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Pelo cachaço como os gatos

por Leonor Barros, em 20.08.11
As manhãs de estio convidam à indolência de distribuir o tempo ao ritmo da vontade de cada um. Levantei-me cedo para os meus próprios padrões em tempo de nada fazer, pus pés ao caminho nas havaianas de sempre, e, rua acima, fui até ao centro da aldeia tomar um café. A manhã pode ser o mais energizante dos tónicos. De um lado da estrada a declaração de amor que se mantém de há um tempo a esta parte Amo-te gorduchinha, seria para mim?, do outro as flores que crescem sem adubo nem pesticidas, melhores do que as holandesas, dizem-me, o pé mais alto e firme, uma casa que foi restaurada, o sol que entretanto se faz sentir nas costas e a tranquilidade do périplo, casas e flores de um lado e de outro. Chego finalmente ao centro, entro no café e digo ao que venho, atento na empregada que me olha de frente e eis que me salta um texto de trás do balcão, pareceu-me escondido no bolso do avental da empregada, exactamente no golo derradeiro do café. Procuro o dinheiro, largo-o no balcão, deito um olhar último à empregada, despeço-me e sinto as palavras a encarreirar-se. Uma frase inteirinha Ah malandro, logo agora. Saio do café, olho a igreja em frente e, antes que o texto me fuja, senti algumas palavras a espernear assim que entrei pela rua apertada, os acentos estrebuchavam que nem coelhos amarrados pelos pés, as vírgulas impacientavam-se em corropios, os pontos de exclamação davam encontrões uns aos outros, larguei-os logo, são os mais dispensáveis e estavam a provocar grande convulsão no texto, agarrei-o com vigor pelo cachaço como as gatas fazem às crias, firme e seguro, sem amarrotar as expressões e amachucar os eufemismos. Não me escapas. Rua abaixo, casas e flores de um lado e de outro, o sol a bater-me na cara, agarrei-o como pude e o texto veio conformado mas impaciente, as vírgulas irrequietas, as metáforas ansiosas e os adjectivos aflitos. Abro a porta apressada, estava mesmo mesmo a fugir-me, os textos fogem-me algumas vezes, arrebanho a primeira folha em branco, um lápis ali por perto e solto finalmente as palavras, vírgulas, adjectivos, metáforas e eufemismos. Apanhei-te, malandro.


8 comentários

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De Teresa Ribeiro a 21.08.2011 às 00:49

"Apanhei-te malandro". Hum... eu diria que este texto foi escrito - e com muita graça - por uma mulher.
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De Leonor Barros a 21.08.2011 às 01:05

Foi mesmo. Desta não me escapou.
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De José António Abreu a 21.08.2011 às 00:55

Apanhaste, pois. E, com frequência, é exactamente assim. Frustante é quando foge mesmo. Eu detesto tê-lo quase todo alinhavadinho na cabeça apenas para descobrir que, quando pego na esferográfica ou me sento em frente ao computador, ele se desvaneceu.
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De Leonor Barros a 21.08.2011 às 01:05

Mesmo irritante. Fogem-me muitos também.
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De Ana Vidal a 21.08.2011 às 02:24

Texto de mulher, sem dúvida. Mas eu acho que a escrita é que te apanhou, Leonor, e ainda bem! :-)
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De Leonor Barros a 21.08.2011 às 15:15

Ficava assustada se escrevesse como um homem, Ana. Nada contra mas 'o seu a seu dono' :)
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De Isa a 21.08.2011 às 04:04

"palavras a espernear", adorei :D
e sim, normalmente acontece, principalmente quando pomos os pés fora de casa. saímos para a rua e as frases desatam a vir à cabeça :) eu já parei no meio da rua para anotar...
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De Leonor Barros a 21.08.2011 às 15:16

Tal como apanhei este já me fugiram outros, Isa :) Anotar é o melhor que fazemos mas nem sempre temos à mão os meios para isso.

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