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O trágico destino dos escritores

por Pedro Correia, em 26.07.11

Foi só há pouco tempo, ao ler um notável ensaio de William Styron intitulado Visível Escuridão (Darkness Visible, 1990) que me apercebi das estreitas relações entre a depressão e o ofício da escrita. É quase inacreditável o número de grandes autores que cometeram suicídio, no auge de uma grave depressão. Styron fez uma lista, que está longe de ser exaustiva: Hart Crane, Virginia Woolf, Cesare Pavese, Romain Gary, Ernest Hemingway, Jack London, Sylvia Plath, Henri de Montherlant, John Berryman, Wiliam Inge, Paul Celan, Tadeusz Borowski, Anne Sexton, Serguei Esenin, Vladimir Mayakovsky. E Stefan Zweig, Primo Levi, Paul Nizan – acrescento eu. No caso português, poderíamos mencionar, por exemplo, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Mário de Sá Carneiro, Luís de Montalvor, Manuel Laranjeira, Trindade Coelho, Florbela Espanca.
“Apesar do raio de alcance da depressão ser ecléctico, demonstrou-se de forma bastante convincente que os temperamentos artísticos (particularmente os poetas) são especialmente vulneráveis a este mal – que, nas suas manifestações clínicas mais graves, colhe mais de 20 por cento das suas vítimas através do suicídio”, escreve Styron nesta notável obra sobre uma das maiores doenças da nossa civilização (Visível Escuridão, com tradução portuguesa de Teresa Caria, foi editada pela Bertrand em 1991). O próprio Styron – galardoado com o Prémio Pulitzer e o American Book Award, universalmente aplaudido por romances como A Escolha de Sofia – sofreu de depressão. “Receamos a perda de tudo, de todos os próximos e dos amados. Há um medo agudo do abandono. Ficar sozinho em casa, mesmo só por um momento, provocava-me um pânico e uma trepidação estranhos”, recorda o escritor neste impressionante e dilacerante depoimento.
“Não mais palavras. Um acto. Não voltarei a escrever.” Com estas palavras, redigidas num bilhete que lhe serviu de testamento, Pavese despediu-se da arte e da vida. O que levará um grande autor ao desespero? Quem de nós conhece devidamente os abismos da existência humana?


22 comentários

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De Leonor Barros a 26.07.2011 às 13:14

O que leva um escritor ao abismo é o que leva todos os outros seres humanos, Pedro. O facto de ser escritor não o protege da depressão. Falta vir aqui alguém dizer que não são exemplo para a Humanidade porque se suicidaram.
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De Pedro Correia a 26.07.2011 às 14:42

O drama de muitos escritores - falo daqueles com geuníno talento, não das 'bestas céleres' a que aludia o Alexandre O'Neill - está muito bem expresso naquela 'Autopsicografia' do Pessoa: "... finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente."
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De Laura Ramos a 26.07.2011 às 13:38

Talvez a escrita acabe por doer demais, porque é sempre monólogo. Ou talvez o 'spleen', como lhe chamava o Eça, seja o reverso da exaltação. E depois - isto agora em geral - , talvez a fronteira entre a felicidade e a depressão, o são e o insano, seja muitíssimo mais ténue do que julgamos. Dizem os entendidos que assim é. (Resumindo... ainda bem que não somos todos psis).
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De Pedro Correia a 26.07.2011 às 14:40

De facto a escrita acaba por ser um longo monólogo interior, Laura. E a relação do autor com a sua escrita é quase sempre muito complexa. Houve escritores que se suicidaram por não conseguirem escrever mais nada: foi o caso do Hemingway. Outros, por não quererem escrever mais. A fronteira entre os momentos de felicidade e os abismos da depressão é muito ténue. Este é um tema que os escritores conhecem bem: serve de matéria-prima para muitas das suas obras.
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De José António Abreu a 26.07.2011 às 14:20

Teoria nº 1: os escritores pensam na vida mais do que quase todas as restantes pessoas e suicidam-se quando chegam à conclusão de que, por mais que pensem e escrevam, não conseguem que ela faça sentido. Teoria nº 2: os suicidas perturbam-nos porque no fundo desconfiamos que chegaram a uma conclusão que nos recusamos a ver.

