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Acreditar

por Ana Vidal, em 22.06.11

 

Gosto da "pinta" da nova Presidente da Assembleia da República. Não por ser mulher - não subscrevo o facilitismo das quotas, que sempre me irritou e reduz as mulheres a uma condição de favor - mas por me parecer uma Mulher de fibra. Tempos difíceis requerem escolhas arrojadas. É preciso reagirmos, e eu começo lentamente a sair do meu cepticismo dos últimos anos. Há uma nova esperança no ar, é inquestionável. Uma espécie de alívio colectivo. Sócrates deixou atrás de si um país profundamente devastado, não só nas finanças como, muito pior do que isso, na sua capacidade de acreditar. Toda a classe política - da direita à esquerda - sofreu, por arrasto, uma desconfiança generalizada. São feridas abertas na auto-estima, já de si tradicionalmente frágil, de um povo que tende sempre para o desânimo e para a apatia. Mas, se olharmos a História, veremos que sempre fomos capazes de "virar a mesa" e surpreender. Sempre in extremis, é certo, mas acabamos por fazê-lo. Quero acreditar que o faremos de novo, agora que a própria soberania está em causa. E, para isso, nada melhor do que um governo de gente nova, plural, com poucos vícios de gabinete e com garra para enfrentar os tempos duríssimos que aí vêm. Tenho pena de que não inclua um socialista, mas talvez isso já fosse pedir de mais. Seja como for, há uma subtil nuance na composição deste governo que me anima, para além da juventude óbvia e do consensual reconhecimento de competências: pela primeira vez em muitos anos, os novos ministros não me parecem patinhos a nadar em fila indiana atrás de uma "mãe" protectora. A sensação que me dão é a de tencionarem, depois dos inevitáveis bailados nupciais, ir cada um à sua vida e às suas tarefas, sem euforias e sem esperar por aplausos e prémios. Não haverá período de tréguas. Aceitaram uma missão quase impossível e sabem-no, por isso só podem atirar-se-lhe de cabeça, com a fé dos resistentes. Desta vez precisamos mais de bons e firmes executantes do que de uma liderança forte. Essa já existe, quer queiramos ou não, e chama-se troika.

 

Gosto muito de uma frase de Jean Cocteau que sempre orientou a minha vida: "Não sabendo que era impossível, foi lá e fez". É o lema que desejo a este diminuto grupo de bravos que terá pela frente os doze (ou mais) trabalhos de Hércules, num caminho que será muitas vezes solitário e sem margem para desvios. E desejo-lhes sorte, que é o mesmo que desejá-la para mim.

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24 comentários

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De Pedro Silveira Botelho a 22.06.2011 às 13:04

Ana, tem 'pinta' na sua naturalidade e na genuinidade da alegria indisfarçada da honra de que foi alvo, sem pompa nem circunstância. Parecia uma miúda pequena a quem deram o melhor presente da vida. Acredito piamente na boa aura que vai trazer ao cargo, para além da competência por todos reconhecida e exaltada.
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De Ana Vidal a 22.06.2011 às 16:41

Talvez tenha sido isso mesmo que me agradou, Pedro. A genuinidade sem disfarces é um óptimo sinal.
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De Teresa Ribeiro a 22.06.2011 às 13:16

Bela reflexão, Ana. Não estarei em total sintonia com tudo o que dizes, mas numa frase revejo-me em pleno: "Desejo-lhes sorte, que é o mesmo que desejá-la a mim".
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De Sérgio de Almeida Correia a 22.06.2011 às 15:35

A nós, amigas, a todos nós.
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De Ana Vidal a 22.06.2011 às 16:33

A todos nós, sim, Sérgio. A missão é mesmo hercúlea.
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De Ana Vidal a 22.06.2011 às 16:39

