Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Uma cidade roída pela solidão

por Pedro Correia, em 18.07.11
Nos longos dias de Verão, quando muitos dos que aqui trabalham vão de férias, percebemos melhor como Lisboa está a transformar-se numa cidade povoada por velhos. Os jovens são cada vez mais empurrados para a periferia, tornando o centro da capital um domínio praticamente exclusivo de gente idosa, que quase nem sai à rua e se limita a espreitar o mundo pelo ecrã da televisão ou por um olhar furtivo à janela. Entre os recenseamentos de 1981 e 2001, Lisboa perdeu 20 por cento da sua população fixa. Há ruas onde não mora ninguém. E tudo isto, que devia ser tema de intenso debate público, parece não espantar ninguém. “On s’ habitue, c’est tout”, cantava Jacques Brel numa das suas mais belas canções. É isso mesmo: vamo-nos habituando à invasão do insólito no nosso quotidiano e já não estranhamos rigorosamente nada.




18 comentários

Sem imagem de perfil

De João Lisboa a 18.07.2011 às 22:21

Não poderia ter melhor "sucessora".
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 18.07.2011 às 22:55

Hum. Parece-me um comentário para o andar aqui de baixo, João. Mas fica registado à mesma. Com agrado.
Abraço.

Sem imagem de perfil

De Observador do Caos a 18.07.2011 às 22:28

"Ne me quitte pas" grita Lisboa, mas ninguém ouve. Incluindo os dirigentes camarários. É pena.

Cumprimentos, Pedro.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 18.07.2011 às 22:53

É pena, Observador. De facto.
Cumprimentos retribuídos.
Imagem de perfil

De Laura Ramos a 19.07.2011 às 00:01

Boa cogitação. Aplicável a tantos centros urbanos. E grande invocação musical, completamente a propósito. "On oublie rien de rien. On s'habitue, c'est tout". Claro, esquecidos mesmo são os que ficaram. Concluo que a raça humana é de uma assombrosa resistência. E tb de uma ingratidão sem limites. (Pois, já sabíamos).
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 19.07.2011 às 00:27

Pois, Laura. O problema não se circunscreve a Lisboa. Mas por cá ganha uma dimensão maior e ainda mais evidente. E ainda mais chocante.
Por mim, não me habituo. Apesar de adorar a canção do Brel.
Imagem de perfil

De Laura Ramos a 19.07.2011 às 00:40

Claro, a "isto aqui" eu tb não me habituo. Non plus!
(já a outras inúmeras coisas de que o 'rebélgien' falava, estou com ele: on s'habitue. C'est la survivance... :)
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 19.07.2011 às 00:45

Se há reforma urgente em Portugal é esta: a reabilitação urbana. Que só é possível com uma profunda alteração da lei do arrendamento. Se tudo permanecer na mesma, continuaremos a ver os centros das nossas cidades a definhar, agonizar e morrer.
Imagem de perfil

De Laura Ramos a 19.07.2011 às 09:10

Essa aí - lei do arrendamento - já estava praticamente pronta para sair do forno, substancialmente alterada. Responsabilização dos locadores pelo estado dos prédios e liberalização das rendas indexadas ao mercado de há 40 e 50 anos. Agora, espero que saia reforçada. Mas, como sempre, estes não são os melhores tempos para uma reforma com esse alcance.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 19.07.2011 às 14:06

O problema de muitas leis em Portugal, Laura, é não chegarem a sair da gaveta. Ou serem aplicadas de forma deficiente.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 19.07.2011 às 10:10

Isso é uma história do passado.

Entre 2001 e 2011, de acordo com dados preliminares do último censo já divulgados pelo INE, Lisboa já só perdeu 3% da população.

E eu estou em crer, de facto, que, nestes últimos anos, Lisboa já estará a voltar a ganhar população.

