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Legislativas (11)

por Pedro Correia, em 20.05.11

 

 

DEBATE JOSÉ SÓCRATES-PEDRO PASSOS COELHO

 

Se este frente-a-frente era "o debate decisivo" das legislativas de 2011, como vinha apregoando a RTP, Pedro Passos Coelho tem motivos para estar satisfeito. Porque foi ele o vencedor deste confronto com José Sócrates. O primeiro-ministro mostrou-se, mais que nunca, esgotado e sem ideias neste embate - o seu primeiro de sempre - com o actual presidente do PSD. Tentou reeditar com Passos a estratégia que montou com eficácia perante Manuela Ferreira Leite no debate televisivo das anteriores legislativas. Objectivo: procurar conduzir a discussão para as propostas sociais-democratas, evitando assim o escrutínio ao seu Governo.

Ferreira Leite, em 2009, caiu na esparrela. Passos - que deve ter visto várias vezes o vídeo desse debate - não se deixou enredar na armadilha do secretário-geral socialista. E disse-lhe algumas das frases mais fortes que Sócrates tem escutado desde sempre. "Este foi um governo incapaz e um governo incompetente", acentuou. Sem se esquecer, desta vez, de aludir aos 700 mil desempregados: "Temos o desemprego mais elevado de sempre em Portugal."

Sócrates ainda ensaiou o habitual número de 'animal feroz'. Mas desta vez sem sucesso. Embrulhou-se, uma vez mais, na questão da taxa social única. Aludiu à crise internacional como tentativa de justificar o estado em que o País se encontra, esquecendo que até a economia grega já está a crescer e Portugal deverá ser o único país do mundo em recessão no próximo ano. E regressou a um tema já morto e enterrado, procurando atirar para cima do PSD a responsabilidade do chumbo do PEC 4. Aqui, Passos interrompeu-o sem meias palavras: "Sabe porque é que o PSD não votou o PEC 4? Porque não servia. E porque o senhor falhou o PEC1 e o 2 e o 3."

A única fase do debate em que o líder socialista conseguiu remeter o social-democrata à defesa foi na questão das posições do PSD sobre a saúde, acusando o partido laranja de pretender acabar com o Serviço Nacional de Saúde "tendencialmente gratuito", como indica a Constituição da República. Mas Passos acabou por reagir com uma contundência de que muitos não o imaginavam capaz antes deste debate: "Porque é que não tem a coragem de discutir a sua responsabilidade à frente do governo de Portugal num país que chegou praticamente à bancarrota?"

O líder socialista, a partir daí, perdeu margem de manobra: talvez se lembrasse daquele tempo, não muito recuado, em que elogiava Passos Coelho como um bom parceiro para "dançar o tango". A certa altura já não conseguia melhores argumentos do que acusar o seu adversário de "dizer mal do País" e de "utilizar expressões como bancarrota" no seu discurso político. "O senhor diz mal de tudo", concluiu.

Era um Sócrates já nitidamente fatigado que se repetia no ecrã - facto que se tornava ainda mais evidente quando era filmado em grande plano. Sem ideias, sem recursos estilísticos, sem o dom da iniciativa, sem capacidade para surpreender. Como, de algum modo, já tivesse interiorizado a derrota eleitoral. A televisão, nesta matéria, pode ser um instrumento cruel. Sócrates, que tantas vezes beneficiou dela, hoje foi sua vítima. O debate terá mesmo sido decisivo. A RTP estava cheia de razão.

 

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FRASES

Passos - «José Sócrates é o primeiro-ministro que mais maldades e malfeitorias fez ao estado social. Foi o primeiro primeiro-ministro que cortou salários na função pública, que mais reduziu as prestações sociais, que elevou os custos do acesso à saúde, diminuindo as comparticipações de medicamentos, que eliminou milhares de abonos de família...»

Sócrates - «As suas propostas rompem com o consenso social na Europa.»

Passos - «Portugal é o único país da Europa que enfrenta uma recessão séria.»

Sócrates - «O senhor é responsável por ter criado uma crise política no nosso país. Essa crise política foi uma completa irresponsabilidade.»

Passos - «O senhor está agarrado ao lugar de primeiro-ministro.»

Sócrates - «O senhor quer combater o desemprego permitindo mais despedimentos.»

Passos - «O engenheiro Sócrates não gosta de ouvir falar dos resultados do seu governo nem dos 700 mil desempregados.»

Sócrates - «Por amor de Deus! O senhor diz sempre mal de tudo, diz mal do País, utiliza expressões como bancarrota...» 

Passos  - «Não é por amor de Deus. São os factos.»

