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De Havana a Londres

por Pedro Correia, em 06.08.11
O Livro das Cidades, de Cabrera Infante, Publicações Dom Quixote.

O escritor cubano, falecido em 2005, foi forçado a trocar o sol do Caribe pelo exílio britânico, vivendo quatro décadas em Londres. Nunca voltou à ilha natal, que ia lembrando com crescente saudade de obra para obra. Mas adaptou-se bem aos rigores do clima londrino, como este livro documenta. Guillermo Cabrera Infante descreve-nos a sua vida quotidiana em Londres – uma vida compassada, feita de minuciosas rotinas, estivesse chuva ou sol. Acompanhamos os passeios do escritor por South Kensington Park, seguimo-lo pelas zonas do grande comércio, damos um pulo à Gloucester (pronuncia-se “Gloster”) Road, onde viveu com a mulher, Miriam Gómez, e as duas filhas. “Quem está cansado de Londres está cansado da vida”, escreveu Samuel Johnson. Cabrera não estava: o amor pela capital britânica aconteceu à primeira vista, em Novembro de 1963: mal virou uma esquina, deparou com um bando de adolescentes em histeria. O que era? Os Beatles, que ali actuavam. Seguiram-se os anos loucos da swinging London, que o autor cubano testemunhou por dentro. Muito antes da movida madrilena, que causou furor por toda a Europa, era Londes a dar cartas – na moda, na música, nos usos e costumes.
Cabrera Infante fala-nos aqui também das personalidades que foi conhecendo ao longo da vida. Poucos ficam bem na fotografia. George Raft, por exemplo, era mafioso tanto no cinema como na vida real. Elizabeth Taylor, uma insuportável diva. John Lennon, o rei da arrogância.
E fala-nos de outras cidades. A britânica Bath, “a cidade mais encantadora da Inglaterra”. San Sebastián, “um espectáculo para ver e voltar”. E tantas outras: Bruxelas, Nova Iorque, Las Vegas, Madrid, Veneza, Rio de Janeiro, Salvador da Baía... À primeira vista, falta Havana. Mas Havana está sempre presente, em todas as entrelinhas. Essa Havana que foi a mais deslumbrante das cidades do antigo império espanhol e hoje vegeta numa amarga decadência, estrangulada pela ditadura castrista.
A dor do exílio acabou por matar Cabrera Infante. Mas Miriam Gómez há-de cumprir a promessa que lhe fez: as suas cinzas serão um dia espalhadas pelo chão de Cuba.
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2 comentários

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De Laura Ramos a 07.08.2011 às 02:01

Já anotei, vou seguir a série.
Londres, no "meu tempo", era uma espécie de 'negativo' de Paris, que eu achava ser o centro do mundo, embora tivesse ido bem cedo a Inglaterra, quando nem sequer -teen era (e na altura só gostei do Victoria&Albert, do Selfridge e dos baratíssimos Cadburys, foi tudo muito antes da adesão à UE, perdão, à CEE). Só compreendi Londres uns anos mais tarde. E os londrinos, também. Aliás, muito mais simpáticos do que os franceses... Não fossem os orientais que por ali pululam, sempre apartados dos ocidentais (em Bayswater é um susto), Londres seria agora o centro da vida interessante.
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De Pedro Correia a 07.08.2011 às 14:53

Londres não tem a atmosfera festiva e luminosa de Roma nem o charme de Paris mas tem um encanto muito especial que não é para todos os gostos, reconheço.
Mas quem aprende a gostar desta cidade fica preso a ela para sempre.

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