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Convidado: JOSÉ CARLOS PEREIRA

por Pedro Correia, em 31.05.11

 

As eleições pré-'troika'

 

Decidi corresponder ao honroso convite para escrever um texto para o Delito de Opinião, neste período pré-eleitoral, com uma breve reflexão sobre o momento político que vivemos e as eleições que estão à porta.

Não estou vinculado a partidos políticos e não tenho por hábito frequentar liturgias partidárias. Decidi voltar a envolver-me na actividade política nos dois anteriores mandatos autárquicos na terra que me viu nascer, o Marco de Canaveses do sui generis Avelino Ferreira Torres, e foi nessas circunstâncias que em 2005 sucedi a Francisco Assis na liderança da candidatura socialista à Assembleia Municipal local.

Não sendo militante partidário, tenho-me identificado com as propostas do PS. Votei em José Sócrates anteriormente e tenciono voltar a fazê-lo no próximo Domingo. E assim fica feita a minha declaração de interesse.

Nos últimos seis anos a governação socialista permitiu melhorias e avanços significativos em diversas áreas, nomeadamente na educação, no investimento em I&D, na política energética, na reforma da segurança social, na defesa do consumidor, na eliminação de determinados monopólios injustificados, no apoio à economia e às exportações, na reforma administrativa, na consolidação das contas públicas até 2008, nos cuidados de saúde primários e no apoio aos idosos e carenciados. Naturalmente houve domínios em que as coisas correram menos bem e alguns protagonistas deixaram a desejar, como sempre acontecerá.

Hoje, podemos discutir a forma como o Governo de Sócrates reagiu à crise económica e financeira internacional que eclodiu em 2008 e à crise da dívida soberana que se lhe seguiu. Não estou certo que outro partido e outra liderança tivessem feito melhor. Pedro Santana Lopes era o que se sabia. Manuela Ferreira Leite esteve longe de ser um exemplo nas suas funções governativas.

José Sócrates apostou as fichas todas na aprovação dos Programas de Estabilidade e Crescimento, acreditando que os estados europeus haveriam de chegar a acordo sobre o novo mecanismo europeu de estabilização e apoio financeiro, permitindo o financiamento do país em condições mais vantajosas. Isso acabou por não suceder e, com o chumbo do PEC 4, os partidos da oposição escolheram o caminho das eleições antecipadas. Creio que foi um erro, que nada se ganhou, mas isso competirá aos portugueses julgar com o seu voto.

As sucessivas trapalhadas de Passos Coelho e da sua equipa têm revelado um PSD diletante e impreparado para governar. O insólito da situação é ver o CDS a trazer o equilíbrio, a sensatez e a ponderação ao espaço do centro-direita, ao arrepio do frenesim social-democrata.

Sócrates tem-se deparado com uma barreira (quase) unânime de analistas e comentadores que parece não lhe reconhecerem o direito a ganhar as eleições, quiçá mesmo a concorrer ao acto eleitoral. Algo nunca visto e que é agravado pelas afirmações de líderes partidários que se arrogam no direito de escolher as lideranças dos seus concorrentes. Isto apesar de José Sócrates ter patenteado um exemplo de união – não de unicidade – no recente congresso socialista. As principais figuras do partido têm dado o seu testemunho de apoio nesta campanha eleitoral. Por convicção e não por exclusão de partes, como parece suceder no PSD.

Veremos como decorrem as eleições e o que decidem os portugueses. De uma coisa estou certo: seja qual for o partido vencedor, vai necessitar de envolver num consenso alargado os partidos que subscreveram o memorando de entendimento com a troika. As ameaças e recusas de PSD e CDS, em caso de vitória do PS, têm de ser levadas à conta do entusiasmo da campanha. Aliás, os senhores da troika não lhes permitirão tamanhas veleidades…

 

José Carlos Pereira

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12 comentários

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De Ilda Pontes a 31.05.2011 às 16:02

Obrigada, Senhor José Carlos Pereira, pela sua coragem, pela sua ousadia..., escreveu de uma forma clara e objectiva, agradou-me e fez-me recordar, uma vez mais, que " Quem precisa de exibição são os impotentes " Agustina Bessa-Luís , não é verdade??
Bem Haja!
Ilda Pontes
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De Rogério M a 31.05.2011 às 17:36

