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Arregaçar as mangas

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.05.11

Ângelo Correia, o homem que de acordo com as crónicas está para o líder do PSD como uma espécie de "padrinho" que o ajudou a arranjar emprego e o apoiou na sua ascensão partidária, discorre hoje nas páginas do Correio da Manhã (CM) sobre o papel de Sócrates no PS, isto é, qual a sua utilidade no actual momento político e, em especial, no pós 5 de Junho.

 

Quem se habituou ao longo destes anos a ouvir os comentários de Ângelo Correia, naquele seu tom doutoral de quem é o detentor de todas as verdades e virtudes e está sempre pronto a esclarecer os incréus, é capaz de pensar que no seu exercício o senhor engenheiro está a prestar um serviço, mais um, ao País. Mas não está. E é preciso que isso seja dito.

 

Com a sua habitual esperteza e inegável capacidade argumentativa, Ângelo Correia transforma uma escolha partido a partido numa escolha de grupo para afirmar que  "o que verdadeiramente conta não é apenas quem ganha, mas quem permite congregar e organizar uma maioria absoluta", para concluir que José Sócrates não está em posição de congregar essa maioria absoluta e, portanto, ou a obtém sozinho ou então não a consegue e José Sócrates não servirá ao PS para nada, transformando-se num empecilho. O argumento tem tanto de verdadeiro quanto de canhestro, já que para chegar a tal conclusão Ângelo Correia parte do princípio de que mesmo que o PS vencesse as eleições, o nome de Sócrates inviabilizaria a formação de um Governo, levando a que num segundo momento o PR chamasse o líder do PSD, que "caso conseguisse com o CDS obter aquele desiderato quantitativo, teria condições de formar Governo". Gosto particularmente do desiderato quantitativo, já que para o senhor engenheiro a luta política se resume a agarrar numa calculadora e fazer contas, coisa que, como se tem visto, os seus pares do partido têm alguma dificuldade em fazer.

 

Ângelo Correia esquece a lição de Gomes Canotiho e Vital Moreira, ignorando que se é ao PR que compete diligenciar no sentido da constituição de um novo Governo "sem ficar à espera da indicação partidária de candidatos ou de um acordo interpartidário", é também "a ele que compete escolher e indigitar uma personalidade para formar Governo". E isto é claro.

 

Por outro lado, se é certo que o PR tem de ouvir os partidos, não terá, todavia, de consultar os partidos "concretamente sobre a pessoa que tenciona designar", muito embora a indigitação do futuro titular do cargo só tenha lugar "depois de confirmada a viabilidade da solução governamental adoptada pelo PR e depois de o indigitado chefe do Governo [sublinhado meu] ter conseguido formar a sua equipa governamental" - in Constituição da República Portuguesa Anotada, 4ª edição, Vol II, págªs 435 e 436.

 

Ângelo Correia, como é seu timbre, simplificou a questão e colocou a escolha do chefe do Governo antes do texto constitucional e das próprias diligências para a sua escolha e que terão de ser conduzidas pelo PR.

 

O artifício não é inocente e insere-se na estratégia que o triunvirato Passos Coelho/Miguel Relvas/Miguel Macedo tem vindo a afirmar como forma de elevação da "chico-espertice" a verdade de Estado. Por vezes sai-lhes um Catroga na rifa, mas no essencial, como se vê, a máquina evangelizadora está bem oleada.  

 

A Ângelo Correia, como a qualquer cidadão independentemente das suas opções ideológicas, é lícito discorrer nas páginas dos jornais sobre o nosso futuro político e as perspectivas que se abrem, ou não, ao nosso País. Não pode, ou pelo menos não deverá fazê-lo, é em termos tais que sub-repticiamente esteja a condicionar a vontade dos eleitores antes mesmo destes poderem formar a sua opinião. E a um "senador", como ele, fica muito mal que se coloque na posição do chefe de banda reformado que continua a mandar uns bitaites "cacicais" ao maestro e que o manda alterar a partitura quando se apercebe das dificuldades de execução que os seus músicos têm, para dessa forma poder enganar os ouvidos de ferreiro dos papalvos da audiência. 

 

Convirá também sublinhar que ao preocupar-se com José Sócrates e com aquilo que o PS puder vir a decidir em função dos resultados eleitorais, Ângelo Correia tenta proteger o Presidente da República, desvalorizando o seu papel na formação do Governo. Eu sei que  Cavaco Silva, por natureza e falta de estatura política, tende a evitar qualquer papel activo que o comprometa com os problemas futuros; mas há outras formas do articulista levar a água ao seu moinho sem necessidade de andar a enganar os leitores do Correio da Manhã, os quais, aliás, não me passaram procuração.

