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Enquanto os cães ladram

por Teresa Ribeiro, em 31.08.11
Foi Margaret Thatcher que disse que a sociedade não existe, só existem indivíduos e famílias. A frase, muito citada, reflecte um pensamento em que a direita se revê: culpar a sociedade é desculpabilizar os indivíduos, os únicos cuja existência pode ser comprovada pelas leis da física, logo os únicos que podem ser responsabilizados por tudo o que de bom ou mau acontece na praça pública.

Negar à sociedade qualquer responsabilidade, ou até a própria existência não é, porém, uma tese menos absurda que a da esquerda idealista que a todos perdoa, imputando as culpas das falhas humanas ao sistema.

As reflexões que os tumultos do Reino Unido suscitaram à direita e à esquerda confirmam que o mundo pode estar a mudar, mas o pensamento não. Enquanto os miúdos partiam montras na rua, os analistas vestiam as camisolas dos respectivos "clubes" e atiravam aviõezinhos de papel uns aos outros despejando as cartilhas da direita e da esquerda que já conhecemos de cor. Em tempo de crise, quando vemos o mundo que conhecemos a ameaçar ruir, estranho esta aparente falta de interesse em tentar perceber o que se passa. Deve ser reactivo este retorno ao discurso vincadamente ideológico que parece estar a voltar em força. O problema é que implica sempre alguma desonestidade intelectual, porque é, por natureza, redutor. Entretanto a História, que não é rapariga para se empatar com estas coisas, vai fazendo o seu caminho. E que depressa que ela vai. Receio que mais uma vez nos ultrapasse pela direita e fique a rir-se de nós.                                                                  


12 comentários

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De torcato guimaraes a 31.08.2011 às 14:53

Teresa,

As ideias têm séculos e no adn são as mesmas. Aristóteles contra Platão, Espinosa contra Kant...


O que me espanta nisto tudo é que há um "desvio" no discurso secular. Com maior lata, hoje muitos entendem que não é preciso fazer nada para se ter. Muitos entendem ter direito ao gratuito, suplantando a regra básica do monoteísmo: crescei e multiplicai-vos. Produzir. Trabalhar.

Uma verdadeira confusão entre desejo e direito.
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De Teresa Ribeiro a 31.08.2011 às 23:10

Torcato, esse é apenas um dos aspectos sobre os quais devemos reflectir. E não, não me parece que imputar as "culpas" destes comportamentos desviantes ao Estado Social seja o suficiente para arrumar a questão.
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De Adolfo Mesquita Nunes a 31.08.2011 às 15:19

Teresa, essa frase tem ainda uma outra (para mim) função: recordar o papel subsidiário e funcional do Estado, que, deixado em certas mãos, tende a dirigir-se para um ente colectivo imaginado pela elite que o governa e já não para os indivíduos. Mas isto é toda uma discussão. E sim, eu sou um claro admirador da senhora :)
bjs
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De monge silésio a 31.08.2011 às 17:33

Adolfo, é claro. A esquerda tem o idealismo, a utopia como meta...só que pretende-a num presente, ou à força (revolução) ou pelas relatividades aproximadas (social-democracia) imaginando tal temporalidade.
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De Teresa Ribeiro a 31.08.2011 às 23:23

Adolfo, então se me permites eu contraponho à tua admiração pela Thatcher a minha por Olof Palme. A social democracia, de que ele foi um notável obreiro, associou a economia de mercado ao Estado Social com um resultado notável. Desse modelo saíram, na Escandinávia, sociedades que ainda hoje são apontadas como o expoente máximo da civilização. Eu sei, eu sei, que a nossa realidade demográfica tornou inviável a replicação desse modelo, mas acredito que ainda será possível juntar o melhor dos dois mundos.
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De Cristina Torrão a 31.08.2011 às 19:34

Grave, grave, é essa "aparente falta de interesse em tentar perceber o que se passa".
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De Teresa Ribeiro a 31.08.2011 às 23:30

É isso, Cristina. A disputa ideológica não é desporto que se recomende em tempos de crise como os que atravessamos.
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De Ana Vidal a 01.09.2011 às 01:24

Teresa, a sabedoria do povo é quase sempre certeira: "Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão". Vivemos tempos de pouco pão, e já nem o circo nos anima. Cada um escuda-se, por puro medo, no seu quintalinho ideológico para agarrar-se a qualquer coisa. E não percebe que essa "qualquer coisa" tem de ser reinventada, e só depois pode ser agarrada por quem a reconstruíu. Tudo o que é muito básico escapa ao entendimento geral.
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De Teresa Ribeiro a 01.09.2011 às 12:27

Reinventar, eis a palavra. E não me venham com cinismos e pragmatismos, alegando que já tudo se inventou. A História está cheia de bons exemplos de inventiva que não por acaso emergem em momentos de crise. É preciso reinventar a sociedade lutando pela manutenção das nossas mais importantes conquistas civilizacionais. Incluo nelas o Estado Social, sim.
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De Ana Vidal a 01.09.2011 às 12:56

Concordo. Mas também para ele são precisas novas ideias que o viabilizem, novas regras.
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De Teresa Ribeiro a 01.09.2011 às 13:04

É aqui que entra a palavra que usaste: reinventar. E isto não é conversa da corda. Há formas de viabilizar o Estado Social. Nao é fácil, claro e depende sobretudo da vontade política.
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De Ana Vidal a 01.09.2011 às 13:13

E é por isso mesmo que não é fácil.

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