Caro José Carlos Pereira
Desculpe que lhe diga, mas é assustador a forma como a miserável e paupérrima "cassete" elaborada por Sócrates e pelo PS, se duplica. À parte a explicação da crise ser completamente deturpada e faltar completamente aos factos - e estou naturalmente a referir-me apenas aos 2 últimos anos, pós-crise internacional - registo a convicção de supor que outros não fariam melhor (nunca se irá saber, não é??). Continuo é à espera de uma justificação melhorzinha para o facto de, tendo a crise afectado todos os países da Europa, porque raio é que apenas 2 chegaram à bancarrota?
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De José Carlos Pereira a 01.06.2011 às 00:11

Caro Rogério M, é verdade que o cenário montado faz parecer uns autênticos extraterrestres os apoiantes de Sócrates. São as minhas convicções, já que nada devo ao PS e a Sócrates.
Quanto à sua derradeira interrogação, talvez valha a pena ter presente que a nossa economia é (de há muito) uma das frágeis do continente europeu e teria certamente de ser uma das que mais sofreria com a crise que eclodiu.
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De José Carlos Pereira a 01.06.2011 às 00:01

Cara Ilda Pontes, é bem verdade que quase é necessário apelar à coragem para apoiar o PS e José Sócrates nestas eleições.
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De Pedro Correia a 31.05.2011 às 20:00

Obrigado pela visita, José Carlos. Um abraço aí para o Marco.
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De José Carlos Pereira a 01.06.2011 às 00:12

Obrigado pelo convite, caro Pedro Correia. Um abraço desde o Porto e o Marco.
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De Alberto Cunha a 31.05.2011 às 21:05

Para comentar, devo igualmente fazer uma "declaração de intenção": não sou de nenhum partido,nem tenho ideologia. Acho que os partidos que temos são maus e que as ideologias que existem são antiquadas, desajustadas aos tempos de hoje e já não diferenciam os partidos. Em boa verdade, já nenhum país no mundo é governado de acordo com qualquer ideologia, ainda que um punhado deles (de cariz ditatorial e autocrático) apregoem executar ideologias que já há muito faliram.
No entanto, no próximo Domingo irei votar, sem desperdiçar o meu voto como branco ou nulo. Ainda não sei em quem votarei, mas sei muito bem em quem não votarei: no Sócrates (isto é, no PS) e no PSD.
De resto, nunca tive ligação partidária nem desempenhei nenhum cargo político (nem tenciono vir a desempenhar).

Isto posto, quero apenas assinalar que as menções que no texto são feitas a dirigentes do PSD são, digamos, conclusivas. Senão vejamos:
- "Pedro Santana Lopes era o que se sabia."
O que é que se sabia? Eu não sei. Tenho ideia que foi um bom presidente da CM da Figueira da Foz e que o Jorge Sampaio não o deixou governar. Não consigo avaliar um governo que durou escassos meses (incluindo os meses de verão, isto é, de férias) e durante o qual foram mais as rasteiras (inclusive do próprio partido!) do que os tropeções. O que fez de bom não sei, mas tb não sei o que fez de mal. O que acho é que não chegou a ter tempo, nem clima, para poder fazer o que quer que fosse, de bom ou de mau. Tenho é uma certeza: não deixou o país na bancarrota.
- "Manuela Ferreira Leite esteve longe de ser um exemplo nas suas funções governativas." Pq? Por acaso foi uma má Ministra das Finanças? Não sei, mas se o termo de comparação for o Teixeira dos Santos, então já sei: foi excelente, comparativamente falando. Fora das funções governativas foi a única pessoa que se preocupou com o déficit e que antecipou o resultado da governação do Sócrates. Se isso não basta para lhe reconhecer mérito político, ao menos reconheça-se-lhe mérito como "vidente" (eu preferia ter sido governado por essa "vidente" do que pelo Sócrates... e acho que todos agradeceríamos os respectivos resultados, comparativamente falando).

No mais, achei piada à questão das contas públicas até 2008, sendo certo que já passaram 3 anos... e que 3 anos! 3 anos que nos levaram à quase bancarrota. Coisa de somenos importância, pelos vistos.

