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Que sobreviva a República!

por Rui Rocha, em 04.10.11

No estado actual do país, existe uma única razão para assinalar o 5 de Outubro: o facto de não sermos uma monarquia. A república, esta que temos, exala um insuportável cheiro a bafio. Mas, não a trocava pelas lantejoulas e o néon de uma qualquer ideia de predestinação. Isto dito, neste preciso momento, não há nada mais a comemorar e há tudo para reflectir. O decoro imporia que o dia de amanhã se passasse em recolhimento e  meditação. E, sobre o ruído obsceno das fanfarras e o semblante soerguido dos altos dignitários, melhor seria que se impusesse o silêncio da contrição e um piscar de olho honesto ao futuro.  Há neste estertor que vivemos um contrato social em ruínas. Porque já não é deste tempo. E porque nunca foi cumprido. É urgente que nos aproximemos de um novo denominador mínimo e comum. Que reflicta exactamente o que somos, pobres e endividados como estamos. Mas, que não prescinda de uma dimensão aspiracional, que nos desafie a desbravar terreno. No momento actual, é óbvia a necessidade de temperar os direitos com obrigações. Devemos reconhecer que, no que diz respeito ao trabalho, à habitação, à educação,  à assistência médica e à segurança social, cabe ao Estado assegurar o contexto. Mas, é a cada um dos cidadãos que cabe a responsabilidade pelo seu percurso. Não nos bastaria já um sistema de educação perfeito ainda que o tivéssemos. Numa sociedade avançada, o dia seguinte da educação é o mérito. Falta-nos fazer muito em matéria de educação. Falta-nos fazer tudo em matéria de mérito. Aos políticos não podemos aceitar que nos queiram fazer felizes. Porque o direito de o sermos ou não é nosso e inalienável. Deles apenas se pretende responsabilidade pelos seus actos  Mas devemos exigir, por exemplo, que não sejam cúmplices de monopólios que repercutem nos preços cobrados aos consumidores as suas ineficiências. Precisamos muito de respeito pelos nossos impostos. E isso passa por uma criteriosa gestão de custos e benefícios. E também por não sermos taxados pelo sector privado, de forma explícita ou implícita, como tem acontecido no caso das parcerias impúdico-privadas. Não há nenhum rubor que se imponha por sermos pobres se, apesar de tudo, quisermos ainda ser justos e íntegros. A ética republicana, se existe, não é um ponto de partida e, por definição, nunca será um lugar de chegada. Mas, pode muito bem ser um caminho.

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6 comentários

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De Vincent a 04.10.2011 às 17:49

Subscrevo quasi por inteiro o seu texto, ressalva feita para a o conteúdo da frase:" No momento actual, é óbvia a necessidade de temperar os direitos com obrigações".
Com efeito, a fase da invocação a esmo dos direitos adquiridos passou à história, situação actual oblige "!
"Temperar" é um termo, a meu ver, situacionista, incompatível com o "ferro e fogo" da situação que vivemos e viveremos doravante.Impõe-se que, voluntariamente, sejamos menos egoístas, especialmente quem tem trabalho, ordenado e Natal e Férias pagas,mesmo com o imposto extraordinário.
A larguíssima camada da população que sobrevive com ordenados de miséria (já para não falar dos desempregados e do grosso dos reformados) exige uma almofada social fruto do nosso altruísmo voluntário, a par de uma acção consequente do governo, em várias sedes (banca, grandes grupos económicos, bolsa, etc..) que minimize o efeito da crise junto de quem não tem, pura e simplesmente, saídas - um novo contrato social, uma refundação da República.
.
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De Rui Rocha a 04.10.2011 às 18:03

E a mim não me custa nada subscrever o seu reparo, apenas com a seguinte salvaguarda: que o esforço pedido aos cidadãos seja, efectivamente, acompanhado pelo desmantelar dos interesses instalados que também refere.
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De AMendes a 04.10.2011 às 19:01

O fado vem de longe:

" Quando ninguém precisa da cooperação da sua força chamam-lhe Zé Povinho, figurando-o com uma albarda às costas e é o lobo manso de quem todos mofam.Quando aos filósofos em desinteligência convém açulá-lo, chamam-lhe o Povo Soberano, omnipotente e absuluto.
Por sua parte ele acha-se no seio da civilização que o explora como o touro em tarde de corrida no meio do redondel. É puro, bravo,boiante e claro. Está aí para o que quiser dele o capinha,o bandarilheiro e espada. Acenam-lhe com um trapo encarnado e ele arrancará sempre com lealdade e braveza, entrando pelo seu terreno, acudindo ao engano e indo ao castigo de todas as vezes que o citem para atacar,para escornar, para estripar e afinal pra morrer, o tudo para ele é unicamente marrar.
Como o boi puro o povo não se desilude nunca,nunca se desengana da lide. Um dos seus lidadores, num desses comícios suburbanos a que o povo fielmente concorreu em quase todos os domingos da propaganda revolucionária durante os dois ultimos anos de regime monárquico, pôs-lhe mui hábil e gráficamente diante dos olhos este argumento aritmético demonstrativo da fome da nação originado pela lista civil no orçamento geral do Estado. O orador somou, a parcela por parcela, o que recebiam o rei e as demais pessoas da família real; dividiu o total em reis,por 80, e demonstrou pelo quociente que cerca de quatrocentas mil familias receberiam de graça dois pães de pataco desde o dia imediato ao do advento da República, em que se distribuisse pelo povo o que devorava a realeza...
..." Ora sucede que, abolida a Monarquia, achando nós no mes 5 do ano I da República, nenhum pão de pataco dos oitocentos mil que ingeria o rei, foi por enquanto distribuido ao povo, e que o mesmo povo, outra vez transferido de "Povo Soberano" a "ZÉ Povinho..."

Ramalho Ortigão- Farpas.
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De Rui Rocha a 04.10.2011 às 19:29

É próprio dos clássicos, Amendes. Permanecem actuais.
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De lucklucky a 05.10.2011 às 01:48

Há muito pouco Republica em Portugal infelizmente, por isso chamar ao regime de Republica é demasiado forte.

O que temos é uma Democracia Social-Corrupta-Populista onde o dinheiro dos outros está todo controlado pelo voto.
Ou seja há uma tirania económica da maioria sobre a minoria.

Essa maioria julga que vota para tirar à outra parte e acabam todos mais pobres e mais corruptos.

Só quando a Republica chegar á economia das pessoas - limites aos impostos e dívida na Constituição - limitando assim o poder da Democracia de levar o país para a bancarrota e da maioria ter poder para tirar tudo à minoria, é que teremos um Republica.

É aliás o que se passa na América cada vez menos Republicana nas suas Instituições.A destruição lenta da Republica Americana - o grande passo foi dado no New Deal - que a está a levar cada vez com mais frequência para a bancarrota.
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De Rui Rocha a 05.10.2011 às 11:02

Você deprime-nos, Lucky. Talvez porque tenha razão.

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