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Delito de Opinião

conto para DN/JN edição de hoje 24 de Julho assinalando a milésima edição do jornal

3011: Lisboa nasceu agora mesmo

Patrícia Reis, 24.07.11

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Para Saramago, um ano depois da sua morte

Quando o corpo saiu junto do entulho não era mais do que isso. Apenas um corpo. Com a luminosidade excessiva, algo terrífico, o vulto adquiriu os contornos de uma mulher. Uma mulher grávida.  
Atrás dela vinha um cão e o silêncio ao seu redor era estranho, mas não parecia confundi-la. Saída da sua gruta, tinha a missão de procurar água e comida. Falava sozinha. Qualquer coisa que não se entendia. Perto de um monte de lixo encontrou o que procurava: um carro de plástico com duas rodas, um saco de pano vermelho sujo. Começou a andar. O cão atrás dela.
As ruas estavam vazias e a cidade parecia não existir. Nem a cidade literária de Ulisses, nem o porto de abrigo de navegadores. A cidade estava saqueada e semi-destruída e a mulher já não se admirava com o estado das coisas.
Em mil anos a profecia tinha-se cumprido. Não fora um gesto humano, passível de ser cristalizado num único conjunto de culpas. Não. Fora o planeta que se esticara, encolhera, fizera explodir violentando cidades com ventos e marés altas, um cenário apocalíptico inesperado. Nada estava previsto ou descrito nos livros antigos ou em estudos matemáticos. Nem todas as ciências juntas poderiam conceber este dilúvio. Seria preciso um maestro mais hábil. Não por ser o divino. Não o era. A vontade de Deus não tem a força da Terra.

E a força da Terra estava agora ameaçada. Ao mesmo tempo, permanecia teimosa na construção de outras espécies. Surgiam árvores e plantas estranhas com cores sem nome. O rio voltara a encher-se. O Atlântico em fúria estava ainda e sempre numa zanga permanente.
Da cidade pouco ou nada se sabia. Os velhos tinham morrido. A memória perdera-se em buracos profundos, como pedaços esquecidos de um jogo qualquer, uma peça infantil.  A mulher grávida seria uma excepção, sim, mas poucos o saberiam. Ou se importariam com isso.
Os que sobreviventes mantinham-se afastados. Deslocados. Foragidos. Tudo era passível de ser encarado com suspeita porque tudo, afinal, era suspeito e, num repente qualquer, a chuva podia regressar e durar dias e noites em que o tempo já não media. Para quê medir o tempo?
A mulher? Sim, preocupava-se com o tempo. Sentia-o crescer, a pele a esticar, as mamas maiores, os mamilos escuros, um fio de pêlos do sexo ao umbigo. Algo de estranho se passava com ela, dentro dela e, mesmo sem o saber, convenceu-se da sua importância. Assim, resguardava-se num refúgio que criara e tudo parecia mais leve e fácil quando observava os raios de luz que penetravam as chapas de zinco que amontoara. Uma vez cá fora, incomodada com a luz branca, doente, a mulher colhia ervas e remexia no lixo. Toda a cidade era um enorme depósito de lixo, mas, por vezes, aparecia algo e esse pequeno tesouro podia ser a diferença entre passar um ou vários dias dentro da gruta. O cão comia terra e pedaços de coisas que ela não conseguia distinguir. Não tinha nome. Era um cão. Lembrava-lhe outro, de um livro que alguém lhe lera, mas a mulher acreditava que estava a enlouquecer e, por isso, tudo o que recordava era apenas tido como um fragmento de uma outra vida ou, num momento mais prolongado, o equivalente a uma visão de algo antigo. Anterior.
Sabia que teria de deixar que a barriga fosse até um certo limite e que depois a criança nasceria. Era uma questão de tempo. A criança era como uma tempestade, uma tempestade eléctrica e poderosa que podia mudar o que estava. Ao mesmo tempo, a criança podia ser apenas a morte. Cá fora, empurrando o carro de duas rodas, vigiada pelo cão magro de cor indefinida, a mulher sentia algumas pontadas, mas prosseguia. O lixo podia esconder outras coisas. Com excepção da barriga, um estranho que ocupava o seu esqueleto, a mulher sofria de uma magreza que entristecia.
Quando regressava para a gruta, com o saco vermelho cheio de pequenas coisas, algumas inúteis, algumas bonitas e coloridas, o cão aninhava-se aos seus pés e como outro cão parecia esperar lamber as lágrimas de alguém, mas nunca o fazia. A mulher chorava todos os dias.
Na noite em que a criança nasceu, o cão lambeu-a num gesto de purificação e comeu a placenta. A mulher pegou na criatura, hermafrodita, e disse: o teu nome é Lisboa.