Teresa, sobretudo "quero" acreditar, até porque tem de haver uma boa dose de generosidade em quem aceita a ribalta em circunstâncias destas... todos eles vão ser bombardeados pela insatisfação social, que será muita. E todos eles estariam melhor, sendo competentes, na confortável e bem paga segurança das empresas privadas. Numa democracia tem de haver partidos, tem de haver políticos fiáveis. Espero que estes não me decepcionem para lá da dureza das medidas que têm de tomar, porque dessas não nos livramos.
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De Teresa Ribeiro a 23.06.2011 às 22:11

Isto que descreves chama-se esperança. Senti-la neste momento faz bem à nossa saúde mental e de alguma forma também revela civismo. Não partilho é o entusiamo que me pareceu detectar nas tuas palavras. Há sinais que me preocupam. Falei de alguns num post aqui em baixo. E medidas anunciadas que não apoio... Mas esperança tenho. Sobretudo esperança de estar enganada em relação às reservas que por enquanto sinto.
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De Ana Vidal a 23.06.2011 às 23:34

Teresa, a minha esperança não é inconsciente e o meu entusiasmo não é partidário. Aposto que partilho de algumas das tuas preocupações e reservas, mas elas não têm que ver directamente com este novo governo. São conjunturais e não dependem (infelizmente) de decisões nacionais, seja quem for que esteja no poder. Por isso só posso alegrar-me com o que é possível escolhermos: um grupo de gente aparentemente menos viciada em poder, menos dependente das máquinas partidárias para ter sucesso, e mais disposta a arriscar porque as circunstâncias são extremas. Quando se bateu no fundo só se pode subir... é isto que me anima, basicamente, e o desânimo também não nos leva a lado nenhum, não é?
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De Teresa Ribeiro a 24.06.2011 às 00:16

Sim, agrada-me que este grupo de gente seja "aparentemente menos viciada em poder" e sobretudo que alguns destes ministros não dependam da política para viver. Têm as suas carreiras, as suas profissões, vêm até ganhar menos para exercer as suas funções no governo, o que é um excelente indicador de espírito de serviço, que é o que faz falta à governação, sobretudo agora.
A ver vamos, Ana. O desânimo pode esperar sentado :)
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De Gi a 22.06.2011 às 18:23

Engraçado, Ana, o que tenho sentido é muito parecido, e tenho andado à procura das palavras para o dizer, sem ainda as ter encontrado: obrigada pelas suas, que exprimem idêntica esperança.
Adorei essa frase do Cocteau, vou adoptá-la, se não se importa.
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De Ana Vidal a 22.06.2011 às 19:16

Nem eu nem ele nos importamos, Gi. É um excelente lema de vida, e acredite que resulta mesmo. Quanto à esperança, sem ela nada é possível a não ser a desistência. E eu não sou de desistir...
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De Pedro Correia a 22.06.2011 às 18:41

Plenamente de acordo com o que escreves, Ana. E com esse admirável mote do Cocteau.
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De Ana Vidal a 22.06.2011 às 19:17

O Cocteau tem frases geniais. Esta é a minha preferida.
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De Isabel T. a 22.06.2011 às 20:49

Muito bom o seu texto,conseguiu por no "papel" o que me vai no pensamento .
Estes bravos fazem-me lembrar do filme ARMAGEDDON,só que aqui,"só" tem de salvar o país.
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De Ana Vidal a 24.06.2011 às 00:37

A grande diferença, Isabel, é que estes não pertencem à ficção... não há um guião que garanta um happy ending, têm de lutar por ele com todas as forças.
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De arielh a 22.06.2011 às 21:16

Ana, faz-me sempre um bocado de confusão ver mulheres inteligentes e independentes atirarem-se ao suposto "facilitismo das quotas". Desculpe a franqueza, mas não se trata nada disso. O que se trata é de admitirmos sem favor que uma mulher pode ser tão incompetente como os homens, porque competentes já sabemos que são. A questão é que além de não lhes perdoarmos a incompetência, quando a há, ainda exigimos que sejam mais competentes do que exigiríamos aos homens para ocupar o mesmo lugar. Não vale a pena fingir que não é assim porque é, e não estou a dirigir-me à Ana neste ponto, naturalmente. Mas a verdade é que o discurso politicamente correcto contra o suposto "facilitismo" das quotas pegou nas mentes mais insuspeitas e isso parece-me de uma grande injustiça.
Quanto ao resto, não subscrevo tudo o que diz, mas subscrevo grande parte, e principalmente no que à eleição da Assunção Esteves diz respeito, que considero um balsamo.

