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Obscenidade é isto

por Pedro Correia, em 14.09.11

 

Proliferam por estes dias em Lisboa lojas especializadas na compra e venda de ouro. É a moda do momento. E promete vir para ficar, como um inequívoco sinal da crise. Angustiadas com falta de dinheiro, afectadas pela praga dos '3 D' - doença, desemprego, divórcio - que conduz a dramáticas situações de empobrecimento, milhares de pessoas vão acorrendo a essas lojas na mira de conseguirem o dinheiro que lhes falta, às vezes para as necessidades mais elementares. Até para comer. Despedem-se assim de objectos de incalculável valor estimativo, de velhas jóias de família, até de alianças de casamento (permanecendo casadas, muitas vezes).

É, aliás, uma aliança de casamento que surge em foco num folheto publicitário profusamente distribuído pela cidade anunciando esta rede de lojas, intituladas "cash converters", bem à americana. Na fotografia do folheto, uma jovem sorridente - convenientemente maquilhada - exibe em grande plano o dedo médio, em cuja base está a aliança. Um gesto obsceno coroado com a seguinte legenda: "O homem da tua vida já está fora da tua vida? Vende-o!"

A ideia, claro, é vender a aliança. Mas, subjacente a isto, impera a ideologia de que tudo é descartável e transaccionável no mundo contemporâneo - a começar pelos afectos. Miro o folheto e fico nauseado com o sorriso radioso da moça da foto, a convicção de que se pode fazer lucro aproveitando os dramas alheios, a noção de que tudo na vida tem um preço em vil metal. Até as memórias de um amor.

Ao menos as antigas lojas de penhores, na sua existência discreta, quase envergonhada, não faziam gala do seu comércio. Existiam, estavam lá, quem precisava recorria a elas em situações de urgência. Agora, pelo contrário, envolve-se esta agiotagem dos nossos dias num pretenso glamour platinado e exuberante, como se a venda desesperada de uma aliança fosse um marco na emancipação feminina (não é por acaso que está uma mulher e não um homem na fotografia) e na erradicação definitiva da "moral burguesa".

Obscenidade é isto.

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40 comentários

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De Helena a 14.09.2011 às 16:49

Clap,clap,clap. Maravilhoso post.
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De Pedro Correia a 14.09.2011 às 17:28

Obrigado, Helena.
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De Luís Lavoura a 14.09.2011 às 17:00

divórcio - que conduz a dramáticas situações de empobrecimento

O divórcio não empobrece ninguém. Pode é conduzir a um desejo desesperado de dinheiro para adquirir uma casa - mas isso não é, propriamente, empobrecimento.
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De Pedro Correia a 14.09.2011 às 17:28

O divórcio não empobrece ninguém? Em que planeta você vive, Luís Lavoura? Abra os olhos e repare melhor no que se passa à sua volta.
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De rita maria a 14.09.2011 às 17:01

No meu bairro cruzei-me uma vez com uma promoçao muito reveladora: na compra de um anel de compromisso novo entregar o anterior dava direito a um desconto de 20%.
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De Pedro Correia a 14.09.2011 às 17:29

Tudo se vende, tudo se compra.
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De Luís Lavoura a 14.09.2011 às 17:04

Não percebo este post. Se um casal se divorcia, as alianças deixam de fazer qualquer sentido. Elas não traduzem nenhum afeto atualmente existente. Portanto, podem e, de facto, devem ser vendidas (tal como no passado, aliás, foram compradas). Isso não é nenhum drama. Não há na compra da aliança tornada inútil pelo divórcio qualquer exploração de qualquer drama.
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De Pedro Correia a 14.09.2011 às 17:30

Se você percebesse este 'post' eu ficaria muito surpreendido, Luís Lavoura.
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De Hugo da Graça Pereira a 14.09.2011 às 18:07

Quando um casal se divorcia, as alianças perdem o sentido que tinham, mas não deixam de fazer qualquer sentido, como diz o caro Luís. A aliança é um símbolo, que quando se é casado consubstancia o amor e o compromisso e que quando se é divorciado representa outras coisas, não, porventura, tão agradáveis. Mas o que uma aliança nunca será para quem ousou um dia pô-la no dedo é uma peça de metal sem qualquer significado.

Um post repleto de pertinência Pedro.
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De Pedro Correia a 14.09.2011 às 23:14

Faço minhas as suas palavras, Hugo. Mas aposto que o LL não entendeu.
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De João Carvalho a 14.09.2011 às 17:25

Completamente de acordo, compadre. Tão belo quanto triste, este oportuno post.
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De Pedro Correia a 14.09.2011 às 17:30

Também acho esta realidade muito triste, compadre.
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De Rui Rocha a 14.09.2011 às 18:43

Crash converters, portanto.
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De lucklucky a 14.09.2011 às 21:12

Um texto de um aristocrata. Para quem o dinheiro não conta.
Ainda bem que essas lojas estão aí. E quantas mais melhor.
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De Pedro Correia a 14.09.2011 às 23:12

Você é dono de quantas?
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De Hugo da Graça Pereira a 14.09.2011 às 23:18

O sô Dom Pedro, então e V.Ex. não avisava ninguém! E aqui uma pessoa a tratá-lo por Pedro para aqui e para ali...
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De Pedro Correia a 15.09.2011 às 00:05

O meu fiel escudeiro desvendou o segredo...
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De Ana Vidal a 15.09.2011 às 01:17

Lucklucky, ficaria admirado se soubesse para quantos aristocratas o dinheiro conta. E muito.
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De lucklucky a 15.09.2011 às 02:19

Um aristocrata que se preze odeia números, e aquilo a que com desprezo chama "contas de mercearia" .
Para o aristocrata o valor nunca é determinado pela importância económica mas por um julgamento social cultural e político.
Curiosamente para justificar os ordenados e direitos económicos sobre os outros...

