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Duas perguntas desagradáveis

por José António Abreu, em 29.05.11

Assaltam-me duas perguntas quando vejo as notícias acerca das iniciativas do Banco Alimentar contra a Fome. Não gosto do que elas revelam sobre mim e sobre a minha relação com este país mas recuso fugir-lhes. São muito simples:

1. Quantas destas pessoas que vejo na televisão a entregar, imbuídas de genuína e louvável boa vontade, pacotes de bolachas e de cereais aos voluntários do Banco Alimentar fogem aos impostos sempre que podem? Por exemplo: quantas aceitam não pagar IVA ao contratar serviços ou não o cobrar, ao prestá-los? Sendo certo que uma coisa não substitui a outra, quantas percebem o conceito de caridade mas não o de responsabilidade?

2. Com o Estado que temos, especialista em malbaratar recursos, será essa a atitude mais sensata?

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3 comentários

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De IsabelPS a 30.05.2011 às 12:54

Acho que esta questão ficaria mais clara (e, para mim, mais interessante) sem o exemplo concreto (do banco Alimentar neste caso).

Eu resumiria a questão assim:

Quantas pessoas percebem o conceito de responsabilidade social mas não o o de responsabilidade cívica e, com um Estado ineficiente, não o será a atitude mais racional ignorá-lo e suprir as suas faltas?

É uma pergunta engraçada para fazer em Portugal (cujo coração bate à esquerda como diria o Financial Times ), mas eu diria que a resposta por defeito (ou, como insiste um dos meus irmãos, "por definição") nos Estados Unidos da América, por exemplo, seria "obviamente que é essa a atitude racional". Penso que seria essa a resposta da maioria dos americanos (todos os conservadores e libertários, e ainda uma parte substancial de democratas). Nunca me esquecerei da pergunta intrigada do meu marido americano ao ver o lixo acumulado nas margens dum rio francês (obviamente muito amado e fruído pela população) "Porque é que AS PESSOAS não o limpam???" Devo dizer que gostava de ouvir uma pergunta semelhante em português.

Quanto à questão da economia paralela, cinzenta, ou o que quer que se chame, enquanto nós falamos simplesmente de "fuga aos impostos", os anglo-saxões (supostamente criaturas muito mais sérias nestas coisas) usam duas expressões, tax evasion " (ilegal e, cá para a minha ideia, aplicável ao comum dos mortais que paga ao canalizador em dinheiro e sem IVA) e tax avoidance " (legal e, naturalmente, aplicável a quem pode pagar a um contabilista, se não a um exército deles). Li algures que certos países têm legislação muito elaborada sobre a questão (e apresentam números muito baixos de economia paralela), enquanto outros países não se dão a esse trabalho e "contabilizam" um certo número de perdas (e apresentam números elevados de economia paralela). Claro que o principal problema desta última solução é a injustiça entre os cumpridores e os incumpridores. Por outro lado, o primeiro sistema não o deve ser muito melhor porque o meu marido contou-me que uma vez entrou numa sala enorme onde estava guardado o Código Fiscal lá do sítio que ocupava estantes e estantes de apêndices a isentar este e mais aquele e mais aquele.

Não sei muito bem se isto tem alguma coisa a ver com o post inicial, mas acho que sim. De certo modo.
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De helena maria marques a 31.05.2011 às 04:09

Isabel, a pergunta devia ser: Porque o sujam as pessoas?
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De IsabelPS a 31.05.2011 às 08:58

Também se pode fazer essa pergunta, e talvez uma resposta possível seja : porque "alguém" há-de limpar. Na verdade, a mesma resposta poderia talvez ser dada à pergunta do meu marido.

Ou seja, eu penso que a vasta maioria das pessoas que faz porcaria no espaço público não o faz no seu espaço privado. Presumo que a diferença está em que essas pessoas não sentem a mesma obrigação em relação ao espaço público que ao espaço privado (não penso que seja uma questão de relação afectiva, uma vez que, neste caso concreto as margens da Somme são um espaço de lazer obviamente muito apreciado e usado por muitíssima gente).

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