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Grandes contos (8): Vergílio Ferreira

por Pedro Correia, em 30.07.11
Há em Portugal uma espécie de pudor atávico em praticar a arte do conto - característica que felizmente tem vindo a dissipar-se nas duas últimas décadas, com nomes que vão de Mário de Carvalho a Rui Zink. Entendido como género "menor" pela generalidade dos exegetas lusos de matriz universitária, o conto foi sendo considerado uma espécie de parente pobre da nossa literatura. Quem o cultivava quase tinha de pedir licença prévia para o efeito.
Alguns dos mais estimulantes autores portugueses do século XX, como Vergílio Ferreira, José Rodrigues Miguéis e José Cardoso Pires, dedicaram uma atenção marginal ao conto, sem repararem por vezes que nessas breves páginas se concentrava do melhor da sua escrita. Os notáveis Contos de Vergílio Ferreira, reunidos em volume em 1976 (Edição Bertrand), são bem a prova disso. Trata-se do espelho perfeito da obra de um romancista que começou integrado na corrente neo-realista e depois se tornou uma das vozes mais originais do nosso idioma.
Contos reúne ficções originalmente repartidas por dois títulos: A Face Sangrenta (1953) e Apenas Homens (1972). É um Vergílio Ferreira em transição da escola realista para a temática existencial que viria a coroar a fase "madura" da sua obra, este que emerge num dos mais tensos e vibrantes contos que conheço. Chama-se O Encontro e arranca deste modo tão sugestivo: "Agora a serra descia a toda a pressa para a aldeia. Depois, tranquila, alastrava devagar num grande vale, para subir ainda, suavemente, lá ao longe. Quebrado de cansaço e quase de surpresa, o engenheiro parou um instante no alto de um penhasco, soprando o fumo largo do cigarro, olhando em roda o silêncio da tarde. Um grande vento de solidão e montanha embatia-lhe no peito, inchando-lhe a camisa desapertada, penetrando-o de grandeza e de um incerto pavor."
Frases magníficas, num português sem rugas, mas que nos introduzem afinal num mundo primitivo, com as suas anacrónicas noções de honra e os seus insólitos rituais de inspiração bíblica. Vergílio Ferreira, escrevendo no Portugal de Salazar, descreve um país ancorado nos confins dos tempos e que permaneceu inalterado quase até aos nossos dias. Um crítico marxista falaria em luta de classes nesta história do engenheiro anónimo, oriundo de Lisboa, que se confronta com os códigos vigentes numa remota aldeia do interior. Na longa cena final, redigida quase com pulsão cinematográfica, de súbito "uma submissão milenária esmagou os dois irmãos" sedentos de vingança.
Mas esta é uma narrativa que não se deixa aprisionar por esquematismos de ordem estética ou ideológica: O Encontro merece lugar destacado em qualquer recolha dos melhores contos portugueses. E no entanto o autor, num prefácio escrito para a edição de 1976, quase pediu desculpa aos leitores pelo atrevimento: "Escrever contos foi-me sempre uma actividade marginal e eles relevam assim um pouco da desocupação e do ludismo." Não havia necessidade. O Vergílio Ferreira-contista nada fica a dever ao Vergílio Ferreira-romancista: em qualquer dos casos é sempre um vulto maior das nossas letras.


18 comentários

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De João Carvalho a 30.07.2011 às 17:54

Dizes bem, compadre: Vergílio Ferreira «é sempre um vulto maior das nossas letras», em qualquer das suas facetas. Estranhamente, é um grande autor cujo nome tem andado muito desaparecido.
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De Pedro Correia a 31.07.2011 às 00:34

De facto, ele e Cardoso Pires andam injustamente esquecidos, compadre. Já para não falar no grande Rodrigues Miguéis e vários outros. Parece que só existem três escritores em Portugal: Saramago, Lobo Antunes e José Rodrigues dos Santos.
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De João Carvalho a 31.07.2011 às 01:01

Eu até julguei que só existissem dois: Eça e José Rodrigues dos Santos.
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De Pedro Correia a 31.07.2011 às 18:11

Quem é Eça?
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De fernando antolin a 30.07.2011 às 19:10

Posso sugerir uma "visita" à obra de João de Araújo Correia,um quase esquecido e belíssimo escritor ?
A INCM tem 2 volumes das suas obras em prosa editados e existe, também, uma colectânea lançada há anos e de que não lembro a editora,com o título genérico "...o mestre de nós todos...".

