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O genocida que gostava de ler

por Pedro Correia, em 30.09.11

É mais apaziguador pensarmos em Adolf Hitler como um demente, virtualmente iletrado: duas doses de extremo fanatismo misturadas com uma dose de loucura produziram o mais repugnante ditador de todos os tempos. Mas alguns estudos históricos rigorosos e muito bem documentados têm desfeito aquela imagem demasiado esquemática do líder nazi -- o que acaba por ser ainda mais arrepiante. Hitler era um leitor compulsivo, possuía uma enorme biblioteca privada, com cerca de seis mil obras espalhadas por três residências (Berlim, Munique e Obersalzberg), segundo revelava já em 1935 uma reportagem assinada por Janet Flanner na New Yorker. Anos depois, o correspondente da United Press International na capital alemã, Frederick Oechsner, avaliava em 16.300 o número de volumes da colecção particular do Führer.

São inúmeros os testemunhos sobre os hábitos de leitura do líder nacional-socialista -- desde os tempos em que combatia como cabo nas trincheiras da I Guerra Mundial até aos dias finais de Abril de 1945, no bunker da chancelaria de Berlim, com a cidade já invadida pelos blindados soviéticos. Costumava ler com um lápis na mão e fazia frequentes anotações nas margens. Quase como se dialogasse com o autor.

Nenhum investigador foi tão longe nesta matéria como Timothy W. Ryback, colaborador habitual da Atlantic Monthly, da New Yorker, do Wall Street Journal e do New York Times, que analisou minuciosamente os 1224 livros remanescentes do ditador -- "que constituem, no máximo, 10% da sua colecção particular" -- hoje depositados na secção de livros raros da Biblioteca do Congresso, em Washington, e na Universidade de Brown, Providence (estado de Rhode Island). Perdidos talvez para sempre, no saque que se seguiu à tomada do bunker hitleriano em 2 de Maio de 1945, estão os cerca de 80 volumes que acompanharam o tirano até ao fim. Um deles -- presume-se -- seria a versão alemã, condensada, da vasta biografia de Frederico o Grande escrita pelo historiador britânico Thomas Carlyle que lhe fora oferecida semanas antes por Joseph Goebbels.

 

Hitler devorava biografias: Júlio César e Napoleão eram duas das personalidades que o fascinavam. E tinha também especial predilecção por obras relacionadas com arte, sobretudo arquitectura. Mas era igualmente um leitor voraz dos dramas de William Shakespeare, conhecia o Quixote e não escondia o fascínio por pensadores germânicos como Kant, Fichte, Schopenhauer e Nietzsche. O "triunfo da vontade" foi um dos conceitos nietzschianos que incorporava sistematicamente nos seus discursos.

Nada mais perturbante do que um genocida que gostava de livros -- embora tivesse também mandado queimar muitos na praça pública, incluindo obras de Freud, Brecht, Erich Maria Remarque, Thomas Mann e Stefan Zweig. Na sua biblioteca caseira havia de tudo um pouco -- exoterismo, religião, astrologia, volumes inócuos de auto-ajuda, As Viagens de Gulliver, livros sobre campanhas militares, panfletos de promoção da cozinha vegetariana e a mais execrável propaganda nazi. Também lá figuravam, em destaque, títulos como Peer Gynt, de Ibsen, e Feuer und Blut, de Ernst Jünger, e muitos policiais, incluindo a obra completa de Edgar Wallace. Além, naturalmente, do eterno Príncipe, de Maquiavel, e Da Guerra, de Clausewitz. "Era a biblioteca de um diletante", assinala Ryback. Mas uma biblioteca praticamente apenas omissa em poesia.

 

"Tiro o que preciso dos livros", gostava de afirmar Hitler. Uma das secretárias que o acompanharam até ao fim, Traudl Junge, conservava em 2001 a memória dos dias crepusculares no bunker, com o autor de Mein Kampf "sentado na sua poltrona, munidos dos seus óculos, a ler um livro" enquanto o regime totalitário se fragmentava em escombros.

O arrebatado leitor de Fichte e Nietzsche prometera que o III Reich duraria mil anos: bastaram 12 para este reino de terror chegar ao fim. Ignoramos se o Führer alguma vez chegou a ler Ricardo III. Mas entre as ruínas do seu regime poderia dizer como este rei imortalizado por Shakespeare: "Lançar-me-ei com negro desespero contra a minha alma e acabarei convertido em inimigo de mim mesmo."

 
A Biblioteca Privada de Hitler. Autor: Timothy W. Ryback. Civilização Editora, Porto, 2011.
Classificação: ****

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14 comentários

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De luckluky a 30.09.2011 às 17:51

Não sei qual a surpresa o movimento eugénico nasceu nas elites educadas. O Fascismo também. O Comunismo também. É natural que o Nazismo também o tenha sido.
São tudo movimentos intelectuais.
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De Pedro Correia a 30.09.2011 às 19:40

Nunca deixa de ser surpreendente verificar que a cultura não torna necessariamente ninguém incapaz de cometer os crimes mais repugnantes - incluindo os crimes de estado.
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De lucklucky a 30.09.2011 às 22:23

Ao dizer isso parece que a sua definição de cultura parece muito restrita e parcial.
O que é produzido pelo intelecto humano é cultura, logo Mein Kampf é cultura. Imoral.

Qualquer dos movimentos Comunista, Nacional Socialista ou Fascista foram movimentos culturais. E além de ideologia - já de si cultura- tinham arte, arquitectura, literatura.

