O tipo só contou para eles
A afirmação ontem feita pelo Presidente do PSD e actual primeiro-ministro de que encontrou um "desvio colossal" nas contas públicas tem de ser objecto de adequada concretização por parte de quem proferiu essa afirmação. Desde logo, porque o primeiro-ministro quando esteve na Assembleia da República a apresentar e discutir o Programa de Governo não só disse que não iria falar do passado, o que contradiz o que referiu aos senhores conselheiros sabendo que as paredes têm ouvidos, como não alertou o País para a situação de "desvio colossal" que encontrou. Mas mesmo admitindo que só tivesse efectuado essa "descoberta" depois de ter estado no Parlamento, e mesmo a tempo da reunião do Conselho Nacional do PSD, os portugueses, quanto a esta matéria, não terão menos direitos do que os conselheiros da sua agremiação. Como uma afirmação deste jaez não é inocente, sendo previsível que mais tarde ou mais cedo fosse de todos conhecida, e porque não se pode andar a brincar às contas públicas, sublinho a necessidade do primeiro-ministro esclarecer rapidamente de onde resulta o "desvio colossal" que confidenciou, entre portas, aos membros do seu partido, mostrando quais os números em que se apoia e em quê que isso se traduz, já que é fundamental sabê-lo para que se possa concluir a "accountability" do anterior Governo e começar a olhar o futuro. Sob pena de, se não o fizer, Passos Coelho ficar desde já catalogado como mais um fala-barato que em nada se distingue, como eu suspeito, dos anteriores que ainda por aí assobiam.
Governar Portugal não é o mesmo que dirigir a JSD com os compadres Relvas e Macedo. Os portugueses não são verbo-de-encher para o pagamento de impostos e se ele não souber ou não puder responder, então que mande o ministro das Finanças fazê-lo, já que aparenta ser homem parcimonioso, mais rigoroso e menos desbocado do que ele.

