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Não entenderam nada

por Pedro Correia, em 25.05.11

 

Em 1979, Francisco Sá Carneiro formou listas eleitorais. Alargando o espaço político do PSD ao centro e à direita, firmando uma coligação com o CDS de Freitas do Amaral e o PPM de Ribeiro Telles. Mas era também necessário alargar a influência eleitoral do seu partido à esquerda. O que fazer? Num daqueles lances tácticos que traçam a diferença entre o político mediano e o dirigente de excepção, atraiu para a nova coligação dois homens oriundos da esquerda, que pouco antes se haviam sentado no Conselho de Ministros como representantes da mais jovem geração de talentos do Partido Socialista: António Barreto, ex-titular da pasta da Agricultura, e José Medeiros Ferreira, ex-responsável dos Negócios Estrangeiros, anunciaram o voto na AD em nome do seu Manifesto Renovador, força política de centro-esquerda então lançada, dando o seu aval - como independentes - à nova coligação.

Os treinadores de bancada, que já nessa altura abundavam no PSD (embora em muito menor número do que agora), não tardaram a criticar Sá Carneiro, um político que - bem à portuguesa - só viu os seus méritos largamente reconhecidos após a morte. Acusaram-no de demagogia, de oportunismo, de abrupta viragem à esquerda, de tentar tudo na desesperada caça ao voto. O costume, entre nós: quando alguém tenta mudar alguma coisa, seja o que for, no quadro político português é logo cravejado de críticas pela corporação do comentário político, eternamente avessa a novos nomes e novas siglas, sempre passíveis de baralhar os quadros mentais instalados.

Sá Carneiro ganhou essa eleição de 1979. E com isso fez história: era a primeira vez que a direita chegava ao poder cumprindo as regras do jogo eleitoral. Barreto e Medeiros Ferreira contribuíram para essa maioria, também eles criticadíssimos pelos comentadores de serviço, que já na altura não entendiam nada. Alguns são os mesmos que continuam a não entender nada agora.


10 comentários

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De Alexandre Carvalho da Silveira a 25.05.2011 às 13:33

Pedro, dos Renovadores que Sá Carneiro em boa hora convidou para a AD, tambem fazia parte Francisco de Sousa Tavares, que foi deputado por Evora. Ele passava cá bastante tempo, e tivemos por isso oportunidade de conhecer e conviver com um homem fascinante, que nos ajudou muito no desmantelamento do "máquina" do PCP no Alentejo. Pena que o filho não lhe siga o exemplo.
Sá Carneiro tinha um projecto para Portugal, e pôs a carne no assador, contra a imprensa, o Expresso fez-lhe uma guerra sem quartel, contra o PS e o PCP, contra Eanes, e contra uma parte do PSD que só acreditou na AD quando se percebeu que podia ganhar.
Passos Coelho , cometeu o erro de não concorrer coligado com o CDS; mas apesar de tudo, diz ao que vai, e sem AD nem Renovadores apresentou um programa que muitos( são sempre os mesmos) chegam a acusar de ser muito pormenorizado. Devido aos compromissos assumidos com o FMI e a UE, é o projecto possivel, ao contrario do PS cujo projecto passa apenas por manter o poder a qualquer preço.
Acredito que no dia 5/6 os portugueses vão votar em grande numero, e saibam separar o trigo das ervas daninhas que nos estão a fazer definhar por muitos anos.
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De Pedro Correia a 26.05.2011 às 00:00

Fez bem em lembrar Francisco de Sousa Tavares, um grande advogado, um grande jornalista. Talvez tenha sido o melhor editorialista de sempre da imprensa portuguesa. Muitas pessoas compravam diariamente 'A Capital', quando ele era director, só para ler os editoriais dele. De facto, foi também um nome importante dos reformadores - um homem que vinha da oposição ao Estado Novo e acabou por dar outro aval 'de esquerda' à Aliança Democrática liderada por Sá Carneiro.
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De Luís Lavoura a 25.05.2011 às 14:58

"Sá Carneiro, um político que [...] só viu os seus méritos largamente reconhecidos após a morte"

É bem verdade. Em vida, quase toda a gente dizia bastante mal dele.

Mas é fácil dizer-se bem de um homem depois da morte. Em rigor, isso pouco ou nenhum significado tem, porque se diz quase sempre bem dos mortos. Por isso, em meu entender, não é significativo que se reconheça tantos méritos a Sá Carneiro após a sua morte.
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De Pedro Correia a 26.05.2011 às 00:02

Mas as pessoas podem ser ignoradas depois da morte. Isso acontece, aliás, na maior parte dos casos, mesmo na política. Não aconteceu assim com Sá Carneiro - a figura dele agigantou-se 'post mortem' mesmo junto dos adversários políticos.
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De MFM1998 a 25.05.2011 às 15:41

Está a querer comparar um político com a estutura e estatura do Dr. Francisco Sá Carneiro com a actual liderança do PSD? Só pode estar a brincar ...
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De Pedro Correia a 25.05.2011 às 15:48

Nenhum líder político português do actual regime foi tão criticado como Sá Carneiro nos escassos quatro anos e meio que mediaram entre a aprovação da Constituição (2 de Abril de 1976) e a sua morte (4 de Dezembro de 1980). Isto não é matéria de opinião, é matéria de facto.
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De MFM1998 a 25.05.2011 às 16:56

Parece-me que está a querer fugir à resposta ao meu comentário.
Quanto a líderes políticos mais criticados, na actual república, não acha que o 1.º lugar deixou de pertencer ao Dr. Sá Carneiro.
Nem o Senhor nem eu somos ingénuos e é evidente que o seu post não é apenas uma questão de factos, que não contesto.
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De Pedro Correia a 25.05.2011 às 20:15

Nunca ninguém foi tão criticado em tão pouco tempo como Sá Carneiro: a tal ponto que encheram centenas de muros de norte a sul do país com 'grafitti' injuriosos contra ele. Muitos anos depois, vários desses 'grafitti' continuavam nesses muros, numa inadmissível injúria permanente, 'post mortem'.
Não me lembro de um contraste tão grande entre o que lhe diziam em vida e os elogios que lhe vieram a ser feitos depois de morto. Hoje alguns desses críticos apontam Sá Carneiro como um dos "raros estadistas da direita portuguesa". É impressionante.
Não atinjo as insinuações e os entrelinhados que deixa no seu comentário. Se quiser ter a maçada, seja um pouco mais explícito.
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De Eduardo Louro a 25.05.2011 às 16:33

Salvaguardadas as devidas distâncias - históricas e de dimensão política - a Passos Coelho restaria sempre a possibilidade de fazer a AD com o CDS de Portas. Não mais do que isso: à esquerda os "renovadores" são hoje praticamente as mesmas pessoas (apenas partiu Francisco Sousa Tavares) mas, parece-me, sem mesma força política. A ideia de ampliar o espectro político é hoje bem mais difícil de concretizar. Nem mesmo uma perspectiva de "frente" para afastar um perigo real facilita essa tarefa!
Estava de facto à mão a solução da coligação eleitoral com o CDS - AD ou mini AD - e foi um erro, nem que não seja pela mera exploração do sistema eleitoral, deixá-la fugir. Esperemos que se contrarie o velho ditado: quem tudo quer tudo perde!
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De Pedro Correia a 25.05.2011 às 20:18

Os tempos são outros, mas Sá Carneiro continua a ser um exemplo como aglutinador e federador político. Além do papel relevante que teve no reencontro da direita sociólogica com a democracia política.

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