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conto para a edição de hoje do jornal i

por Patrícia Reis, em 23.07.11

a necessidade razoável da felicidade


Não estás feliz?
Olha, não sei, as coisas acontecem apenas e temos de as enfrentar. Como num tribunal, as acusações nos olhos de terceiros, a garganta seca, a culpa, a maldita culpa a castigar tudo e todos. Não há espaço para mais nada, não voltarei a ser criança nos teus braços.
Cometo erros por falta de tranquilidade. O que é a tranquilidade? O nosso mundo está partido aos pedaços, tem brechas brutais que se agravam a cada hora de um relógio que não nos pertence. Estamos em colisão, em extinção, ameaçados. Relacionar-se-á com amor? Duvido. O amor morre de repente. Quando damos por isso, foi-se. Partiu numa direcção estranha e desconhecida. O nosso amor é agora o amor de outros, cumpre a sua função, deixou um vazio, mas preenche as necessidades de quem vive, neste minuto, o momento da excitação de descobrir outro, qualquer outro que seja.
Por esta altura, julgaras que me desfaço nas palavras, que as atiro contra a folha do computador apenas num acaso, a ver se formulo um pensamento, um desvario. Estou sossegada, sabes, porque os dedos correm no teclado sem grande pressa e sinto-me despegada de tudo, sobretudo das palavras que te deixo hoje,  na véspera das férias de verão.
Tu visitas a tua mãe e eu, a pretexto de um trabalho que não terminará nunca, deixei-me estar aqui. Não faz calor. Há um silêncio confortável. Vejo os candeeiros desligados, as mesas de trabalho, os estiradores, as maquetas tridimensionais, edifícios por construir. Os arquitectos têm uma expressão - fazer cidade -  e é fácil de entender que o ambicionam, embora seja altamente duvidável que o consigam concretizar. Seja como for, sou apenas uma desenhadora. Muito boa, dizem. Pouco importa. Gosto das linhas e do desenho preciso, dos cálculos matemáticos que colocam todas as questões numa qualquer ordem. Preciso disso, dou-me mal no caos.
Há um abismo que me atemoriza primeiro. Depois chego, como hoje, à indiferença. É o pior dos sentimentos porque não leva a qualquer espécie de emoção, de tristeza ou de ruptura. Ficas como que dormente depois de teres tomado uma decisão. Basta comunicá-la e está tudo resolvido.
Não verei as estrelas contigo amanhã à noite. Perdoa-me. O mundo não me ama e eu tão pouco te amo. O amor fugiu, escapou. Estou a repetir a mesma ideia, já sei. Perdoa-me, mas a coerência nunca foi o meu forte. Sabes que sonho em viajar no espaço? Não numa nave, não, nada disso, nada de tão sofisticado. Sonho que voo baixinho e sinto a relva com as pontas dos dedos, que posso subir e ver as janelas dos prédios mais altos, a vida das pessoas, que atravesso nuvens e me junto ao ballet acertado do bando de aves migratórias, sabedoras de coisas sobre o tempo e o vento. Não me importava de ficar assim, uma ave humana perdida num bando. Tem algo de poético ou de ridículo, ainda não decidi. Há muitas coisas sobre as quais ainda não decidi. Outras, porém, tenho-as com a certeza esmagadora de uma inevitabilidade biológica.  Acredito que Jesus sabia estas coisas. As fantasias à sua volta são apenas isso: fantasias. Jesus sabia sobre o amor e a sua fuga e quis avisar-nos. Ouvimos? Não. Estamos sempre muito ocupados e há dois mil e tal anos já estávamos a cumprir com uma qualquer azáfama. Não queres saber de Jesus. Compreendo. Lembrei-me de como será o natal sem ti. A coisa do menino Jesus nas palhinhas e tal.  Desculpa. Sim, é um pouco lamechas, mas o que queres? Podemos conversar sobre o logótipo da cristandade, inventado no século IV? A cruz, o melhor logótipo do mundo. Não? Certo. Estou a desconversar.
Posso pegar na mala, ligar o alarme, sair para a avenida deserta, ver as janelas iluminadas e imaginar as famílias. Sabes o que eu queria? Queria um filho, já to disse e não me valeu de grande coisa. As tuas prioridades, as minhas prioridades, o dinheiro, a condição de vida, a saúde, o aquecimento global, a paz no mundo, tudo o que teima em falhar. Se pensares bem é sempre a mesma história: começamos por querer o mesmo e depois seguimos trilhos distintos, como índios especialistas em pegadas e coisas assim, cada um a desvendar o seu mistério, o respectivo segredo.
Não me digas nada.
Quando chegares a casa não terás nada meu, nem uma peça de roupa, um livro, um quadro. Deixei-te o gato, porque... enfim, é uma companhia e vais precisar por seres tu o abandonado. Essa maldade – “ela levou-me o gato” – não a quero em cima da minha cabeça. Desculpa. Precisas de comprar areia e comprimidos para desparasitar a criatura. Está na altura. O gato deve ter percebido tudo porque escapou às minhas festas com um certo desdém. Não faz mal. Eu até sou alérgica ao pêlo, era um esforço por amor. Seja lá isso o que for. Sabes o que é? Eu não. Já soube. Agora não.
Deixo-me estar quieta no meu canto e não digo nada, o meu corpo não se movimenta na direcção certa, pouco me importa que não me apreciem ou que o façam com excesso. Estou a salvo. Sobrevivi a tudo e estou imune. Mesmo a gripe A não me pode apanhar. É como a euforia do Verão ou o espírito de natal. Dentro do meu carro, com as coisas amontoadas na bagageira, sinto-me livre de obrigações. Se tivesse um filho, repara, seria diferente. Não tenho, ou melhor, não temos, por isso desejo-te um resto de ano extraordinário. Eu irei encontrar um bando para voar baixinho. E, mesmo que fique sozinha, posso sempre encarar o vazio do meu corpo e culpar-me inteiramente.  Pouco ou nada sobrará para ti.
Não estás feliz?



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