 

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ADENDA

Por curiosidade, recordo o que escrevi sobre o debate José Sócrates-Manuela Ferreira Leite da campanha legislativa de 2009.

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32 comentários

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De José António Salcedo a 20.05.2011 às 22:52

Óptimo. Enough is indeed enough.
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De José António Abreu a 20.05.2011 às 22:53

Excelente. O debate e a análise.
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De Pedro Correia a 22.05.2011 às 00:46

Obrigado, meu caro.
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De Ana Duarte a 20.05.2011 às 23:03

Faço minhas as palavras de Jaa.
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De Pedro Correia a 22.05.2011 às 00:48

A minha vénia agradecida, Ana Duarte.
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De Francisco Castelo Branco a 20.05.2011 às 23:13

a estratégia de PPC de nunca se desviar das suas ideias foi fundamental para a sua credibilidade, por muito que SOcrates o tentasse desviar.

o discurso de Socrates já está a ficar gasto e velho. Ele devia também apresentar propostas e ideias.

Está a sair o tiro pela culatra.

PPC ganhou alguns votos mas tem de fazer uma campanha sem erros
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De Pedro Correia a 22.05.2011 às 00:50

Este foi um momento de viragem da campanha, Francisco. Em 2009 aconteceu precisamente o oposto ao PSD: o debate Ferreira Leite-Sócrates foi desastroso para a então líder social-democrata, que vinha de uma vitória nas europeias e desbaratou por completo o capital político com uma campanha digna de manual (como exemplo do que não deve ser feito). A partir desse debate, de que saiu como claro vencedor, Sócrates foi somando pontos.
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De Gonçalo Correia a 20.05.2011 às 23:26

Muito provavelmente, alguns não concordarão com esta (excelente) análise de Pedro Correia. Desconfio quem sejam... Adiante. A verdade verdadeira é que Passos Coelho "cilindrou" José Sócrates. Quanto às eleições, o povo decidirá.
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De Pedro Correia a 22.05.2011 às 00:51

Durante o dia de hoje os blogues mais desbragadamente pró-governamentais permaneceram num magoado e ensurdecedor silêncio, Gonçalo. É outra maneira de se perceber até que ponto o secretário-geral socialista perdeu o debate.
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De João Severino a 20.05.2011 às 23:28

Excelente análise, Pedro. Passos Coelho ensinou a Sócrates uma coisa: nem todos os cidadãos-políticos são banhas-de-cobra...
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De Pedro Correia a 22.05.2011 às 00:53

Sócrates estava nitidamente desgastado, cansado, sem ideias, sem vigor. Transmitiu uma imagem de esgotamento aos portugueses que acompanharam o debate (cerca de milhão e meio). Como pode alguém assim liderar o País durante quatro anos nesta situação dramática de pré-bancarrota?
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De Francisco Fernandes a 20.05.2011 às 23:38

Está-me a parecer que o vendedor de banha da cobra já esgotou a mercadoria...Ou então o povão já não se deixa enganar pela K7 mil vezes repetida...

Francisco Fernandes
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De Pedro Correia a 22.05.2011 às 00:53

E a mim parece-me que a paciência dos portugueses já se esgotou.
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De Carlos Alberto a 20.05.2011 às 23:40

Vi o 'animal feroz' com o rabo entre as pernas no final do debate e pensei: ACABOU!
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De Pedro Correia a 23.05.2011 às 00:46

Falta votar. E contar os votos.
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De a.marques a 20.05.2011 às 23:55

Entre alguns habituais jornalistas comentadores, no concurso contorcionista de hoje registei a pérola da noite num debate na RTPN . A moderadora pergunta, quem ganhou o debate? Uma colega jOrNaLiStA saiu-se com esta pérola merecedora de troféu de latão: "Para os PS`s foi Sócrates, para os PSD´s foi Passos Coelho. Ai as novas oportunidades!
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De Pedro Correia a 22.05.2011 às 00:54

Essa sumidade chamava-se La... Palice?
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De Carlos Faria a 20.05.2011 às 23:57

digo aqui aquilo que já escrevi noutros sítios: No debate Passos/Sócrates, consegui ver Sócrates perdido no início e no fim e ainda este colocou Passos a explicar as propostas do PSD. É um feito!
Mas sofri enquanto Sócrates ensaiou o ataque com o sistema de saúde...
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De Pedro Correia a 22.05.2011 às 00:58

Repare, Carlos: Sócrates é incapaz de mencionar uma só medida positiva do seu governo posterior a 2008. Isto diz muito da credibilidade que ele confere ao seu legado governativo.

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