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Da importância das palavras

por Pedro Correia, em 20.08.11

 

Um grupo de manifestantes que protestasse nas ruas de Madrid ou de qualquer outra capital europeia contra a visita de um dirigente espiritual islâmico seria logo rotulado de "antimuçulmano". Os participantes nessa manifestação ganhariam de imediato o epíteto de "islamófobos" e não faltaria quem sublinhasse a necessidade de combater ódios religiosos em nome da liberdade de crença e do respeito pela fé alheia.

Tudo muda quando esse dirigente espiritual é o Papa. Os manifestantes passam a ser "laicos", nenhum deles é descrito como anticatólico e muito menos como vaticanófobo. Os gritos de "Papa nazi", "assassinos", "ignorantes", "pedófilos" e "filhos da puta" com que nestes dias alguns destes "laicos" têm brindado centenas de milhares de jovens católicos inserem-se na naturalíssima liberdade de manifestação que justifica aplauso dos mesmos que se indignariam com uma ruidosa reunião de "islamófobos".

Isto deve fazer-nos reflectir sobre a importância das palavras no espaço comunicacional. Nenhuma delas é neutra, nenhuma delas é irrelevante: todas nos chegam carregadas de ideologia. Compete ao bom jornalismo evitar as armadilhas da linguagem que estabelecem dois pesos e duas medidas para situações similares. Porque o preconceito ataca quando menos se espera. Sobretudo o preconceito daqueles que se proclamam livres de preconceitos.


2 comentários

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De Coconut a 21.08.2011 às 14:33

Caro Pedro Correia,

A propósito do seu último comentário, penso que tentar legitimar os gastos incorridos com a JMJ por um Estado que se diz laico e secular com o facto de a maioria da sua população ser católica é um mau argumento. Levado à sua pureza conceptual, levaria a entender que os gastos do Euro 2004 estão legitimados com o facto de a maioria da população portuguesa gostar de futebol.

Sobre o financiamento da visita, o que talvez desconheça é que o Estado Espanhol vai conceder benefícios fiscais às empresas que ofereceram donativos para as visitas. Ou seja, os seus 30% de patrocínios já de si são financiamento indirecto do Estado, na medida em que correspondem a receitas que deixam de ser obtidas pela Fazenda Pública.

Adicionalmente, há o facto de estes peregrinos beneficiarem de uma redução de 80% nas tarifas dos transportes públicos. Isto numa altura em que os custos para a população em geral subiram 50%, devido às medidas de austeridade do Governo Espanhol.
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De Pedro Correia a 21.08.2011 às 14:58

Caro(a) Coconut:

Lamento que praticamente ninguém venha aqui comentar o que escrevi: a duplicidade de critérios do discurso jornalista dominante. De qualquer modo, se a questão fundamental é a da "despesa" da visita (algo que nunca vi pôr em causa em relação a qualquer outra deslocação a Espanha de uma entidade política, religiosa, desportiva ou do mundo do espectáculo), o alvo dos protestos deveria ser o Governo socialista de Rodríguez Zapatero e não o chefe da Igreja Católica.

Sinceramente, faz-me sempre muita impressão assistir à utilização de argumentos economicistas por parte de quem, como os 'indignados', a toda a hora proclama palavras de ordem anti-economicistas. Convém arrumar as ideias e solidificar um pouco melhor os argumentos. A menos que o 'economicismo' ande aqui ao sabor das conveniências momentâneas.

Mantendo-nos no terreno 'economicista', que não é o meu, a sua linha argumentativa centra-se na despesa e omite a receita. Passo, portanto, a palavra ao ministro espanhol do Fomento, José Blanco: ««Los beneficios económicos inducidos [con la visita del Papa] no es una cuestión de fe, es un hecho; y, en este sentido nosotros valoramos positivamente y con respeto el transcurrir de la visita.» (Transcrito do 'El Mundo' de ontem).»

Balanço positivo, pois. "Não é uma questão de fé, é um facto", garante Blanco. Paradoxalmente, nada custou tanto ao contribuinte espanhol como o aparato de segurança montado no centro de Madrid para evitar que as lamentáveis agressões verbais dos 'indignados' aos jovens católicos redundassem em agressões físicas.

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