(Se um psiquiatra lê este comentário, estou lixado.)
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De Pedro Correia a 26.07.2011 às 14:36

Sem prejuízo da eventual validade da Teoria nº 2, subscrevo desde já a Teoria nº 1. Não há coincidências.
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De Ana Vidal a 26.07.2011 às 14:53

Subscreves tu e uma "eminente" escritora da nossa praça, que também acha que não há coincidências... :-)
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De Pedro Correia a 26.07.2011 às 15:09

Tenho há vários anos 'iminente' a leitura de uma obra dela. Até ao momento ainda só li a badana.
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De Pedro Correia a 26.07.2011 às 23:31

Badana? Acho que é só uma.
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De Leonor Barros a 26.07.2011 às 17:47

Essa dá para série dos livros que nunca deveríamos ter lido?
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De Laura Ramos a 26.07.2011 às 18:50

... mas importante para o estudo do auto-plágio (aula 1- nível básico)?
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De Pedro Correia a 26.07.2011 às 23:35

Essa dá para outra série. A das badanas que nunca devíamos ter lido. Aliás deixei de ser leitor de badanas.
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De João Carvalho a 26.07.2011 às 23:38

As badanas servem para as capas moles não se dobrarem e não quebrarem. E a história das badanas acaba aí. Ou devia ter acabado.
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De Alice Alfazema a 26.07.2011 às 19:31

Ninguém conhece verdadeiramente os abismos da existência humana, os criativos têm mentes "flutuantes", muitas vezes insatisfeitos, angustiados, querendo sempre mais...talvez seja a insatisfação que leve ao abismo, e como abismo que é, muitas vezes não há retorno ou possibilidade. Talvez, a depressão tenha uma irmã chamada incompreensão e sendo assim dão-se lindamente com o primo suicídio.
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De Pedro Correia a 26.07.2011 às 23:34

É verdade, Alice. Mas acontece muito mais com escritores do que com pintores ou arquitectos ou até com músicos clássicos. E já nem falo das dezenas ou centenas de escritores que se afundaram no alcoolismo - essa forma lenta de suicídio.
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De Leonor Barros a 26.07.2011 às 23:42

Pensam de mais, é o que é.
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De Pedro Correia a 27.07.2011 às 00:31

Cismam (como dizia a minha avó).
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De Rui Rocha a 27.07.2011 às 00:32

Em Braga diz-se que são mágicos (de magicar).
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De Pedro Correia a 28.07.2011 às 01:15

E dizem bem.
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De Alvarez a 08.05.2018 às 21:45

Este blog jaz há anos mas, ainda assim, sinto que não há problema em comentar.
Quanto a esse assunto, porei a minha retrospectiva, também como escritor.
Eu sou um indivíduo que escreve. Eu não me sinto feliz a escrever, mas escrevo, tanto poesia como prosa. A questão é, eu escrevo não porque me faça feliz, mas porque a tristeza pede-me para ser transformada em algo, e, por isso mesmo, é que faço tantas elegias, por exemplo.
Mas, por quê escrever? Escreve-se porque se tem necessidade de partilhar ideias que não poderão ser partilhadas de outra maneira. Talvez eu posso dizer que a existência humana implica o sofrimento, ou que a existência é, em si, inútil, mas por quê? A vontade cruel de descarnar o absurdo e o doloroso, traz, em si, ainda mais dor, como um indivíduo que vê as estrelas, mas não pensa para ele algo do género ''que maravilha, que estrelas belas que tremeliam neste céu!'', mas sim, ''Estas estrelas, enormes, que tremeluzem lá na distância, apenas significam a minha inutilidade no mundo.''.
Onde quero chegar é que, o escritor, como um ser que, supostamente é mais criativo e tem menos censura quanto aos assuntos, cisma e pensa sobre tudo, mesmo que não seja diretamente nas suas obras literárias. E esse ''tudo'' pode tornar-se horrivelmente doloroso.
Em suma, o marasmo e a doença do absurdo são as duas coisas mais vis que podem atacar um ser humano, e, quando vêm as duas em conjunto, o sofrimento pode ser grande demais. E os escritores e poetas, assim como outros criadores artísticos, estão mais propensos por isso mesmo, por seres criadores e necessitarem da criatividade; a mente deles funciona mais depressa e, como já disse, não tem tanta censura. Os grandes escritores também costumam ser sofredores do síndrome do impostor, (não creem que o seu sucesso é justo, ou então menosprezam o que fazem), em oposição ao efeito de Dunning-Kruger, (um indivíduo menos capaz, por ter poucos conhecimentos sobre um assunto, sobrevaloriza-se).
Concluindo, os criativos têm mais pensamentos, mais preocupações e mais dúvidas com a sua capacidade de criar. Além disso, as questões filosóficas e metafísicas muitas vezes tornam-se enfermidades. Este é o meu ponto de vista, e agradeço a quem, por mero acaso, tenha lido isto!
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De Pedro Correia a 08.05.2018 às 21:50

Agradeço-lhe muito a reflexão que aqui nos traz. Este texto, por acaso ou por sinal, foi um dos que escolhi para integrar a antologia DELITO DE OPINIÃO, que será apresentada depois de amanhã em Lisboa:
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/tomem-nota-quinta-as-18-30-10031714

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