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Um tiro na cabeça

por Ana Vidal, em 04.07.11

Entristece-me assistir à morte de alguém, seja ela real ou metafórica. Mais, ainda, à de um homem por quem já tive admiração. Fernando Nobre foi, em tempos, alguém que criou e desenvolveu uma obra meritória e pioneira em prol dos mais desfavorecidos. Mas isso não lhe bastava, sabemo-lo agora. A tentação da ribalta falou mais alto e ele deixou-se armadilhar pela própria ambição, sabiamente manipulada, muito provavelmente, por outros muito mais experientes nessas artes. E assim disse e se desdisse continuamente, descendo a pulso na vida política e na imagem que dele tínhamos. Fernando Nobre não precisou que ninguém lhe desse um tiro na cabeça - nesse dramatismo de novela mexicana que era, afinal, premonitório - para morrer aos olhos de todos nós. No caso, para suicidar-se. Ele próprio agarrou na arma, encostou-a à têmpora e premiu o gatilho. E fê-lo aos poucos, lenta e dolorosamente. Tão altas expectativas para acabar assim, tristemente, sem nobreza nem dignidade. Cai o pano sobre uma figura triste, que ultimamente só tem feito tristes figuras.


11 comentários

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De Laura Ramos a 04.07.2011 às 18:07

Um "herói" nunca se conforma com o anonimato... E depois, a falta de cultura política que sempre revelou enquanto candidato a PR é justamente o que agora não lhe permitiu entender o que se esperava dele.
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De Ana Vidal a 04.07.2011 às 18:20

Ele não entendeu nada, Laura... mas prestou-se. E prestou-se pelos piores motivos, que ficaram bem claros quando anunciou pomposamente "ou presidente ou nada". E de novo agora, quando esclareceu todas as dúvidas que pudéssemos ainda ter.
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De Leonor Barros a 04.07.2011 às 18:28

Absolutamente lamentável, todo este episódio.
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De Ana Vidal a 04.07.2011 às 18:37

É a palavra certa, Leonor.
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De IsabelPS a 04.07.2011 às 21:15

Devo dizer que o primeiro comentário que ouvi, há bastantes anos já, sobre Fernando Nobre (para justificar a origem da AMI como sucedâneo dos Médecins Sans Frontères, se bem me lembro), foi que era um pavão, com um ego do tamanho duma casa.

E por falar em egos do tamanho duma casa, fiz a tal pergunta sobre a Gabriela Canavilhas a quem conhece não sei quem que conhece não sei quem, e a resposta foi qualquer coisa como: "É mesmo dela". ;-)
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De Ana Vidal a 05.07.2011 às 01:22

Provou ser vaidoso, sim. E também ingénuo, o que apesar de tudo é uma atenuante.

Quanto à ex-ministra, Isabel, foi isso mais ou menos o que ouvi também.
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De IsabelPS a 05.07.2011 às 09:07

Não sei se é uma atenuante. Se é verdade o que se diz, que ele estava convencido de que a Maçonaria o ia pôr onde ele queria, eu não chamo a isso ingenuidade embora talvez pudesse fazê-lo.
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De Ana Vidal a 05.07.2011 às 10:43

E quer maior ingenuidade, Isabel? A Maçonaria não brinca em serviço, e sempre usou como ninguém os ambiciosos...
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De IsabelPS a 05.07.2011 às 14:11

Não discuto que seja uma ingenuidade. O que discuto é que se trate de uma atenuante. É como chamar simplesmente ingénuo a alguém que não está à espera de ir de cana por motivo de corrupção porque, na ideia dele, é o trivial e croquetes...

Quem sabe, talvez isto seja algum minúsculo sinal de mudança ;-)
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De macarvalho a 06.07.2011 às 05:30

Era uma figura que sempre admirei, ao longo dos anos.
Fez um grande trabalho, rodeou-se de quem sabe, criou uma obra de que nos orgulhamos e esteve sempre na linha da frente.
Internacionalmente reconhecido o seu mérito, em prol dos mais necessitados, qualquer que fosse o cenário.
Era um ídolo.
Fez com que eu fosse sócia da AMI e tencionasse terminar a minha vida numa missão em qualquer parte do mundo.

Se me questionei sobre a sua opção política, pela sua falta de preparação, sobre o mediatismo a que subiu num ápice e de que pareceu gostar, decidi pensar na atenuante de ser um independente, um impreparado politicamente, o que até poderia ser uma virtude, se o víssemos como uma personalidade sem vícios.
Mas não era assim e tal não lhe bastou, como vimos.
Deu vários tiros no pé, mas, acima de tudo, via-se ali uma ânsia de poder que não lhe reconhecia.
Depois, seguiram-se os "diz que disse mas não disse" ou simplesmente "não era bem isso o que queria dizer", que de ingenuidade não têem nada. E sempre a reboque de alguém mais preparado politicamente.
Só faltava o remate final, que no caso, foi um tiro certeiro.
Afinal, era mesmo o topo ou nada. Se já não havia dúvidas, o mito caiu por terra.
Incapaz de se alhear das câmeras, só lhe faltou viver a sua própria fantasia e imaginar o seu próprio sucesso:
All riht, Mr. DeMille, I'me ready for my close-up...
Ao que pode chegar a miséria de um ser humano!

Deixei de ser sócia da AMI, o que, provavelmente, não tem nada a ver com o assunto.
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De Ana Vidal a 06.07.2011 às 12:27

Um declínio muito bem resumido, MACarvalho. Menoridades de quem menos se espera. A mim também enganou bem, embora isso não console ninguém.

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