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A Game of Thrones

por João Campos, em 30.09.11

Quem ainda não ouviu falar de A Game of Thrones, do norte-americano George R.R. Martin, irá certamente ouvir em breve, quando a adaptação do romance para série televisiva da HBO estrear por cá em Outubro, no Sy-Fy. Uma excelente adaptação, aliás, como a HBO já nos habituou. Mas deixemos a adaptação para outro dia, e falemos dos livros hoje.

 

A Game of Thrones (na tradução portuguesa, A Guerra dos Tronos), publicado em 1996, é a primeira parte da série A Song of Ice and Fire, que já conta com cinco livros publicados: A Clash of Kings (1998), A Storm of Swords (2000), A Feast For Crows (2005) e A Dance With Dragons (2011). Mais dois estão previstos, The Winds of Winter e A Dream of Spring, apesar de ser impossível fazer qualquer previsão sobre a conclusão e publicação das duas últimas sequelas. Dentro da literatura de fantasia, há muito quem considere A Song of Ice and Fire a melhor série do género desde que Bilbo encontrou o Anel e Frodo teve de resolver o problema. Talvez não seja a melhor série literária do género deste Tolkien - o britânico Philip Pullman, com a trilogia His Dark Materials, é sempre um sério candidato ao segundo lugar -, mas não fica longe, e conseguiu refrescar um género que, ao longo dos anos, usou e abusou das ideias do velho professor inglês. 

 

A verdade é que A Game of Thrones aproxima-se muito mais da nossa História medieval do que das narrativas de fantasia convencionais. George Martin assume ter retirado bastantes ideias de episódios históricos como a Guerra das Rosas, entre outros. Os elementos do fantástico estão presentes, e tornam-se cada vez mais relevantes à medida que a série avança, mas a intriga e os conflitos entre as várias casas nobres e facções políticas e militares do mundo ficcional dos Sete Reinos de Westeros constituem o verdadeiro motor de toda a história, à medida que os apoiantes das grandes casas Stark, Baratheon, Arryn, Tully, Lannister, Tyrell e Martell (e outros, tantos outros), sem esquecer os despojados herdeiros dos Targaryens, se embrenham nas malhas da intriga da capital do reino. E, acrescente-se de passagem, que intriga!

 

A estrutura narrativa é outro dos pontos fortes de A Game of Thrones, com a estrutura por capítulos a abdicar dos narradores de primeira ou terceira pessoa convencionais. Cada capítulo do livro tem como título o nome de uma personagem, e é narrado de acordo com o ponto de vista dessa personagem. Esta estrutura pode parecer estranha ao início, mas revela-se surpreendentemente dinâmica à medida que a história progride, dando protagonismo a vários personagens em localizações distantes. Sem esquecer, claro, que diferentes personagens encaram as situações de formas distintas, e também isso é visível ao longo da narrativa. 

 

Em resumo, A Game of Thrones (e o resto da série) é uma leitura cativante, que certamente não decepcionará quem gostar de uma boa história muito bem contada. Deixo contudo o aviso: George Martin parece retirar particular satisfação de quebrar convenções, e a noção de "plot armor" é praticamente inexistente na sua obra. Dito de outra forma, e em jeito de advertência a potenciais leitores: não se afeiçoem demasiado às personagens, mesmo que (aparentemente) elas sejam protagonistas. É bastante provável que venham a ter alguns dissabores (que, na minha opinião, só melhoram a leitura). 


14 comentários

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De Bernardo Hourmat a 30.09.2011 às 11:37

Comecei a embrenhar-me nesta saga precisamente este mês que passou. Já dei conta dos primeiros dois volumes e fiquei agradavelmente surpreendido.
É realmente uma trama muito bem montada e escrito de tal forma que, pelo menos para mim, torna-se muito fácil visualizar todos os pormenores.
As personagens são excepcionalmente bem construídas e não obstante o pormenor que (muito bem) refere, não deixam de ficar na memória apesar de alguns dos dissabores que possam vir a surgir.

Já agora, é bom saber que vão passar a série cá..Só é pena não ter o canal...=/
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De João Campos a 30.09.2011 às 20:40

O terceiro volume (ou antes, o terceiro livro, pois a Saída de Emergência, que edita a série em Portugal, optou por dividir cada livro em dois devido às suas consideráveis dimensões) é uma autêntica bomba literária.

