamente o que eu quis dizer, Ana. E existe polémica, que é suscitada pelas dúvidas.
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De Fernanda M. a 07.10.2011 às 11:13

Isto é uma silepse.
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De João Carvalho a 07.10.2011 às 11:40

Ora ainda bem que isto começa a ter nome! E isso é coisa boa ou nem por isso?
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De FernandaMarques a 07.10.2011 às 22:05

silepse: concordância subentendida em género e número, não segundo as leis gramaticais, mas segundo a ideia presente no espírito do escritor.

Assim:
O Continente (que é constituido por todos e para todos) somos nós.


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De João Carvalho a 07.10.2011 às 23:19

Soa-me bem. Continuo a achar que anda perto da liberdade literária.
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De anónimo a 09.10.2011 às 10:43

Obrigado, estou sempre a aprender. Uma coisa é certa: todos os dias este blog e mais uns quantos (poucos), são visita obrigatória e ... muito agradável.
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De João Carvalho a 09.10.2011 às 12:05

É bom sabermos.

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