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Convidado: LUÍS DE AGUIAR FERNANDES

por Pedro Correia, em 30.05.11

 

O homem que queria dormir

 

Era uma pessoa normal, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra, com dois olhos, uma boca e tudo no sítio. Tinha o seu emprego, normalíssimo arquitecto numa empresa igual às outras, a sua casinha arrendada e os seus amigos. Só tinha uma particularidade: não dormia. Não era porque não soubesse, ele sabia muito bem dormir. Nem era porque não gostasse, ele adorava dormir. Simplesmente não conseguia.

Descobriu estes problemas de sono no liceu. Quando todos os colegas se deitavam antes da meia-noite para ter aulas de manhã cedo, ele ficava sempre a ler ou escrever até às quatro ou cinco da matina. Isto desde que os pais descobriram e lhe tiraram a televisão e o computador à noite, culpando os aparelhos pela falta de sono constante do rapaz. Não ajudou. Nessa altura dormia uma média de três, quatro horas por dia, fins-de-semana incluídos.

Ele via esta particularidade como uma praga. Ficar acordado quando toda a gente dorme é aborrecido, não há nada para fazer nem ninguém para conversar, e isso tornava-o solitário. Também o tornava resmungão e maldisposto. O que acontecia era que ele tinha imensas dificuldades a adormecer e, quando finalmente estava a dormir bem, eram horas de acordar. Daí que ele visse com inveja todos os que dormiam horas e horas por noite.

Ao chegar à universidade, e sem o pai para o acordar à força, decidiu tratar desta questão. Tentou aprender a adormecer. Parece incrível que o que uma criança faz com tanta facilidade, ele não fosse capaz de o fazer. Deitava-se e ficava a pensar sobre o que tinha feito, o que ia fazer, o que tinha lido, o que tinha ouvido, o que tinha pensado. A chave, parecia-lhe, era libertar a mente desses pensamentos. Procurou na internet e tentou fazer meditação. Começou com truques para se concentrar no vazio, mas não conseguia libertar-se de pensamentos durante mais do que um minuto. O que não era manifestamente suficiente.

Começou a trabalhar e o cansaço a aumentar. Chegou ao ponto de não dormir um único minuto durante a semana, por não conseguir tirar assuntos de trabalho da cabeça. Mas vingava-se nos dias de descanso. Deitava-se sábado de manhã e acordava domingo à noite, e essas longas horas de sono sabiam-lhe à vida. Os amigos é que não achavam piada, mas eram danos colaterais.

Sem nunca deixar de tentar inverter o seu problema, passou aos truques da ervanária, aconselhado por uma tia preocupada. Eram uma espécie de comprimidos à base de ervas que enganavam provavelmente quem não tivesse nenhum problema, mas que não tinham qualquer efeito nele. Nem um efeitozinho placebo, nada.

Estes hábitos também não eram muito agradáveis para arranjar namoradas. Isto porque quando tinha mais tempo para estar com elas, ao sábado e domingo, tinha imperiosamente de dormir para começar mais uma semana do mesmo. Até quarta tinha energia, a partir daí contava as horas no relógio para chegar sábado, porque a sexta à noite era dos amigos. E elas não eram as pessoas mais compreensivas do mundo. Ou lhe chamavam estranho, ou abusavam de uma retórica infalível que acabava sempre com a mesma pergunta: “Preferes dormir a estar comigo?”, sem nunca quererem ouvir ou compreender a resposta completa.

Tentou terapia do sono, mas levava meses e meses que ele não tinha. Já vivia naquele limbo tempo demais, só queria um tratamento rápido e eficaz para aquilo que, se antes pensava ser uma singularidade, agora via como uma doença. E como doente que era, foi ao médico que acedeu a tentar tratá-lo. Passou assim aos comprimidos a sério, como se de um velho de setenta anos se tratasse. A adormecer não o ajudavam, mas quando estava a dormir, tornava-se ainda mais difícil acordá-lo. Não os podia tomar durante a semana senão não acordava para o emprego, mas passou a dormir de sexta à noite até segunda de manhã. Adeus fim-de-semana.

*

Sexta à noite chegou a casa triste e revoltado. Tinha sido deixado por uma colega de trabalho com quem tinha começado a namorar há umas semanas. O motivo era o do costume, a falta de tempo para ela. Como se isso fosse mais importante que as necessidades fisiológicas de uma pessoa. Deitou-se e tomou um comprimido. A obstrução de pensamentos foi nula, não deixava de pensar nela. Revoltado e farto dos pensamentos, tomou outro. Nunca o tinha feito, mas não queria rever na sua cabeça o momento em que ela tinha partido o seu coração. E continuou, como uma cassete em loop. Tomou mais dois ou três ou quatro, para adormecer o mais depressa possível e bloquear a sua mente. E deu resultado. Adormeceu, para não mais acordar.

 

Luís de Aguiar Fernandes


3 comentários

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De George Sand a 30.05.2011 às 16:13

Onde é que eu já vi este filme...

Infelizmente esta realidade já está em marcha em alguns pontos do mundo. No Japão por exemplo, já se tomam comprimidos para não dormir.
Qualquer dia tomam-se comprimidos para não sonhar, para não amar, para não ver, não vislumbrar equer. E o mundo cada vez mais cinzento...
Fantático texto!

De Anónimo a 30.05.2011 às 17:55

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De Pedro Correia a 31.05.2011 às 10:59

Obrigado pela visita, Luís. Não é a primeira vez que recebemos textos de ficção, pequenos contos. O segredo do sucesso desta série, parece-me, é a sua grande diversidade.
Um abraço.

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