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Renovar a análise política

por Pedro Correia, em 20.06.11

 

A propósito das recentes legislativas, não faltou quem desenterrasse uma frase proferida por Francisco Sá Carneiro em 1979, num contexto muito diferente do actual: "Um governo, uma maioria, um presidente." A frase deve situar-se à época: Portugal tivera 11 governos em escassos cinco anos, não produzira nenhuma maioria parlamentar estável desde a entrada em vigor da Constituição de 1976 e necessitava com urgência de reformas políticas profundas - com destaque para o fim do Conselho da Revolução como tutela militar das instituições civis, algo aberrante na Europa Ocidental.

Sá Carneiro e os seus sucessores políticos imediatos cumpriram estas metas: dotaram o País pós-revolucionário da primeira maioria parlamentar sólida e alcançaram um acordo político com o PS que possibilitou a revisão constitucional de 1982, pondo fim ao Conselho da Revolução após sete anos de existência e reduzindo os poderes discricionários do Presidente da República em benefício do Parlamento, em sintonia com a esmagadora maioria dos países da Europa comunitária.

O fundador do PSD não sonhava com um país político monocolor: pretendia, isso sim, que as sérias divergências institucionais que manteve com o presidente Ramalho Eanes (divergências que partilhou com outros primeiros-ministros, como Mário Soares e Pinto Balsemão) fossem dirimidas com o reforço da componente parlamentar no singular sistema político português. Foi um combate que travou com frontalidade, em prol do que entendia serem os interesses nacionais.

Passos Coelho nunca utilizou esta expressão nem faria qualquer sentido recorrer hoje a ela, fosse qual fosse o inquilino de Belém. Nem Cavaco Silva é apropriável por esta maioria nem o Presidente terá certamente a ilusão de que influenciará a actividade governativa fora dos estritos limites que a Constituição lhe impõe. Por outro lado, a maioria de que Passos dispõe no Parlamento está longe de ser monocolor: PSD e CDS são partidos autónomos, com programas políticos diferenciados e estratégias muito próprias, como hoje ficou bem patente na falhada eleição de Fernando Nobre para a presidência da Assembleia da República.

Basta o que referi para esvaziar de sentido esta frase no momento actual. Deixemo-la no contexto histórico a que pertence e tentemos interpretar os factos sem o recurso a fórmulas gastas. Aliás não é só a política que necessita de renovação: a análise política também.

 

Foto: António Ramalho Eanes e Francisco Sá Carneiro em 1980


9 comentários

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De João Carvalho a 21.06.2011 às 00:20

É como dizes, compadre: «não é só a política que necessita de renovação». A análise política, por motivos de sanidade nacional, também precisa do mesmo urgentemente.
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De helena Marques a 21.06.2011 às 01:01

Até eu, João, já mudava de ares...
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De Pedro Correia a 22.06.2011 às 02:16

Confesso que ando farto de ver os mesmos comentadores que há 20 anos ou mesmo 30 anos pontificam em jornais e televisões apelando à 'mudança' na política. Quase tudo muda em Portugal, só eles permanecem. São quase todos, logicamente, apologistas do imobilismo. Políticos independentes, que venham de fora dos aparelhos partidários ou que pertençam às gerações mais jovens, são sempre recebidos da pior maneira por esses comentadores.
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De helena Marques a 21.06.2011 às 01:00

É isso, Pedro, como sempre faz uma análise certeira e mais que apropriada.

E tudo, uma mudança profunda em Portugal precisa-se.
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De Pedro Correia a 22.06.2011 às 02:17

Pois, Helena: Portugal precisa de mudar também neste ponto. Os 'líderes de opinião', em regra, estão mais que gastos.
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De Laura Ramos a 21.06.2011 às 03:42

Grande post, Pedro.
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De Pedro Correia a 22.06.2011 às 02:18

Obrigado, Laura. Já ando farto de ler textos medíocres, construídos à base de clichés e totalmente destituidos de memória.
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De IsabelPS a 21.06.2011 às 10:11

Yesssss.

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