Tb achei piada à questão do PEC4. É que, tendo sido da autoria do Sócrates os PEC's 1, 2 e 3, a omissão dos mesmos é sintomática: foram uma... enfim. Em todo o caso, a invocação do PEC4 exigiria um pouco mais do que a mera omissão dos PEC's anteriores. Exigiria que demonstrasse que o PEC4 era o "tal". Isto é, que seria tudo aquilo que foi prometido que seriam os PEC's anteriores, mas que efectivamente não foram! É muito fácil induzir o leitor a concluir que o PEC4 seria a salvação da pátria (neste caso, infelizmente, em sentido próprio), uma vez que, não tendo sido aprovado, não ficou comprovada a sua inutilidade. Todavia, essa falta de demonstração não autoriza nem consente que se conclua o contrário, isto é, que seria bom (ou, pelo menos razoável). Principalmente qd a esse PEC teve a mesma origem (autoria) dos anteriores, cujos resultados estão à vista.

Há uma coisa que tenho a certeza: a dívida pública quase duplicou com o Sócrates, até ao ponto de se tornar insustentável e quase ter conduzido o país à bancarrota. Este (a par das constantes mentiras deste governo) são a pedra de toque da governação do Sócrates. E, sobre isso, nem uma palavra.
Fechar os olhos a isso é negar a realidade. Mas a realidade não se compadece com a nossa cegueira e segue, inexorável, o seu rumo.
Qd se pretende um governo que reduza drasticamente o déficit externo, como se pode escolher o partido e a pessoa que mais o fez aumentar? É um contra-senso!
Ah, já me esquecia. O Sócrates tem experiência. Experiência a gastar. Mas só um crente ingénuo e muito tolo (ou com outros interesses ocultos) pode pensar que essa experiência a gastar será útil para passar a poupar...

Enfim, cometi o meu delito de opinião.
E, por isso, espero que me perdoem.
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De José Carlos Pereira a 01.06.2011 às 00:35

Caro Alberto Cunha, os nossos comportamentos e as atitudes que tomamos em sociedade estão marcadas por ideologias, não no sentido partidário, naturalmente.
Pedro Santana Lopes mostrou ser inconsequente, já que se revelou incapaz de terminar obras e mandatos. Como primeiro-ministro, de um governo de amigos e compadres, abundaram as trapalhadas e ele próprio reconhecerá hoje que não tinha condições para continuar. Os portugueses também julgaram nesse sentido. A Figueira da Foz foi um mero local de passagem e abrigo, onde plantou um oásis na praia e deixou uma enorme dívida ao recentemente falecido Duarte Silva.
Manuela Ferreira Leite, enquanto ministra das Finanças, tapou o défice com recurso a receitas extraordinárias e fez um péssimo mau negócio com a operação de titularização de créditos. Não foi grande cartão de visita. É mais fácil palpitar de fora.
Já me referi à estratégia de Sócrates em prosseguir a aprovação dos PEC e, quanto à dívida pública, não me lembro de ver ninguém criticar as medidas que o Governo implementou depois de 2008 destinadas a apoiar empresas, trabalhadores e particulares em dificuldades, agravando a despesa a cargo do Estado.
Foi bem-vindo o seu "delito de opinião".
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De Hugo a 01.06.2011 às 05:10

Portanto vamos votar em quem nos conduziu à bancarrota numa estratégia suicida.
Parece-me bem.
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De José Carlos Pereira a 01.06.2011 às 12:43

Caro Hugo, não é essa a minha avaliação, como se percebe.
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De Hugo a 01.06.2011 às 05:23

Caro José recomendo esta leitura sobre o mito da responsabilidade da crise internacional na bancarrota portuguesa.

http://desmitos.blogspot.com/2011/05/o-legado-do-governo-e-o-pre-crise.html.

Cumprimentos
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De José Carlos Pereira a 01.06.2011 às 12:46

Arranjar-lhe-ia facilmente outras leituras de académicos com diferentes entendimentos sobre esse "mito" e sobre o crescimento da dívida pública. Leia, por exemplo, o que tem escrito o Prof. Manuel Caldeira Cabral, da Universidade do Minho.

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