Quando ler é insuficiente...
O convite da Helena Ferro, deixou-me um pouco atrapalhado – daí a demora – porque me obrigou a voltar ao meu primeiro livro, de pano, e a uma idade em que nada me preocupava. Isto para vos dizer que vários anos depois olho para os livros com um misto de atracção e desconfiança: levantaram-me sempre mais problemas do que resolveram. Não sei como é que me transformei num leitor compulsivo, quando o que queria era viajar e respirar fundo. Mas talvez a resposta já esteja na pergunta.
1. Existe um livro que relerias várias vezes?
As Mil e Uma Noites, porque ainda me encanto, Em Nome da Terra, de Virgílio Ferreira, porque ainda me comovo, as Alices, de Lewis Carrol, porque ainda me partem a cabeça, vários de Pessoa, de Rilke…
2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
O último foi Demasiados Heróis, de Laura Restrepo, o que me pesa: dá a ideia que o escreveu com uma pistola apontada à cabeça – ou à carteira.
3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?
Foi a pergunta que mais tempo me levou a responder. Mas aí vai: Em Nome da Terra, porque me tocou, invadiu e ocupou.
4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
O Ulisses, de Joyce. Também porque nunca calhou. Olhem: esta pergunta é deprimente!
5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?
Assim, de repente, não me lembro de nenhum. Em geral, não consigo separar os começos e os fins nas histórias. Como é que se faz?
6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Ai, saudade! O primeiro livro que folheei, não sei com que idade, foi um de pano – O Preto da Guiné. Quando tinha oito anos deram-me um de poemas, que li e reli, até que me escapou das mãos quando tomava banho. Lia de dia e de noite, com uma lanterna debaixo dos lençóis. Sonhei com Grichka e o seu Urso, andei na garupa do Cavaleiro Andante, acompanhei até aos últimos suspiros o Major Alvega e O Último dos Moicanos, emocionei-me com Beau Geste, de P. C. Wren, fui duende numa história de Selma Lagerloff. Desci ao centro da Terra com Júlio Verne. E, claro, fui o sexto companheiro dos Cinco, entre bolachas e limonadas – foi a única vez na vida que engordei.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
O mais recente foi Método Prático de Guerrilha, do brasileiro Marcelo Ferroni, para quem, à semelhança de muitos novos escritores, a História não passa de uma metáfora e a escrita um exercício de ironia. Pagaram-me para o ler. Os mais remotos foram dois disparates, um de um chileno, Michelle Bonnefoy, e outro de um espanhol, Enrique Murillo. Não devia ter na altura mais nada à mão…
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Ora, sentem-se. Na prosa, e à medida que me lembro, Os Maias, de Eça, Em Nome da Terra, de Virgílio Ferreira, Avieiros, de Alves Redol, vários de Agualusa, vários de Saramago, Cães Perdidos sem Coleira, de Gilbert Cesbron, Terre des Hommes, de Saint-Exupéry, vários de Camus, Carta a um Homem Religioso, de Simone Weil, Escritos no Deserto, de Isabelle Eberhardt, entre outros, O Fio da Navalha, de S. Maugham, A Montanha Mágica, de Thomas Mann, O Velho e o Mar, nem digo de quem, as Alices de que já falei, vários de Chatwin, Doce Companhia, de Laura Restrepo, entre outros, Cem Anos de Solidão, de García Márquez, entre outros, Terra do Fogo, de Francisco Coloane, entre outros, Terra de Ninguém, de Eduardo Antonio Parra, Conversa na Catedral, de Vargas Llosa, entre outros, A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares, 2666, de R. Bolaño, Somos o Esquecimento que Seremos, de Abad Faciolince, uma descoberta, vários de Carlos Fuentes, RoBhalde, de H. Hesse, O Processo, de Kafka, vários de Kapuscinski, vários de Mia Couto. Na poesia, o Cântico dos Cânticos, ou o corpo que todos perdemos, e, também sem nenhuma ordem especial, a obra de Pessoa e dos seus outros seres, a de Mário de Sá-Carneiro, a de Ana Daniel, a de Emily Dickinson, a de Rilke, a de Paul Éluard, e, no teatro, a de Sartre, a de Brecht – claro! –, a de Schnitzler, a de Pinter. Pronto. Basta. Chega.
9. Que livro estás a ler?
Contos Reunidos, do uruguaio Felisberto Hernández, uma obra absolutamente prima de um escritor absolutamente genial, desgraçadamente pouco lembrado. E um outro sobre plantas carnívoras, mas este não conta para aqui...
10. Indica dez amigos para responderem a este inquérito.
Podem ser só quatro? Filomena Naves, Sérgio Luís de Carvalho, Miguel Real, Alice Vieira. Eu aviso-os.

