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Manuela de Azevedo: cem anos

por Pedro Correia, em 31.08.11

Assinala-se hoje o centenário da primeira mulher que recebeu carteira profissional de jornalista em Portugal. E é um aniversário felizmente celebrado com esta particularidade: Manuela de Azevedo está viva. Num meio que durante gerações esteve interdito a mulheres, ela arregaçou as mangas e soube mostrar quanto valia. Como repórter talentosa, entrevistadora de mérito, crítica que deixou rasto e também dramaturga e escritora - o seu livro de estreia, em poesia, teve prefácio de Aquilino Ribeiro.

Distinguiu-se como jornalista em várias publicações: Vida Mundial (onde chegou a chefe de Redacção), República, Diário de Lisboa e Diário de Notícias. Foi dela a primeira reportagem sobre um bairro de lata em Lisboa, muitos anos antes da Revolução dos Cravos, num texto em que fintou as malhas da censura. E conseguiu algumas entrevistas consideradas impossíveis - uma delas com Ernest Hemingway, durante uma breve escala no cais de Alcântara do navio que transportava o autor de Adeus às Armas numas das suas viagens entre Espanha e Nova Iorque. Eva Perón, Calouste Gulbenkian e Rudolf Nureyev foram outras celebridades que entrevistou.

"Se alguém dizia que uma determinada tarefa era difícil, eu oferecia-me logo para a fazer", recordou-me quando a entrevistei em 2007 no seu modesto apartamento do Bairro das Colónias, em Lisboa. Tinha então 96 anos mas o seu discurso, rápido e fluente, disfarçava-lhe por completo a idade. Pôde concretizar um dos planos que na altura me revelou: publicar um livro de memórias. Um dos períodos mais conturbados da sua vida profissional ocorreu pouco depois do 25 de Abril, numa fase de má memória do Diário de Notícias, em que foi incluída numa lista de jornalistas a despedir do jornal por motivos políticos. Era conotada com o PS, o que bastou para lhe valer o ódio da direcção do matutino, alinhada com o Partido Comunista.

Muitos anos depois, estava ela já aposentada, houve uma administracção do DN que teve a peregrina ideia de se desfazer do emblemático edifício na Avenida da Liberdade e transferir a sede para Moscavide. O Conselho de Redacção do jornal, para o qual eu tinha sido eleito, liderou um amplo movimento de contestação a tal medida, que incluiu a mobilização de prestigiados nomes da nossa vida política, cultural e jornalística. Manuela de Azevedo, já então decana do jornalismo português, fez questão de ser uma das primeiras signatárias do manifesto pró-Liberdade no DN, associando-se desde logo à nossa causa - felizmente bem sucedida.

Nunca me esqueci desse seu gesto, que agora evoco com um grato e respeitoso beijo de parabéns à ilustre aniversariante.


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