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Estendi o braço mas não cheguei lá

por Pedro Correia, em 23.09.11

Não sei se convosco é assim. Eu costumo ler vários livros ao mesmo tempo. Sempre fui um leitor voraz. Cheguei até, durante alguns anos, a fazer fichas de leitura detalhadas de todos os livros que ia lendo: a primeira sucedeu quando, deslumbrado, cheguei ao fim de Mau Tempo no Canal -- para mim o melhor romance português do século XX e com uma das mais fascinantes personagens femininas de toda a nossa literatura.

Comecei a ler muito cedo, estimulado por uma vasta biblioteca paterna, cheia de títulos incompreensíveis para o miúdo que eu então era. Graças a essa curiosidade difícil de saciar, aprendi a ler livros que ultrapassavam a minha idade à medida que os ia retirando das estantes. A Peste, de Camus. Conversas com Borges, de Georges Charbonnier. As Democracias Populares, de François Fejto. Os Cinco Comunismos, de Gilles Martinet.

E tantos outros, às vezes com autógrafos oferecidos ao meu pai -- de Júlio Dantas a Luiz Francisco Rebello, de Pedro Homem de Melo a Romeu Correia, de Armando Cortesão a Fernando Namora. Esses eram os que eu ia desfolhando com maior deslumbramento. Como se a dedicatória e o autógrafo prolongassem a sensação de que ao abrir um livro escancarava uma janela para o mundo. Havia também os que estavam "encadernados em pele de carneira", como então se dizia com alguma pompa. O Primo Basílio. As poesias completas (sempre incompletas) de Fernando Pessoa. A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro -- que descobri aos 15 anos, com o mesmo empolgamento de quem lera pouco antes os contos de Jack London com a chancela da editora Civilização, o Robinson Crusoe (da colecção juvenil da Portugália) e o Texas Jack (da Agência Portuguesa de Revistas). Os operários das fábricas de fiação da Covilhã faziam as vezes dos mosqueteiros da rainha, a "minha" Serra da Estrela substituía as Tulherias, o realismo socialista entrecruzava-se com aventuras de capa e espada.

 

Voltei hoje a ver estes livros -- e tantos outros -- ao revisitar a biblioteca paterna, agora adormecida: há muito que nenhum novo título ali entra para fazer companhia aos demais. A larga secção de pedagogia -- incluindo os Piagets, que nunca me interessaram -- foi recentemente doada, vários outros talvez sigam em breve idêntico caminho. Mas há volumes de que nunca me separarei. Bonecos de Luz, com a letra larga e generosa de Romeu Correia na página de abertura -- a minha iniciação, ainda infantil, à literatura portuguesa. O livro que Brassai escreveu sobre Picasso -- retrato de uma época irrepetível. Goethe e Rilke traduzidos por Paulo Quintela. A primeira edição da biografia de Pessoa escrita por Gaspar Simões, psicanalista improvisado do "Menino de Sua Mãe".

Parecia-me tão grande, a biblioteca, quando eu era miúdo. Pareceu-me hoje mais pequena quando regressei nesta romagem de saudade: mesmo assim, cheia de obras que nunca terei tempo de ler. Sentei-me num cadeirão durante longos minutos, em silêncio, e senti-me um garoto outra vez. À espera que o meu pai chegasse a qualquer momento para me tirar aquele livro lá em cima, da última estante. Estendi o braço mas não cheguei lá.


43 comentários

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De facebook a 23.09.2011 às 19:54

LIKE!
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De Pedro Correia a 24.09.2011 às 11:56

Gostei que tivesse gostado, seja você quem for.
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De CNS a 23.09.2011 às 20:32

Gostei muito deste regresso, Pedro.
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De Pedro Correia a 24.09.2011 às 11:55

Grato, Cristina. A nossa vida decorre em círculos concêntricos, é feita de sucessivos regressos.
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De fernando antolin a 23.09.2011 às 20:40

Como o compreendo...pois eu já me resignei a tirar os livros sózinho e a esperar que o tempo me seja longo para os ler.

( e a memória das manhãs que nesta altura se iniciavam, a calma com que me dizia "...corre-lhe a mão com calma um pouco à frente, mais vale do que errares a perdiz por trás..." )

uma memória para este Outono

"... Una larga carretera
entre grises peñascales,
y alguna humilde pradera
donde pacen negros toros. Zarzas, malezas,jarales.

Está la tierra mojada
por las gotas del rocío,
y la alameda dorada,
hacia la curva del río.
Tras los montes de violeta
quebrado el primer albor:
a la espalda la escopeta,
entre sus galgos agudos, caminando un cazador..."

com a devida vénia a António Machado

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De Pedro Correia a 24.09.2011 às 11:54

Agradeço-lhe os versos que aqui nos traz de Antonio Machado, poeta de que gosto tanto, caro Fernando.
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De Anónimo a 23.09.2011 às 22:20

Fiquei com uma enorme vontade de pegar num desses livros e ler uma dessas dedicatórias escrita pelo meu avô. Lembranças boas e cheias de saudade...
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De Pedro Correia a 24.09.2011 às 11:54

Gostaria de saber quem era o seu avô. Talvez eu o tenha conhecido pessoalmente. Pode partilhar connosco? Isto é o melhor da blogosfera: a partilha.
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De sammy, o paquete a 23.09.2011 às 23:02

Bonito e comovente texto.
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De Pedro Correia a 24.09.2011 às 11:52

Sammy, o paquete: uma das mais perenes personagens literárias que guardo na memória... Obrigado pelas suas palavras.
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De Fernando Sousa a 24.09.2011 às 00:47

... pois, mais importante do que aquele livro lá em cima, do que aqueles livros lá em cima...
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De Pedro Correia a 24.09.2011 às 11:51

O que seria de nós, que escrevemos, sem as metáforas, Fernando? Um abraço.
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De Alice Alfazema a 24.09.2011 às 10:36

Apesar do braço estendido não ter chegado lá, elas, as memórias, continuam vivas, sinais de uma infância bonita, isso vale tudo, mesmo que os braços já não cheguem até cá.
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De Pedro Correia a 24.09.2011 às 11:50

É isso, Alice. Tem toda a razão.
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De Teresa Ribeiro a 24.09.2011 às 10:52

Falas de dores que conheço. Disseste-o, como sempre, muito bem.
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De Pedro Correia a 24.09.2011 às 11:50

Obrigado, Teresa. Sabes do que falo.
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De Leonor Barros a 24.09.2011 às 11:15

Muito bonito, Pedro.
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De Pedro Correia a 24.09.2011 às 11:50

Obrigado, Leonor. Sabes do que falo também.
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De Leonor Barros a 24.09.2011 às 11:58

É. E essa saudade apanha-me desprevenida muitas vezes. Quando penso que finalmente vivo apaziguada com a ausência há algo que me cutuca no ombro e me mostra o oposto.
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De Pedro Correia a 25.09.2011 às 16:33

Isso dói. Mas por vezes a dor também é capaz de nos iluminar. Aproveitemos essa luz.

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De Sérgio de Almeida Correia a 24.09.2011 às 12:24

Belo texto, Pedro. Que melhor homenagem lhes poderias prestar, a ele e aos livros?

É assim que gosto mais de te ler.

Um abraço,
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De Pedro Correia a 25.09.2011 às 16:32

Obrigado, Sérgio. Um abraço.

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