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Da importância das palavras

por Pedro Correia, em 20.08.11

 

Um grupo de manifestantes que protestasse nas ruas de Madrid ou de qualquer outra capital europeia contra a visita de um dirigente espiritual islâmico seria logo rotulado de "antimuçulmano". Os participantes nessa manifestação ganhariam de imediato o epíteto de "islamófobos" e não faltaria quem sublinhasse a necessidade de combater ódios religiosos em nome da liberdade de crença e do respeito pela fé alheia.

Tudo muda quando esse dirigente espiritual é o Papa. Os manifestantes passam a ser "laicos", nenhum deles é descrito como anticatólico e muito menos como vaticanófobo. Os gritos de "Papa nazi", "assassinos", "ignorantes", "pedófilos" e "filhos da puta" com que nestes dias alguns destes "laicos" têm brindado centenas de milhares de jovens católicos inserem-se na naturalíssima liberdade de manifestação que justifica aplauso dos mesmos que se indignariam com uma ruidosa reunião de "islamófobos".

Isto deve fazer-nos reflectir sobre a importância das palavras no espaço comunicacional. Nenhuma delas é neutra, nenhuma delas é irrelevante: todas nos chegam carregadas de ideologia. Compete ao bom jornalismo evitar as armadilhas da linguagem que estabelecem dois pesos e duas medidas para situações similares. Porque o preconceito ataca quando menos se espera. Sobretudo o preconceito daqueles que se proclamam livres de preconceitos.


30 comentários

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De Catarina Bastos a 22.08.2011 às 12:00

Essa duplicidade tem um padrão: sempre que estivermos a falar de valores, convicções, atitudes e posições mais associadas a um conceito abstracto de "direita", a tolerância é muito menor, tanto na economia como nos costumes. E porquê? talvez, segundo me vão confessando alguns amigos jornalistas, a génese de um jornalista é ser de esquerda, é ser anti-poder, é entender o seu papel muitas vezes como o último reduto na defesa dos mais fracos... enfim, e querem alg mais associado à direita do que a "adesão" ao "Santo Papa"?
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De Pedro Correia a 22.08.2011 às 14:06

Pois o que eu contesto é precisamente essa duplicidade. Que leva alguns a ver ditadores só num espectro político. Não falta quem defenda, por exemplo, que não existem ditadores de esquerda - para esses, os ditadores são todos de direita. As opiniões são livres, inclusive para dizer os maiores disparates. Acontece que não estamos perante matéria de opinião, mas de facto. Um ditador é um ditador, seja ele de direita ou de esquerda (como eram Ben Ali e Mubarak, ambos acolhidos na Internacional Socialista até à véspera de serem derrubados).
A religião nada tem a ver com isto. Ser cristão, ser católico, é uma questão de fé e não uma questão política. Conheço católicos das mais diversas tendências. Inclusive católicos convictos que são igualmente comunistas convictos.
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De Catarina Bastos a 22.08.2011 às 15:27

Daí eu falar em "associação a". Embora eu concorde consigo, o facto é que também aqui existe essa duplicidade. Nos períodos das peregrinações a Fátima, a comunicação social normalmente ilustra estes momentos de duas formas: ou mostra aqueles que se deslocam de joelhos, em sofrimento, a carpir arduamente, durante metros a fio, ou então, as peregrinações de grupos como as Equipas de Jovens de Nossa Senhora (normalmente associados a filhos de gente rica, logo de direita, logo, falsos beatos). Enfim, the usual.
Eu não sou católica, nem cristã, mas tenho muito respeito pela instituição e por aqueles que nela acreditam. Até por formação, conheço muito bem a História e o papel da Igreja Católica ao longo dos séculos, e por isso mesmo ainda não compreendi como é possível a esmagadora maioria dos portugueses assumir-se como "católico não-praticante " sem que, com isso, percebam que é uma contradição nos seus exactos termos. Mas enfim, como diria um intelectual famoso, o catolicismo é uma boa religião porque permite uma vivência da fé à la carte... Até permite algumas das imagens que se viram nos últimos tempos em Espanha, as quais se fossem dirigidas ao mundo Islâmico, teríamos os seus autores com uma qualquer fatwa em cima da cabeça.
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De Pedro Correia a 24.08.2011 às 23:22

«O catolicismo é uma boa religião porque permite uma vivência da fé à la carte.» Ironia à parte, há bastante verdade nesta frase que cita.
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De João Pedro a 23.08.2011 às 16:59

Mais chocante é alguma gente vir invocar a Inquisição, que já acabou há séculos, para demonstrar o "perigo" da Igreja. Esta malta que se manifesta é herdeira directa dos "rojos" que assassinaram milhares de clérigos antes e durante a gurra civil, por vezes de forma chocante (muito foram enterrados vivos). claro que o outro lado, que venceu, não era melhor, mas não é isso que dá aos "laicos" moral para chamar aos outros "intolerantes".
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De Pedro Correia a 24.08.2011 às 23:20

Causa-me sempre alguma perplexidade a intolerância de tantos 'tolerantes'.

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