O meu voto.
Podemos convidar a ruína e elevar o cinismo a uma arte menor, mas só um país com uma doença moral profunda reelegerá Sócrates. Isto é importante, porque é a minha única certeza.
Como o meu campo ideológico natural corresponde à direita do PS, e como esse campo foi sequestrado pelo primeiro-ministro — um primeiro-ministro que traiu quase tudo em que acredito — restar-me-ia, em condições normais, votar no Bloco de Esquerda ou no PSD. Não vai acontecer.
Não votarei no Bloco, porque foi um aliado objectivo dos socialistas. Em momento algum o partido de Louçã denunciou o endividamento galopante ou o delírio das obras do regime — pelo contrário, apoiou-o muito para além do bom senso. Ainda hoje, em campanha, o BE dirige tantos ataques à direita como ao partido que durante seis anos nos conduziu à miséria. Eis uma estranha forma de responsabilização.
Não votarei no PSD porque há um excesso de alegria entre os social-democratas. A alegria de quem vendeu a alma por uns patacos e agora rejubila perante a perspectiva, auspiciosa, de criar dois ou três milhões de pobres. Este PSD despreza os mais fracos, os mais velhos e os que não se safaram. Um partido assim não merece o meu voto.
De resto: preferiria vestir calças vermelhas e calçar sapatos com berloques a eleger Paulo Portas. A demagogia deve ser limitada pelo pudor, o pudor deve subordinar-se a princípios e os princípios não são uma merda que um tipo enrole ao pescoço para exibir com aisance entre retratos de peixeiras e coquetéis no Estoril. A direita que tenha juízo.
Sobra o PCP? Não, não sobra. Mas respeito a devoção autêntica dos comunistas à gente humilde, e terão o meu apoio nas autarquias.
Em 2011, o ano em que eu mais queria que o meu voto contasse, vou votar em branco. É assim desde 2005, e já estou muito, muito farto.