A tendência de perda foi causada pelo baixo preço dos carburantes e pela tragédia do congelamento das rendas. Agora que as carburantes estão caros, já há muito mais gente a querer vir viver para Lisboa do que gente a querer ir para a periferia.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 19.07.2011 às 10:29

Você contradiz-se a todo o passo, Luís Lavoura. Pelas suas próprias palavras Lisboa "só" perdeu 3% de habitantes nos últimos dez anos, depois de ter perdido 20% na década anterior. Ou seja, entre 1991 e 2011 - dados oficiais - Lisboa perdeu cerca de um quarto da sua população. Você chuta isto para canto, dizendo "estar em crer" que a cidade "já estar
a voltar a ganhar população". Típico "achismo" lusitano.
Mas o melhor mesmo é o remate: na sua opinião as pessoas vivem na periferia porque "querem". Não percebeu que as pessoas foram literalmente empurradas para a periferia enquanto muitos bairros de Lisboa se transformavam em desertos devido à absurda lei do arrendamento urbano que se mantém em vigor?
Sem imagem de perfil

De l.rodrigues a 19.07.2011 às 11:47

A lei do arrendamento é apenas uma das faces do dado, nem sequer da moeda, porque acho (com todo o achismo que me permitir) que o problema é ainda mais complexo.

A lei dos solos incentivou a construção em novo, nas perriferias urbanas, ajudada pelo crédito barato que incentivou a compra.

Por outro lado, houve anos de bolha imobiliária. Muitos proprietários preferem (preferiram?) ter um prédio a cair no centro de Lisboa, à espera de uma oferta de compra do que investir minimamente na manutenção dos imóveis. Agora esssas ofertas talvez se tornem mais raras, e essa espera menos compensadora.

Devia haver leis de expropriação de predios devolutos ao fim de x anos nos centros urbanos. Não sei como isso funciona actualmente mas parece não funcionar. Muitos estão assim devido a problemas de partilhas, disputas de propriedade etc. A Cidade é que sofre com isso, e por isso deveria poder defender-se. A bem de todos.

A lei dos arrendamentos poderá ajudar um pouco, mas o mal que está feito precisa de mais, acho.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 19.07.2011 às 14:07

Subscrevo, L. Rodrigues.
Sem imagem de perfil

De FD a 19.07.2011 às 13:32

Correcto, mas existe muita gente que prefere COMPRAR fora de Lisboa com todos os "luxos" associados, isto é a aspiração central, garagem e claro, ser novo. Isto tudo é preferivel num sitio dormitorio do que sentir o pulso à cidade, arrendando ou até comprando um imovel em Lisboa. Muitos não estão para viver numa casa "velha" sem garagem, nem sem os supostos luxos, ignorando as enormes e interessantes vantagens de se viver em Lisboa, já para não falar de que a grande maioria das casas "velhas" têm melhor isolamento acustico e térmico que as mais modernas. Eu vivo à 11 anos em Lisboa, e garanto que se se procurar bem, existem preços bastante razoaveis, que até podem ser rentabilizados na proximidade do Local de trabalho e comercio.


PS: tive que ignorar a correcção ortografica porque estou no telemovel, as minhas desculpas.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 19.07.2011 às 14:16

Devo reconhecer que nos últimos anos bastante se tem feito no campo da reabilitação urbana em Lisboa. Mas o nível de degradação a que se chegou foi de tal maneira elevado que é necessário acelerar essa reabilitação, sob pena de continuarmos a ver edifícios a ruir, como tem acontecido um pouco por todo o lado na cidade. A dinamização do mercado de arrendamento é também essencial. Para fixar jovens na cidade e fomentar a mobilidade social. Portugal é um dos países da Europa com menor mobilidade social precisamente devido à drástica redução do mercado de arrendamento. Nos últimos 20 anos, grande parte da população portuguesa ficou amarrada a hipotecas, endividando-se a níveis muito acima dos seus rendimentos para "comprar" um apartamento - que em muitos casos nunca deixará de ser propriedade do banco.
Imagem de perfil

De Ana Lima a 20.07.2011 às 01:39

Esta questão diz-me muito. Infelizmente não tenho muito tempo aqui. Também vi dados do INE, dos resultados preliminares dos censos e, basicamente, parece-me que continuamos a ter razões para nos preocuparmos. É verdade que a perda de população em Lisboa tem vindo a diminuir (-3,4%) [No Porto essa perda foi de -9,7%]. Mas esse resultado tem a ver com o crescimento do número de residentes em freguesias como Lumiar, Marvila, Olivais, Ameixoeira. As freguesias do centro da cidade continuam a perder muita gente e nem são só os bairros históricos, tradicionalmente mais envelhecidos.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 20.07.2011 às 12:31

Exactamente, Ana. Quanto mais no centro da cidade, maior é o deserto. O que aliás não sucede só em Lisboa: no Porto, por exemplo, passa-se o mesmo. Qualquer política urbanística digna desse nome deve considerar prioritário este combate.

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D