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Delito de Opinião

Sondagens, eleições e opinião pública

Sérgio de Almeida Correia, 01.06.11

 

Pedro Magalhães escreveu. A Fundação Francisco Manuel dos Santos publicou. Eu tive o trabalho de ir comprá-lo à banca dos jornais e depois o prazer de lê-lo.

Ao ler o livrinho do Pedro Magalhães, recordei-me várias vezes de uma frase de Samuel Huntington que, de certa forma, reflectia a dificuldade que era para muitos leigos perceberem o que um académico diz e que eu tantas vezes para mim pensei ao ler alguns: “for reasons that are undoubtedly deeply rooted in human nature, scholars often have the same ideas but prefer to use different words for those ideas”.

Não é que o autor do livro tenha as mesmas ideias de outros académicos, mas apenas porque se a frase de Huntington nos chama a atenção para a falta de clareza de muitos, o Pedro Magalhães teve o condão de tornar claro, sem cair no facilitismo, e breve para a generalidade dos leitores, incluindo para alguns candidatos às próximas eleições, aquilo que sem um estudo aprofundado não é fácil de abarcar.

Ao invés do que alguns possa pensar e ele escreve, “há uma ciência por detrás das sondagens” e, apesar de haver muita fraude e manipulação, “também há um conjunto de procedimentos técnicos e metodológicos cujas consequências para a capacidade de medir a realidade com objectividade e precisão se encontram estudadas”, o que permite tornar esta “coisa” das sondagens um pouco mais terrena. Palavrões como “inquérito amostral”, “erro amostral”, “ponderação pós-amostral” ou “enviesamento”, “estratificação” ou “quotas”, ou até mesmo conceitos como a “curva de Gauss” ou o “Teorema do Limite Central” são tornados mais acessíveis graças aos exemplos práticos e à linguagem clara do autor. E quem quiser aprofundar até pode seguir as sugestões de leitura, já que ele não faz, como qualquer académico que se preze e ao contrário de alguns que conheci na minha faculdade de Direito, “caixinha” do conhecimento.

Não acredito, e nisso lamento desiludi-lo, que o discurso político sobre as sondagens deixe de ser, como ele escreve, “hegemónico no debate público”. Mas o seu livro e a oportuna edição terão seguramente o condão de aumentar junto dos leitores o respeito por aqueles que, como ele, estudam o fenómeno com o rigor possível e, em particular, o que com satisfação registo nos tempos que vivemos e que por aí vai faltando, com reconhecida seriedade.