Além de tudo o mais, já não se escreve naquele cristalino português.
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De Pedro Correia a 31.07.2011 às 00:33

Excelente sugestão, caro Fernando. É um autor de que só conheço de antologias esparsas, nomeadamente da antologia publicada pela saudosa editora Portugália, de muito boa memória.
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De Ana Vidal a 31.07.2011 às 00:12

Belo texto, Pedro. E já sabes o que penso do conto: um género maior da literatura, e talvez o mais difícil de todos.
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De Pedro Correia a 31.07.2011 às 00:31

Penso exactamente o mesmo, Ana. E lamento que se mantenham entre nós tantos preconceitos contra este género literário. Esta série continuará, sempre no último sábado de cada mês. Para ajudar a quebrar esse absurdo preconceito.
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De Ana Vidal a 31.07.2011 às 00:52

Muito bem, Pedro. Cá estarei a ler-te.
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De Ana Lima a 31.07.2011 às 01:53

Não sei se será o mais difícil. Mas um género maior, um dos meus favoritos, sem dúvida.
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De Ana Vidal a 31.07.2011 às 11:37

Digo que é difícil porque, tal como a poesia (mas com menor margem de liberdade), obriga à contenção de palavras e à condensação de uma ideia sem que ela perca a força e o interesse. O conto tem regras específicas: densidade, concisão, emoção, unidade, efeito. Tudo isto em poucas palavras... não é nada fácil.
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De Pedro Correia a 31.07.2011 às 18:14

Nada fácil, Ana. Sobretudo para nós, portugueses, que temos uma enorme tendência para ser palavrosos (como isso se nota na blogosfera!). O poder de síntese não é, manifestamente, uma das nossas qualidades mais generalizadas.
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De Ana Vidal a 01.08.2011 às 00:35

Exactamente.
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De Ana Lima a 01.08.2011 às 02:57

Interpretei mal o comentário anterior. Pensei que a dificuldade estivesse do lado do leitor. Esclarecida estou, afinal, de acordo. :)
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De Ana Aguilar Franco a 05.08.2011 às 11:11

Artigo interessante que valoriza o conto enquanto narrativa. Saliento que José Rodrigues Miguéis também o valorizava, sentindo por isso o efeito negativo da atitude da crítica literária de então. O escritor considerava inclusive ser esse o seu principal estilo, em detrimento do romance.

Observador perspicaz de pessoas e ambientes, a sua vida em NY trouxe-lhe riqueza adicional. Para travar conhecimento com uma obra tão rica, e que injustamente tem estado esquecida, sugiro a leitura das colectâneas de contos Onde A Noite se Acaba, Gente da Terceira Classe, Léah e outras Histórias,
Paç(ss)os Confusos; bem como das crónicas publicadas em O Espelho Poliédrico, É Proibido Apontar-Reflexões de Um Burguês I, As Harmonias do "Canelão"-Reflexões de Um Burguês II.

Será mais fácil encontrar alguns exemplares em alfarrabistas do que em livrarias. Vale a pena tentar. Na Livraria Ultramarina, na Rua de S. Bento, Lisboa, consegui vários títulos, inclusive algumas 1ªs edições. Boa leitura e melhores descobertas!
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De Anónimo a 17.07.2018 às 12:26

Já que falamos de contos, por que não visitar a sua génese em Gonçalo Trancoso?

Fica a sugestão : )
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De Pedro Correia a 17.07.2018 às 13:38

Fico-lhe grato pela sugestão. Espero retomar esta série sem demora.

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