Há muitos aristocratas:
-Funcionários Públicos e maioria dos Políticos
-Empresas e empresários que vivem do Estado ou que dependem da regulação deste para a sua subsistência.
Um bom exemplo de aristocrata: Balsemão.
-Aristocratas da Educação: os professores e todo o complexo estatal-educativo julgam-se numa missão nobre - o aristocrata - de ensinar por isso recusam a concorrência e contas de merceeiro. Preço*?! isso é um conceito alienígena para um professor. Julgam-se muito superiores a um fabricante de sabonetes.
*excepto quando se fala de ordenados. Nesse caso não se fala obviamente de dinheiro - seria sinal de mau gosto, coisa que os aristocratas não fazem devido á sua superior educação- diz-se "dignificação da profissão"...

-Aristocratas da Saúde: idem


-Aristocratas do Emprego: a escassez não conta para o valor, o que conta é a credencial que se teve na Universidade. Ou seja o valor social para justificarem mais ordenado ao fim do mês, não pela lei da oferta e procura. Para eles um trabalhador de uma fábrica não pode ganhar mais que um advogado mesmo que haja muitos advogados e poucos trabalhadores.
-Aristocratas Conservadores:Fáceis de detectar quando falam contra as companhias low-cost, lojas dos chineses e tudo o que ficou mais barato e permitiu a mais pessoas chegar a mais qualidade de vida. Protestam ainda contra o "Consumismo" e os "Shoppings".
- Aristocratas Sensíveis ou Fashion sempre preocupados com as aparências. O que é desagradável deve ser escondido.

Palavras que os aristocratas odeiam: clientes, mercado, consumo, barato, comércio, preço entre outras.
Por isso hoje a maior parte dos Aristocratas está no Socialismo ou depende dele.


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De Ana Vidal a 15.09.2011 às 11:01

Com tanto aristocrata neste país, admira-me que o regime não seja uma monarquia.
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De lucklucky a 15.09.2011 às 13:53

Não poderia ser... A quantidade de Aristocratas é por causa da Democracia.
Para terem votos os Políticos precisam de comprar os eleitores tal como a Monarquia fabricava Duques e Condes para sustentar o Poder. Logo os Direitos especiais que certos grupos têm no passado e no presente.
Com a Democracia é preciso comprar muito mais gente. Logo as promessas de Direitos insustentáveis a prazo.

Ao longo da História o crescente comércio pela Burguesia, e a riqueza que daí nasceu, atacou a estrutura de poder do Estado.
Agora temos a reacção do Estado. Criando ou captando milhões de aristocratas do povo à burguesia apresentando a conta à burguesia que resta.
Cada vez menos.
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De Pedro Correia a 15.09.2011 às 19:04

Sem menosprezo por opiniões em contrário, prefiro as aristogatas.
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De lucklucky a 15.09.2011 às 21:59

Vejo que gosta do número que virá no próximo "subsídio de natal".
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De cenas underground a 14.09.2011 às 21:41

Já não há vergonha. Tudo vale nos negócios. Qualquer dia põem panfletos de funerárias à saída das unidades de cuidados paliativos.
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De Pedro Correia a 14.09.2011 às 23:14

Já faltou mais.
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De singularis alentejanus a 14.09.2011 às 22:25

Preocupa-me muito o facto de uma pessoa ter que desfazer-se dos seus bens pessoais, para cumprir com compromissos assumidos. Ainda há dias na televisão um dono de uma ouriversaria, não destas novas lojas, dizia com um misto de pesar e estupefação, ter feito um negócio de certa monta, com uma senhora de certa idade porque a mesma não tinha com que pagar aos empregados da fábrica.
Agora com estas novas lojas que aparecem como cogumelos em toda a parte do país, quem controla a proveniência do ouro? Comercializar ouro não é rigorosamente a mesma coisa que comercializar bananas.
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De Pedro Correia a 14.09.2011 às 23:15

Este é um dos sinais inequívocos da crise. E a crise não é só financeira.
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De Hugo da Graça Pereira a 14.09.2011 às 23:47

Faltou-lhe um clássico para rematar: O tempora, o mores!
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De Pedro Correia a 15.09.2011 às 00:04

Ipsis verbis.
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De Gonçalo Correia a 15.09.2011 às 00:02

Permita-me acrescentar outro “D” (ficando “4 D”): desespero.
Recentemente, colaborei num projecto sobre a literacia financeira, uma área de que gosto em particular, que centrou-se num dos principais flagelos sociais da actualidade: o sobre-endividamento. A problemática do sobre-endividamento (impossibilidade de pagar as dívidas por insuficiência de rendimentos) atinge cada vez mais famílias e, talvez, de uma forma mais violenta tendo em conta a conjuntura económica/financeira e respectivas perspectivas de curto e médio prazos: aumento do desemprego ou da precarização do emprego; diminuição dos rendimentos, por via fiscal, ou dos subsídios, por via de fortes restrições orçamentais; aumento generalizado do preço dos bens e serviços (inflação). Melhorar os níveis de literacia financeira (ou seja, a nossa relação com o dinheiro e com a informação financeira) é a peça nuclear para combater este flagelo social.
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De Pedro Correia a 15.09.2011 às 00:22

Obrigado pela sua achega, Gonçalo. Tem toda a razão: é fundamental aumentar os índices de 'literacia financeira' dos nossos compatriotas. Para que não se repitam os dramas que hoje existem à nossa volta.

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