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Impressões da China

por José Maria Gui Pimentel, em 13.09.11

Antes de mais, um alerta, sendo a China um país gigante, ademais congregando culturas muito diversas, importa salientar que este comentário se baseia apenas naquilo que foi observado na zona oriental do país, abaixo de Shanghai. Se tratar minhotos e alentejanos como iguais seria um erro grosseiro, um juízo equivalente feito em relação a um país imensamente maior tem tudo para ser ainda mais arriscado. Ainda assim, e na impossibilidade de conhecer todas as realidades, resta-nos inevitavelmente, e mesmo conscientes do erro provável, tomar o todo pela parte.

 

Porventura a realidade mais interessante na China actual é a emergência de uma nova classe média, e sobretudo o ritmo a que ela se vai estabelecendo, não apenas nas grandes cidades mas também nas cidades de segunda linha. Este fenómeno acarreta efeitos curiosos, como a construção de um fosso evidente entre os pais, ainda presos à China tradicional, e os filhos, nos quais se observa claramente já o culto da individualidade, característica distintiva das sociedades capitalistas. A esta diferenciação individual junta-se um evidente fascínio pela cultura ocidental, muito particularmente pela cultura americana.

 

Observando os outfits dos jovens, é visível a importância dada às t-shirts, às calças e, principalmente, ao calçado. Um pormenor interessante, reflexo do dito deslumbramento pela cultura americana, é o facto de não se ver uma única t-shirt com caracteres chineses, com os jovens a procurarem-nas de marcas americanas (ou pelo menos com o logótipo destas inscrito na frente) e com longas frases em inglês. Muitas vezes, é inevitável questionarmo-nos, porventura de significado desconhecido para quem as ostenta.

 

No sexo feminino, em particular, é evidente a preocupação com o calçado. É engraçado vê-las, alguma ainda com pouca prática, alçadas em saltos compridos, mesmo quando têm de percorrer distâncias longas. As que mais capricham são as que, tendo de vestir fardas, não possuem direito de escolha sobre a roupa acima dos tornozelos. As marcas ocidentais, em particular, claro está, as americanas, aperceberam-se há muito da emergência de um mar de potenciais consumidores, e vão inundando o mercado com produtos, uns absolutamente iguais àqueles que já comercializavam no ocidente, outros já adaptados à cultura local. Aliás, e isto não esperávamos, praticam, particularmente na roupa, preços pouco diferentes (em algum caso juraríamos mesmo serem superiores) aos que cobram no ocidente, o que leva a crer que a classe média (neste caso média alta) já joga plenamente neste campeonato. Para aqueles que ainda não o fazem, existem, naturalmente, as inevitáveis imitações, que se exibem a poucos metros de distância das originais.

 

Um pormenor curioso é que algumas marcas já apostam também nos produtos locais, particularmente ao nível da culinária, em que os chineses parecem ser mais apegados à tradição. Exemplo desta simbiose é o inevitável Starbucks que vende os omnipresentes Bolos Lunares em caixas bem decoradas.

 

Outro valor tradicional de que os chineses – em particular as chinesas – parecem não abdicar é o culto da brancura da pele. E também este, como não poderia deixar de ser, já mereceu respostas das marcas ocidentais, com as lojas de cosmética a dedicarem várias prateleiras a produtos de branqueamento da pele, numa curiosa oposição com os bronzeadores que se vendem no ocidente.

No que diz respeito às convenções sociais, os beijos e abraços, de que nós tanto gostamos, não são práticas comuns. Na verdade, talvez nós, latinos, não deixemos de exagerar um pouco, quando não hesitamos em dar dois beijos (ou um, vá…) nas bochechas de alguém que nunca vimos (e, em muitos casos, não voltaremos a ver).

 

Para terminar, fica aqui mais um testemunho do sucesso dos pastéis de nata além fronteiras. Para além do KFC, que parece definitivamente tê-los incluído no menu, pelo menos uma cadeia de pastelarias vende-os, em lugar de destaque e não escondendo a sua origem.

 

Créditos (fotografias): Diana Gui

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26 comentários

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De Hugo da Graça Pereira a 13.09.2011 às 11:51

A China é, hoje em dia, um autentico cadinho de transformação socio-cultural . Um processo que tenho imensa pena de não poder ter experiência na primeira pessoa. Como tal, agradeço-lhe imenso estas interessantes notas que aqui deixou. Bem-haja
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De José Maria Gui Pimentel a 13.09.2011 às 13:24

Obrigado, Hugo, é muito engraçado, de facto, não pára de nos surpreender.
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De Rui Rocha a 13.09.2011 às 11:54

José Maria, este post tem de ser o primeiro de uma série. Um abraço (espero que esteja a correr tudo bem por aí).
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De José Maria Gui Pimentel a 13.09.2011 às 13:27

É essa a ideia! Está a correr muito bem. Um abraço
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De Hugo da Graça Pereira a 13.09.2011 às 13:36

Subscrevo a ideia de um série! Fico na expectativa.
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De João Carvalho a 13.09.2011 às 12:00

Se te perguntarem por mim não fiques admirado: sou um cliente (!) de Xangai há muitos anos.
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De José Maria Gui Pimentel a 13.09.2011 às 13:28

Ahah, já nada me espanta.
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De Teresa Ribeiro a 13.09.2011 às 12:31

É série, só pode. Se não, ficamos de água na boca :)
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De José Maria Gui Pimentel a 13.09.2011 às 13:29

Pode ser que o próximo tenha precisamente a ver com água na boca!
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De Luís Lavoura a 13.09.2011 às 12:55

observado na zona ocidental do país

Tem a certeza de que não queria dizer oriental?
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De José Maria Gui Pimentel a 13.09.2011 às 13:21

Bem visto, obrigado.
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De Laura Ramos a 13.09.2011 às 13:25

Hum. That little guy reminds me of something (or someone).
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De José Maria Gui Pimentel a 13.09.2011 às 13:30

Este não, só se for por estar a comer uma nata!
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De Ana Vidal a 13.09.2011 às 13:33

Boa, Zé Maria! Ficamos à espera de mais notícias do "nosso homem na China". Que tudo te corra bem por aí.
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De Leonor Barros a 13.09.2011 às 13:51

Muito bem. Boa estadia, Zé Maria.
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De amendes a 13.09.2011 às 14:42

Na minha modestissima opinião...

O novo modo de vestir(etc) à americana... soa mais como um protesto contra à tirania passada (timidamente aligeirado no presente ), do que propriamente a uma adesão consciente ao Way of life made in USA ...
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De José Maria Gui Pimentel a 14.09.2011 às 16:16

Mas então, porquê com os EUA e não com outro país?
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De amendes a 14.09.2011 às 16:32

Deixei-me levar pelo que escreveu no post: - "Muito particularmente pela cultura americana"...

Assim, como mais propriedade, devia ter escrito: "Ocidental"

Reafirmo que é uma modesta opinião... Gostaria de oscular a sua, um vez que está no "terreno".

Melhores cumprimentos
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De José Maria Gui Pimentel a 15.09.2011 às 03:18

A minha também é bem modesta, meu caro, até porque para além daquilo que digo no início do post, isto é só a perspectiva de um ocidental...!
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De João Sousa a 13.09.2011 às 15:33

"No sexo feminino, em particular, é evidente a preocupação com o calçado. " É uma característica universal da mulher, portanto.

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