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O relicário da memória

por Leonor Barros, em 22.08.11
Há livros estranhos. Há aqueles que nunca devíamos ter lido, aqueles que nos deixam a lamentar o dinheiro desperdiçado quase como uma traição perpetrada pelo escritor, sim, como foi capaz de fazer uma coisa daquelas?, os que lemos e relemos, companheiros que dormem connosco sonos grandes na mesa-de-cabeceira ou que ficam inadvertidamente na cama entre voltas e sonhos inquietos, os de que nos esquecemos quase a seguir à leitura e permanecem apenas em traços largos num enorme borrão indefinido, os que nos deixam frases e expressões que procuramos desesperadamente quando nos fazem falta ou os que deixamos com post-its para que seja mais fácil encontrá-las. Há ainda aqueles que mesmo não sabendo muito bem porquê não nos largam. E este foi um desses.
O livro é um catálogo de Museu erigido pelo amante à sua amada. Um altar de recordações coleccionadas ao longo de décadas, um santuário de pequenas relíquias, o cadinho das memórias perpetuadas. Uma longa e sofrida declaração de amor no masculino. Tão surpreendente sempre. E depois há o tempo, o tempo de mudança em Istambul e na Turquia, o relato de décadas de história, entrelaçado em Kemal e Füsun, as personagens principais. E depois há a cidade. O périplo constante por Istambul, um daqueles livros em que podemos pegar num mapa e situar, seguir, caminhar, calcorrear os locais com as personagens. Subir e descer ruelas, sob a presença altaneira dos minaretes e o cantarolar dos muezzin, o Bósforo sempre a espreitar numa das cidades belas, contraditoriamente belas e caóticas. Que terá aquela cidade? E depois há hüzün, sentimento de nostalgia que quase podia ser saudade. Muito, portanto. E fiquei no livro. Meses depois de o ter devolvido à estante ainda estava no livro. E em Kemal. E em Füsun. E em Istambul. Perdida na visita a 'O Museu da Inocência'. Uma parte de mim ficou ali. A cidade talvez. Quem sabe o amor.
 

 

Orhan Pamuk, O Museu da Inocência.

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8 comentários

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De Laura Ramos a 22.08.2011 às 20:05

Adorei este livro, que tem de ser lido quando estamos disponíveis para uma trama assim... Good choice ;)
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De Leonor Barros a 22.08.2011 às 21:45

Também gostei muito como se vê. Andei muito tempo relutante, aquelas 600 e muitas páginas demoviam-me um bocado mas quando comecei não o larguei, nem mesmo depois. Durante um tempo não conseguia entrar em mais livro nenhum.
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De Teresa Ribeiro a 22.08.2011 às 21:11

Deste-me vontade de o ler. Mais um para a lista.
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De Leonor Barros a 22.08.2011 às 21:46

Quando tiveres tempo, lê. É um amor à antiga.
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De Teresa Ribeiro a 22.08.2011 às 22:58

É mesmo desse que eu gosto :)
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De Leonor Barros a 22.08.2011 às 23:07

E esteve para abrir em Istambul o Museu da Inocência mesmo. Em vez de ser o filme do livro, era o Museu. Giro, não é?
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De Ana Vidal a 23.08.2011 às 12:52

Do Pamuk só li, há muitos anos, um livro que se chamava salvo erro "O meu nome é vermelho". Não sei se foi o que lhe deu o Nobel, mas gostei muito. Fiquei com curiosidade de ler este, Leonor. Adoro Istambul, é uma das cidades da minha vida, e Pamuk descreve-a com paixão.
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De Leonor Barros a 23.08.2011 às 14:03

Lê este então. Do Pamuk também li A Vida Nova e Istambul, Memórias e a Cidade mas gostei mais deste.

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