Pode ser que a RTP2 compre também os direitos da série um dia destes. Seria óptimo - a série adapta muito bem o livro, e não fica a dever nada às excelentes séries que o segundo canal passa.
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De Javali a 30.09.2011 às 11:45

Nunca ninguém fala de David Eddings, que escreveu pelo menos 2 séries de fantasia ("The Belgariad" e "The Malloreon") com bastante interesse. Como todos os outros, com suficientes tolkienismos pelo meio, é certo, mas num contexto de mundo medieval como acaba de identificar neste "A Game of Thrones".
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De João Campos a 30.09.2011 às 20:42

Eu tenho uma posição similar, mas para com Jeff Grubb, que escreveu aquela que para mim é a melhor história de fantasia desde O Senhor dos Anéis: The Brothers War (não há tradução). Infelizmente, por fazer parte da história de um jogo de personagens (Magic: The Gathering), nunca obteve o destaque merecido.

De David Eddings não tinha ainda ouvido falar, mas fica a sugestão anotada (com o devido agradecimento). Hei-de ler em breve.
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De Hugo da Graça Pereira a 30.09.2011 às 22:59

Porque será que sempre que se fala de obras que lidam com o fantástico há a tentação de as comparar ao mundo de Tolkien ? Tolkien não tem comparação possível e nunca foi igualado até aos dias de hoje. E isto por uma razão muito simples: nenhuma obra de fantasia conseguiu jamais alcançar a disseminação, o carinho do público e o estatuto de ícone que as obras de Tolkien alcançaram. E mesmo essas precisaram de umas largas décadas para o fazer.

O estatuto de um obra de referência não depende apenas e só do valor intrínseco da obra (o que quer que isso seja), mas também da idealização ou conceptualização que geração após geração se vai cristalizando na memória colectiva de uma sociedade. Tolkien hoje em dia é um clássico universal e, no seu género, não se equipara a nenhum outro. Porventura outras obras existirão com o mesmo potencial, mas se alcançarão esse tão almejado estatuto apenas o futuro o poderá dizer.
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De João Campos a 01.10.2011 às 11:32

Hugo, eu concordo com tudo o que diz. A comparação com Tolkien pode já cansar, mas é sempre inevitável: ele pode não ter criado a literatura de fantasia, mas deu-lhe a forma que hoje conhecemos. O próprio Martin assume Tolkien como uma das suas principais influências.
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De sampy a 30.09.2011 às 23:57

Coloco algumas reticências sobre Philip Pullman. Não pela criatividade da obra, mas pela sua agenda ideológica.
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De Daniela Major a 01.10.2011 às 01:11

Concordo. Muita ideologia ali.. O Tolkien e a Rowling ao menos ainda disfarçavam.
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De João Campos a 01.10.2011 às 11:49

Tolkien sempre refutou qualquer associação ideológica em O Senhor dos Anéis. A obra não vale por qualquer associação alegórica (o autor dizia abominar alegorias) com os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, ou com a religião cristã (duas das mais comuns interpretações). Já li Tolkien quatro vezes, pelo menos, e nunca sequer me ocorre qualquer questão ideológica.

Quanto a Rowling... eu gosto muito da série Harry Potter, e tenho um grande respeito por J.K. Rowling, mas sejamos francos: Harry Potter é outro campeonato. É uma série interessante, tem elementos muito bons, e a leitura é mesmo viciante, mas em termos literários não é sequer remotamente comparável a Tolkien, Pullman ou Martin.
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De João Campos a 01.10.2011 às 11:46

Mas o que tem a agenda ideológica a ver com a qualidade da obra literária? Independentemente de se defender ou não as posições ateístas de Pullman, a verdade é que His Dark Materials tem tudo o que se pode exigir de uma obra de fantasia: excelentes personagens, um enredo absorvente, e muita, muita imaginação.

Invertendo o raciocínio, quem não tem fé não lê a Bíblia, que com toda a imaginação que possa conter, é um livro religioso.
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De sampy a 01.10.2011 às 00:06

Aproveito para informar que está previsto George R. R. Martin vir a Portugal em meados de Abril do próximo ano (Lisboa e Porto).
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De João Campos a 01.10.2011 às 11:51

Obrigado, sampy. Da minha parte, já sabia, mas fica a informação para os leitores. Será a segunda vez que Martin vem a Portugal. Espero conseguir falar com ele mais uma vez - ao menos agora já li os livros (o que, em 2008, não impediu que tivesse uma conversa muito interessante com ele).
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De sampy a 01.10.2011 às 23:04

Chamo também a atenção para o "artwork" ou "cover art" inspirado na obra de Martin. Tem dado origem a trabalhos gráficos fabulosos e é deveras útil para o processo de visualização do imaginário de SoIaF.
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De João Campos a 02.10.2011 às 13:03

Isso é um aspecto interessante nos universos de fantasia e ficção científica: geram imenso artwork de grande qualidade. Podemos falar de literatura, como A Song of Ice and Fire, mas também filmes, séries e jogos - sobretudo jogos - são uma fonte de inspiração recorrente para muitos artistas amadores e profissionais. Já vi ilustrações de videojogos feitas por fãs capazes de envergonhar muito ilustrador que por aí anda.

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