O esclavagismo é um caso exemplar. Pois o establishment cultural é que dava significado à diferença de raça enquanto os adeptos do mercado livre não davam. Daí veio a acusação de "Dismal Science" aplicada à economia. Porque a economia não se importava com a cor da pele e as forças da "Cultura" que representavam a civilização consideravam tal elemento essencial, logo a teoria económica colocava em causa a civilização.

Dismal Science foi um epíteto lançado pelo "historiador britânico Thomas Carlyle" acima referido no seu texto...

"Carlyle also made a favourable impression on some slaveholders in the U.S. South. His conservatism and criticisms of capitalism were enthusiastically repeated by those anxious to defend slavery as an alternative to capitalism, such as George Fitzhugh.
The reputation of Carlyle's early work remained high during the 19th century, but declined in the 20th century. His reputation in Germany was always high, because of his promotion of German thought and his biography of Frederick the Great. Friedrich Nietzsche, whose ideas are comparable to Carlyle's in some respects, was dismissive of his moralism, calling him an "insipid muddlehead" in Beyond Good and Evil and regarded him as a thinker who failed to free himself from the very petty-mindedness he professed to condemn. Carlyle's distaste for democracy and his belief in charismatic leadership was unsurprisingly appealing to Adolf Hitler, who was reading Carlyle's biography of Frederick during his last days in 1945."

http://en.wikipedia.org/wiki/Thomas_Carlyle

Carlyle uma das principais forças culturais na altura...
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De Pedro Correia a 30.09.2011 às 23:56

Carlyle foi um dos mais célebres historiadores da sua época. Mas o culto que lhe foi prestado pelos nazis contribuiu para a desvalorização das obras deste notório defensor da escravatura, da superioridade racial branca e dos ditadores "carismáticos".
Há cultura e cultura. Você não pode colocar as sonatas de Bach no mesmo patamar do 'Mein Kampf'. Insólito, à primeira vista, é que um apreciador de Bach possa ter escrito 'Mein Kampf'. Claro que não existe uma incompatibilidade lógica entre uma coisa e outra. Mas, à partida, muita gente se sentiria inclinada a pensar que sim.
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De Hugo da Graça Pereira a 30.09.2011 às 22:26

O conhecimento não tem, em si, qualquer valor moral ou ético. É uma ferramenta. E como tal os produtos que dele derivam dependem em primeira instância do homem ou mulher que o "empunha".
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De Pedro Correia a 30.09.2011 às 23:57

Sem dúvida. Como os casos de Hitler, Estaline, Mussolini e Mao - entre outros - bem documentam.
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De João Carvalho a 30.09.2011 às 18:46

Excelente, compadre.
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De Pedro Correia a 30.09.2011 às 19:31

Obrigado, compadre. Procurei demonstrar, com base nesta interessantíssima obra de Timothy Ryback, que a instrução e a cultura não são antídotos garantidos contra a barbárie.

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De Ivone Mendes da Silva a 30.09.2011 às 18:54

Tens razão, Pedro, seria muito mais apaziguador. É precisamente esse o desconforto que se sente quando se ouve contar que alguns oficiais nazis iam para casa ouvir Bach depois de mandarem ligar as torneiras do gás.
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De Pedro Correia a 30.09.2011 às 19:30

Isso mesmo, Ivone. A ideia de um tirano com as mãos manchadas de sangue que apreciava arquitectura, música clássica, cozinha vegetariana e algumas obras fundamentais da literatura é sempre mais incómoda e perturbante do que a fúria arrasadora de um louco boçalóide e virtualmente analfabeto.
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De Hugo da Graça Pereira a 30.09.2011 às 22:41

Creio que não o/nos incomoda apenas pela ideia de que a sua cultura não o impediu de se tornar num monstro. Incomoda-o/-nos, quiçá mais ainda, o facto de termos coisas em comum com ele. Gostamos de catalogar alguém como Hitler como um ser quase alienígena, com o qual nunca seríamos comparáveis. É desconfortante e inquietador compreender que possivelmente nos poderíamos ter cruzado com ele numa qualquer livraria e ter trocado algumas palavras interessantes à cerca de Nietzsche e ter ido para casar a pensar que "Que pessoa interessante"...

As pessoas têm várias camadas e não podem ser definidas com facilidade, se é que o podem de todo. Quantos homens com as mãos manchadas de sangue são pais extremosos? Em linha com esta temática deixo-lhe o link para uma troca de ideias que tive há uns dias com o José Ricardo Costa no seu Ponteiros Parados em que também se falou de Hitler:

http://ponteirosparados.blogspot.com/2011/09/posicoes.html
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De Pedro Correia a 01.10.2011 às 00:01

O mesmo poderia dizer-se de Estaline, também um leitor compulsivo e profundo conhecedor dos clássicos russos. Parece-nos aberrante que alguém possa passar a manhã a ler Tolstoi ou a ouvir Beethoven e à tarde dê ordens de extermínio de uns tantos milhares de pessoas.
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De lucklucky a 01.10.2011 às 20:32

Num certo sentido um escritor é alguém que dispõe dos seus personagens como um ditador dispõe dos seus súbditos.
Já não me recordo quem disse que a arte é uma produção ditatorial e não democrática.
Talvez seja uma razão porque muitos ditadores gostam de arte.
E talvez porque muitos artistas apoiaram movimentos românticos fanáticos.
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De Pedro Correia a 05.10.2011 às 01:49

É verdade que muitos artistas apoiaram movimentos extremistas. Tenho escrito alguma coisa sobre isso e hei-de voltar ao tema.

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