Beijinho.
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De Ana Vidal a 23.06.2011 às 17:20

Olá, Ariel, bom vê-la por aqui outra vez!
Percebo o seu raciocínio, e parece-me até que já discutimos esse tema uma vez. Mas apesar de perceber as suas razões, não há argumento que me faça aceitar um critério de escolha para as mulheres que não seja o da competência. Sou exigente, ingénua, intransigente, o que quiser... mas nisso não cedo, tudo o mais me parece um favor e não acho que as mulheres o mereçam. Bem sei que temos de provar em dobro, que temos de enfrentar um mundo ainda machista, que temos de ser quase sempre super-mulheres para chegar a tudo e fazer tudo bem. Tudo isso é injusto, mas nada é mais injusto do que ocuparmos lugares por sermos... mulheres.

Beijinho.
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De singularis alentejanus a 22.06.2011 às 23:41

A essa grande frase desse Grande das artes do cinema, adiciono uma que me segue quatidionamente: o exemplo vem sempre de ti.
Neste crítico momento do nosso País, creio que se conjugam. Acabo de ouvir que o nosso PM vai para uma importante reunião, em Bruxelas suponho, em classe económica. Poderemos começar a esfregar as mãos? Isto promete?
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De Ana Vidal a 23.06.2011 às 17:24

Já estou mesmo a ouvir alguns chamarem-lhe populista por causa disso... mas a verdade é que sem se dar o exemplo não se pode exigir sacrifícios aos outros. Disso tivemos muito até agora, Singularis, não é? Quero acreditar que estamos no bom caminho com atitudes destas. Não será caso para esfregar as mãos, até porque isso deveria ser o normal, mas não estamos habituados a elas.
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De J.M. Coutinho Ribeiro a 23.06.2011 às 05:15

Subscrevo tudo quanto dizes, Ana. Ainda esta noite, numa tertúlia de gente que pensa, disse, ainda que menos bem, o mesmo. Vai ser a crise a debelar a crise. Haja bom senso e vontade de contribuir. E estamos todos - a começar por quem dirige - de tal forma assustados, que vamos conseguir mais depressa do que era suposto.
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De Ana Vidal a 23.06.2011 às 17:28

Olá, Joaquim! Pois é, e temos a Grécia como espelho do que "não queremos" que nos aconteça... todos os dias nos entra pelos olhos dentro o perigo que significa deixarmo-nos resvalar mais um milímetro que seja nessa direcção. Como dizes, o medo é sempre um bom alerta.
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De IsabelPS a 23.06.2011 às 20:48

Eu por acaso nunca a tinha visto nem ouvido e não sabia nada dela a não ser que a sua nomeação para o Constitucional tinha sido muito polémica (tenho uma vaga ideia de a ver apelidade de "girl"). Dei-me ao trabalho de ir ver ao meu amigo google porque é que a Maria de Belém tinha louvado a independência dela (se bem me lembro, referindo inclusivamente o preço pago), o que me levou à posição no referendo sobre o aborto e à saga que o precedeu.

Devo dizer que ainda antes de ter encontrado qualquer indício de que a imagem não correspondia exactamente ao currículo, pensei de mim para comigo: "Vai ser uma presidência da Assembleia engraçada. Esse riso nos olhos e esse franzir de nariz... Se for caso disso, dá para fazer em postas um adversário incauto sem ele ter tempo de perceber o que lhe cai em cima." Well done, sister! ;-)
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De Ana Vidal a 23.06.2011 às 23:38

Também me parece, Isabel. ;-)

Pedro, o que quer dizer esse "hum"?

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