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Feminino e intemporal

por Leonor Barros, em 23.07.11
A voz inversamente proporcional à figura excessivamente magra, o cabelo armado com um penteado a que Nicolau Tolentino não ficaria indiferente, beehive, chamam-lhe, Karl Lagerfeld já o lhe teceu comentários elogiosos, considerando-a um ícone do estilo, o corpo esquálido enfiado num vestido que habitualmente lhe sobra, as pernas esguias e finas sobre sapatos de salto alto e a sensação de que os passos sobre os saltos são tão instáveis e periclitantes como o caminho que vai trilhando pela vida pessoal e profissional. E de Amy Winehouse já muito se disse, ou não nos brindasse a estrela que se teme subitamente cadente, com uma verdadeira novela em torno da sua vida pessoal, um enredo trágico prenhe de drogas e álcool, escândalos e amores sofridos, destemperos e hedonismos, conflitos familiares e problemas conjugais que se fundem e forjam as letras de que são feitas as suas canções, particularmente em Back to Black, o segundo trabalho que lhe valeu seis nomeações para os Grammys e que lhe fez arrecadar cinco. Recentemente a sua figura consta entre os notáveis do Museu de Cera mais famoso do mundo, o Madame Tussaud’s em Londres e em Maio último viu a letra de Love is a losing game ser objecto de análise nos exames de Cambridge. Muito, portanto, para uma mulher de apenas 24 anos. Com cinco milhões de cópias, apenas do último CD, vendidas em todo o mundo e um sucesso retumbante e ascensão meteórica, a frágil e jovem diva espalha e desperdiça o talento e divide o mundo entre críticos e solidários, puritanos e admiradores, uma panóplia de adivinhadores da desgraça tal como acontece no site em que são feitas previsões sobre a morte da cantora e uma imensidão de vaticinadores do infortúnio. Amy é tudo menos consenso e se consenso se lhe aplica tem lugar num único ponto: o talento de que a belíssima voz é parte imprescindível. Esqueçamos então a figura controversa, a imagem da mulher desalinhada e desesperada que exibe em palco a tragédia da sua própria vida, patética e decadente, e ouçamos apenas a voz portentosa. Esqueçamos também o seu percurso pessoal e ouçamos o que tem para nos dizer. Love is a losing game, por exemplo, é um hino às adversidades do amor, Back to black, o lamento da perda e do amor infeliz, Wake up alone, a solidão que se abate como o sol poente no quotidiano, Tears dry on their own, um tema perfeito para as mulheres que já experimentaram as lágrimas secar por si, muitas de nós, acredito. Há mais em Amy do que apenas Amy. Existe um sentimento muito feminino, intemporal e transversal de perda, solidão e rejeição. Quanto de nós não é Amy também?


Crónica escrita há uns anos e republicada hoje em jeito de homenagem a  Amy Winehouse que nos deixou hoje

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123 comentários

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De pouco importa o meu nome a 24.07.2011 às 09:59


O que acontece(u) com Amy não é um caso de mulher, é uma situação que ocorre com todo(a)s os afectivamente e efectivamente dependentes. Creio que é necessério descobrir a natureza da independência afectiva sem que remeta o Homem para a solidão do individualismo.

Creio que o problema de Amy, melhor, da(o)s Amy´s não é (foi) "love is a losing game", mas transformar o amor num jogo em que, por isto mesmo, sempre se perde. E quem perde perde-se sempre por outras roletas, nunca se sabendo em que momento o bastardo projéctil concretiza a má profecia sobre "love is a losing game".
Que viva na PAZ que não pôde encontrar.
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De Leonor Barros a 24.07.2011 às 13:10

Não, não é. Mas isso nunca é referido no que escrevi. O que acho convictamente é que há muito de mulher no que ela cantou. Que tenha a paz, se vida além desta houver.
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De pouco importa meu nome a 24.07.2011 às 19:27

O facto de ser mulher necessáriamente colocou esse quê feminino em tudo quanto fez.
O que pretendi escrever referiu-se também à intemporalidade que existe no facto de ser Homem, e não de se ser mulher ou homem.
Amy está viva, acabou de se criar o mito.

Quanto ao "love is a losing game", só o é também quando se instala o bovarismo, isto é, quando alguém se apaixona pelo amor e não é capaz de o "materializar".
Talvez Amy tivesse razão para assim cantar: "Love is a losing game".
Estou em crer que o amor existe no sítio (na pessoa) certo e não forçosamente na(s) pessoa(s) que se deseja para amar (isto é transversal à família, á sociedade e àquela outra metade). Mas também acredito que o amor se basta a si mesmo. Quero dizer que para sentir o amor é também necessário amar, sabendo amar. Só o que se dá nos pertence. Isto é intemporal, e não é feminino ou masculino.

Que Amy viva agora na Paz que não pôde encontrar.
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De Leonor Barros a 24.07.2011 às 19:48

Isso mesmo em relação à sua frase inicial

All we are saying is give love a chance :)
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De pouco importa meu nome a 25.07.2011 às 13:02


Exactamente isso. Mas de tanto se valorizar o feminino acaba-se por desvalorizá-lo. Há certas coisas que valem pelo que são e não pelo que querem fazer delas.
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De Leonor Barros a 25.07.2011 às 13:27

Também é verdade.

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