 

Porém, isso não invalida que eu, que não fui apoiante de José Sócrates no último Congresso, tendo mesmo declinado lá ir dada a minha fraca vocação para ponto, esteja disposto a deixar passar sem uma palavra os ataques que a seita passista desfere contra os próprios eleitores. Não gosto, não gosto mesmo, que me queiram atirar areia para os olhos. E menos ainda de quem o faça com o objectivo, sob a disfarçada aparência da preocupação com o interesse nacional, de condicionar as opções dos eleitores menos esclarecidos e que temem pela sua reforma e pela dos seus netos.

 

Eu sei que uns mentem, mas tentar iludir os incautos, esbugalhando os olhos e fazendo jogo de mãos, não é mais bonito. O País tem de ser capaz de escolher e de escolher de forma livre, informada e não condicionada sem que os candidatos alourados a primeiro-ministro andem a dizer aos eleitores de origem africana, sem qualquer decoro, que são quase negros, só porque numa altura da vida estiveram em África e depois casaram com alguém que lá tem as suas origens, para assim poderem ganhar mais alguns votos. É que se esse for o caminho a seguir até 5 de Junho, então, como alguém dizia, não tarda e teremos aí esse mesmo candidato a vir dizer que tem uma grande afinidade com o Alentejo porque sempre que ia de férias para a Manta Rota parava para almoçar em Canal Caveira. 

 

Já basta termos tido que chegar até aqui por causa da incompetência política, e também má fé, de alguns. Mas era só o que me faltava ver agora os eleitores, a quem todos os gangues devem alguma coisa a começar pelo crédito que lhes foi concedido durante mais de trinta anos de democracia, condicionados pelos "ângelos" ou os "relvas" da praça. Antes que isso comece a acontecer e sobre os eleitores caia o manto diáfano da ignorância, o melhor mesmo é arregaçar as mangas e ir à luta. E não preciso de dizer que o faço pelos meus filhos, que não os tenho. Faço-o por mim, pelo País e por tudo o que este me deu. E é já a partir de hoje.  

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11 comentários

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De Fernanda Valente a 17.05.2011 às 13:20

Excelente análise.
Esperemos para ver o que vai acontecer...
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De Pedro a 17.05.2011 às 18:56

Sim, excelente análise em relação aos últimos quinze dias. Em relação aos últimos anos, breves seis palavras "Eu sei que uns mentem...". Por favor, não podia acrescentar só mais uma? "Eu sei que uns apenas mentem..."
Cumprimentos e continuação da análise crítica, se bem que muito enviesada.
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De Mário Cruz a 17.05.2011 às 13:25

Oh Sérgio, que grande relambório. As coisas são mais simples do que isso. Depois da vergonha porque todos passámos ao pedir ajuda ao FMI a única coisa que nos interessa é: 1º Castigar o Sócrates pelo desgoverno em que nos meteu, mandando-o para casa; 2º Cumprir competentemente o acordo com a troyka, o que só se pode fazer SEM o Sócrates.
Tudo o resto é poesia, ceeeerto?
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De João Mateus a 17.05.2011 às 13:32

É preciso dizer que se "uns mentem" , outros não lhe ficam atrás e que não fazem apenas "jogo de mãos".
E é preciso mesmo "arregaçar as mangas e ir à luta" por nós, pelos nossos filhos e pelos nossos netos (independentemente de os termos ou não).

Por isso, uma coisa eu já sei:
No dia 5 de Junho não votarei PSD!

Depois, conforme os resultados, o Presidente e os partidos que assumam as suas responsabilidades.
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De André Fernandes Nobre a 17.05.2011 às 13:41

Bom texto.

Pena que o barulho que nos rodeia seja tanto que a política feita pela palavra passe cada vez mais despercebida entre as gotas da chuva populista e maníqueista que sobre nós se abate.

A falta de capacidade democrática têm feito do Portugal pós 25 de Abril um país demasiado parecido com o Portugal da Primeira República.

Cabe-nos a nós garantir que os erros do passado não se repitam no presente.
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De cr a 17.05.2011 às 17:56

..."E não preciso de dizer que o faço pelos meus filhos, que não os tenho. Faço-o por mim, pelo País e por tudo o que este me deu. E é já a partir de hoje. "


Apreciei o seu texto, assim como o remate final. Dei comigo a pensar que se esse arregaçar de mangas fosse generalizado, poderíamos tornar-mos num grande País.
Infelizmente só vejo destilar veneno á nossa volta e concluo que a politica virou actividade desportiva na sua pior versão.
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De Ana A. a 17.05.2011 às 18:00

"O País tem de ser capaz de escolher e de escolher de forma livre, informada e não condicionada..."

Isto é a UTOPIA...

Comecemos esta luta pois pelo direito à Informação Livre!

