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Delito de Opinião

Bloco: é hora de virar a página

Pedro Correia, 22.06.11

 

O Bloco de Esquerda foi arrasado nestas legislativas: perdeu metade do grupo parlamentar - incluindo o líder da bancada, José Manuel Pureza - e metade dos votos expressos na eleição de 2009. Deveria ser motivo para uma análise exaustiva das causas que levaram ao fracasso de uma força eleitoral em que tantos viam um factor fundamental de renovação da esquerda portuguesa. E não faltam vozes a reclamar esse debate, incluindo as do Daniel Oliveira e da Joana Amaral Dias. Hoje, em entrevista ao i, Miguel Portas deu um passo em frente, admitindo que "o tempo dos fundadores [do BE] enquanto dirigentes de primeira linha está esgotado".

Estranhamente, porém, a direcção do Bloco resiste em fazer uma autocrítica à altura dos acontecimentos - como se a esmagadora maioria dos dirigentes do partido se conformasse com esta hecatombe eleitoral, como se ela se inscrevesse na ordem natural das coisas, parecendo fora de hipótese a convocação de uma convenção extraordinária, sob o caricato pretexto de que ocorreu uma há poucas semanas. Como se as reuniões extraordinárias não devessem acontecer precisamente quando se produzem circunstâncias extraordinárias e como se o pano de fundo político em que ocorreu a convenção anterior não se tivesse alterado substancialmente.

O BE enfrenta um dilema estratégico que terá de solucionar a curto prazo. Sem implantação autárquica, com escassas ramificações no mundo sindical, tendo visto esgotada a agenda de "costumes" que utilizou para agitar a sociedade portuguesa na última década, tem agora de responder seriamente à seguinte pergunta: pretende contribuir ou não para uma alternativa de governo em Portugal?

 

Nos últimos meses, como aqui oportunamente assinalei, o BE cometeu erros lapidares. Que devem ser dissecados sem ambiguidade de qualquer espécie.

Eis os principais:

- Abdicou de uma candidatura própria à Presidência da República, apostando tudo em Manuel Alegre com o objectivo óbvio de dividir os socialistas. Falhou estrondosamente nesta estratégia.

- Para tentar corrigir o erro anterior, cometeu outro: mal os votos das presidenciais tinham sido contabilizados, avançou com uma moção de censura ao governo socialista na Assembleia da República. Tudo soava a falso nesta moção: semanas antes, bloquistas e socialistas tinham descido juntos o Chiado no apoio a Alegre. Chamei-lhe, logo na altura, o maior tiro de pólvora seca do ano político português. Creio não me ter enganado.

- Fracassada a aposta presidencial e votada à irrelevância a moção de censura, o Bloco ensaiou nova fuga em frente copiando a intransigência do PCP quando Portugal recebeu a delegação da União Europeia, do Banco Central Europeu e do FMI. Os comunistas recusaram uma audiência com esta delegação e os bloquistas adoptaram a mesmíssima atitude, sem sequer uma divergência de pormenor. Em clara dissonância com boa parte do seu eleitorado, que não se confunde - nem nunca se confundiu - com o do PCP. "A última coisa de que o sistema português precisa é de um segundo partido comunista", escrevi aqui a 27 de Abril, criticando a posição do Bloco. Louçã demorou quase dois meses a reconhecer o erro. Miguel Portas, na excelente entrevista concedida ao Nuno Ramos de Almeida, vai hoje mais longe, apontando na direcção correcta: "A nossa decisão foi culturalmente arrogante e sobrestimou a capacidade de indignação da sociedade portuguesa e subestimou o medo em que a sociedade mergulhou com os níveis de desemprego e insegurança que a atingiram."

 

O Bloco não pode cometer o erro dos partidos tradicionais, que se fecham sobre si mesmos nos momentos do desaire. O aparelho bloquista, numa reacção instintiva, recusa debater com a profundidade que a situação exige a derrocada eleitoral do dia 5. Mas há um problema de fundo que o BE tem de resolver: ou se contenta em ser uma cópia do PCP, o que o condena à extinção a curto prazo, ou se assume como parceiro de soluções governativas à esquerda, o que implica fatalmente um diálogo com o PS. Esta tem vindo a ser a solução defendida por uma corrente de opinião minoritária do Bloco e ficou notavelmente expressa num texto de Rui Tavares divulgado no Público, a 7 de Junho, sob o título Período de reflexão. Tavares, veterano compagnon de route do BE, acaba de romper com o partido que representava até agora no Parlamento Europeu, como deputado independente. Isto não invalida - antes reforça - o interesse pela leitura daquele artigo. Aconselho que o leiam: merece reflexão de todos quantos se interessam por política, seja qual for o quadrante em que se situam.

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