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A arma dele não perdoava

por Pedro Correia, em 31.07.11
Sherlock Holmes, a criatura, foi sempre mais popular do que o criador, Conan Doyle. O mesmo se passou com Perry Mason, que ultrapassou largamente o seu criador, Erle Stanley Gardner, em reconhecimento público. Ou Nero Wolfe (criado por Rex Stout) e O Santo (por Leslie Charteris). Até Poirot e Maigret gozam hoje de maior notoriedade do que os seus autores, Agatha Christie e Georges Simenon. Com Mickey Spillane (1918-2006) era ao contrário: sempre foi mais popular do que Mike Hammer, o detective que criou. Ao ponto de não faltar quem pensasse que o detective era o próprio Spillane. Um detective muito diferente dos demais: forjado nos abismos da guerra, formado no auge do terror atómico, surgido depois de Auschwitz e Hiroxima, quando já nenhuma utopia era credível. Violento, amoral, Hammer odiava o compromisso com o mundo do crime. Ao ponto de, em obras como O Juiz Sou Eu e A Minha Arma não Perdoa, se confundir ele próprio com um criminoso pelos métodos que empregava. Foi esta a originalidade de Spillane, que não tardou a ter imitadores de quinta ordem, iniciando um repugnante subgénero no policial - o do detective-vingador a qualquer preço.
Lembrei-me dele ao saber que a Titan Books tenciona publicar até 2014 três policiais que Spillane deixou inacabados e serão concluídos por Max Allan Collins, depositário do seu arquivo. Nunca apreciei o estilo duro deste autor, que enriqueceu com os livros que produzia sem jamais esconder o ódio à literatura: os meus modelos de private eye são Marlowe (de Chandler) ou Lew Archer (de Ross Macdonald), seres magoados mas que conservavam um fundo de heroicidade romântica nada em consonância com a era sem heróis em que viviam. Hammer, pelo contrário, estava em plena sintonia com uma época em que se apagavam os últimos vestígios de uma ética colectiva, afogada em nome do sacrossanto determinismo individual.
A arma dele não tinha alma. Como as que matam em tantas rotas, da Noruega à Síria, nestes implacáveis tempos de Talião.


8 comentários

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De Carlos Pires a 31.07.2011 às 14:38

Nos governos do PS estava sempre a acontecer. E as personagens eram mais desagradáveis e incompetentes. Apesar de tudo, Nogueira Leite é um modelo de virtudes quando comparado a Armando Vara.
Mas isso não chega para desculpar este tiro no pé que o governo acabou de dar. É tristemente incoerente.
Pode ser que as críticas quase unânimes faça Passos Coelho pensar duas vezes na próxima oportunidade. Pode ser também que essas críticas e a atenção gerada façam os gestores agora nomeados serem escrupulosos. Com as privatizações que aí vêm dava jeito poder confiar nos critérios da CGD e não haver as suspeitas do costume.
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De Pedro Correia a 31.07.2011 às 15:16

Concordo consigo: o meu amigo António Nogueira Leite é "um poço de virtudes" comparado com Armando Vara. Mas o que é que isso tem a ver com o Mickey Spillane? Fiquei intrigado.
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De Carlos Pires a 31.07.2011 às 15:39

Enganei-me no post. O comentário era destinado ao post "Onde é que eu já vi isto?"

Desculpe. É do calor!
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De Pedro Correia a 31.07.2011 às 18:06

Está desculpadíssimo, naturalmente.
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De João Severino a 31.07.2011 às 16:05

Tempos de Talião por causa do beirão...
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De Pedro Correia a 07.01.2013 às 23:47

... e tempos de demasiada gente sem alma mas com arma.
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De Jéssica Goulart a 07.01.2013 às 12:32

Pedro, adorei seu artigo!
Coloquei uma referência a ele na resenha que fiz desse livro, dê uma olhadinha se puder - http://thetheatredesvampires.blogspot.com.br/2013/01/minha-arma-nao-perdoa-de-mickey-spillane.html
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De Pedro Correia a 07.01.2013 às 23:48

Obrigado pela boa surpresa, Jéssica. Gostei.

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