Não a conheço...
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De M. Guia P.Mendes a 17.05.2011 às 20:17

A sua análise deveria ser publicada no Correio da Manhã para desmontar/desmascarar a estratégia de Angelo Correia! Ele é um "senador" muito ao jeito português, do senhor bem disposto, afável, mas com uma desonestidade intelectual sem limites para servir os seus interesses! Mais perigoso mesmo do que o professor Marcelo das televisões, cujo jogo é mais perceptível.
Claro que nem tudo é perfeito no PS, mas o essencial tem de ser defendido: votarei PS a 5 de Junho!
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De aires bustorff a 17.05.2011 às 23:18

Excelente artigo

que dá força e moral a todos nós

que pensamos Portugal como algo que nos pertence e ao qual devemos trabalho, inteligencia, convicção

para sairmos do circulo vicioso da crise, dos nossos erros,

da miopia alguma de alguns nossos objectivos

abraço e obrigado!!!
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De Alberto Cunha a 18.05.2011 às 17:00

Confesso que não consegui perceber este comentário, nem sequer o argumento Constitucional invocado.
Independentemente da minha opinião pessoal sobre a formação de maiorias governativas e do seu interesse ou préstimo, é um facto que o PR (assim como vários ex PR's) fez um apelo ao país no sentido de ser obtida uma maioria governativa expressiva (um bloco central), sendo esse, ao que me parece, um sentimento comum entre os eleitores.
O artigo de opinião comentado constitui isso mesmo: uma opinião. E uma opinião baseada em análise política, antecipando cenários (o cenário da vitória eleitoral do PS sem maioria absoluta). Nesse sentido, não vejo que a opinião manifestada pelo AC seja diversa das opiniões manifestadas pelos analistas políticos, politólogos e comentadores.
É um facto que, desde que perdeu a maioria absoluta, o Sócrates e o PS têm declarado estarem abertos a consensos com outros partidos com vista a viabilizar uma solução governativa estável. Mas é igualmente um facto que, na sua praxis, o PS do Eng. Sócrates tem-se mostrado avesso a esses consensos, demonstrando serem impraticáveis.
De tal modo, é uma realidade que se o PS ganhar as eleições sem maioria absoluta e se o Eng. Sócrates se mantiver à frente do PS, não será viável uma solução governativa maioritária que inclua o PS (de Sócrates). É desta premissa que parte o AC e é com base nela que faz a sua análise e antecipa cenários. O que tem isso de tão extraordinário e de tão condenável?
Admito que essa análise (concorde-se ou não com ela) pode condicionar o voto dos eleitores (não o meu, que fique claro). Todavia, esse condicionalismo não advém do referido artigo de opinião, mas sim da realidade da nossa conjuntura política. Por isso, é que injusto imputar ao autor do artigo de opinião o resultado de que este é mero arauto e não o seu causador.
Compreendo que para quem seja PS e não seja "socrático" sinta uma certa impotência relativamente à possibilidade de verificação do resultado anunciado, ao ver que a possibilidade de governação pelo seu partido se pode tornar uma miragem por causa da pessoa do respectivo líder. Mas essa frustração não deve justificar que se critique aquele que anuncia esse cenário; outrossim, deveria era incentivar a crítica ao protagonista causador dessa situação.
Por fim, é de lembrar que sendo o AC um apoiante do PSD, é compreensível que use a sua influência (designadamente escrevendo artigos de opinião) para levar a água ao seu moinho.
No que concerne ao argumento Constitucional, não vislumbro que seja susceptível de modificar a realidade dos factos. No cenário em causa, tendo em conta a já anunciada preferência do PR por uma solução governativa maioritária (com apoio de uma maioria parlamentar), deverá perguntar aos partidos com assento parlamentar se dispõem de alguma solução governativa nessas condições. Sendo evidente que o PS de Sócrates não poderá responder que sim (a não ser que mudem entretanto as intenções manifestadas pelos restantes partidos).

P.S.: Tendo em conta que recentemente o PPC afirmou que não governaria (nem em coligação com o CDS) se não for o partido mais votado, a verdadeira questão a merecer análise seria a de saber qual seria, nesse caso, a solução governativa: o PS (de Sócrates) não teria com quem coligar-se; o PSD recusar-se-ia a governar; o CDS aceitaria governar mas não teria com quem; os restantes partidos (CDU e BE) não teriam maioria.
Neste cenário, acho que o mais provável seria consumar-se o ditado popular de que não podem estar 2 galos no mesmo poleiro (o Sócrates e o PPC). De modo que um deles se teria de demitir. Ora, sem o PPC ou sem Sócrates, já existiriam várias alternativas para a constituição de um governo maioritário.
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De Sérgio de Almeida Correia a 20.05.2011 às 11:21

Há sempre a hipótese de constituição de um governo de iniciativa presidencial que respeite os resultados eleitorais. Duvido é que o PR tenha coragem para isso.
As coisas nem sempre são complicadas. Nós é que temos tendência a complicá-las.

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