Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Convidado: FRANCISCO ALMEIDA LEITE

por Pedro Correia, em 17.05.11

 

O velho lobo

 

A aparição de Fernando Nogueira na campanha do PSD foi mais do que um simples fait-divers. Muitos rapazolas que de repente comentam em tudo o que é media, destilam ódios e amores nos blogues e dão conselhos a gente de peso não se lembram sequer da personagem. O que fez, o que representou e o porquê deste regresso, meio atabalhoado na forma e com um alvo chamado Paulo Portas. É uma questão de geração, mas não só. Falta a memória, o interesse e o conhecimento.

Nogueira esteve fora deste mundo e do outro durante 15 anos, é certo, mas não se lhe pode chamar, por exemplo, "cavaquista". Tendo estado muito envolvido na subida de Cavaco Silva ao poder em 1985, no célebre congresso da Figueira da Foz que deu a vitória sobre João Salgueiro, Nogueira cedo se solidificou nos vários governos laranja como o verdadeiro braço-direito do primeiro-ministro e presidente do PSD de então.

Como ministro, dividiu o poder com Manuel Dias Loureiro no Governo e no partido, tendo remetido este para um papel mais próximo do aparelho, ficando com a aura do delfim. E não se lhe pode chamar "cavaquista" pelo simples facto de estar de relações cortadas com o actual Presidente da República desde a célebre época do tabu da ida ou não às presidenciais de 1996. Nogueira sentiu-se atraiçoado e deixou a política na sequência da derrota nas legislativas de 1995, ganhas por António Guterres. E nunca mais voltou, até ontem. Nunca ninguém lhe arrancou uma entrevista, uma declaração de apoio a este ou àquele candidato nestes anos todos. Remeteu-se à sua vida profissional no BCP e andou por Paris e Luanda. Volta agora, para apoiar Pedro Passos Coelho, que, recorde-se, não o apoiou na congresso do Coliseu dos Recreios (ao contrário de Miguel Relvas, que, antes de ser "passista" e "barrosista", foi um eminente "nogueirista").

 

 

Voltou como voltou, numa acção de pré-campanha em Sintra, com uma ida à Periquita para comer uns travesseiros. À saída, perante dezenas de jovens que não faziam uma pequena ideia de quem se tratava, Nogueira apontou baterias a... Paulo Portas. E não foi ao acaso, mas algo que talvez só Freud possa explicar. O antigo ministro adjunto do primeiro-ministro, dos Assuntos Parlamentares, da Presidência, da Justiça e da Defesa não é já um político destes tempos. Das várias televisões, jornais e rádios, dos blogues e dos tablets. Podendo ter optado por dizer qualquer coisa que justificasse o seu regresso breve para apoiar Passos, o antigo líder do PSD preferiu desferir um golpe contraproducente em Paulo Portas, deixando José Sócrates como um alvo secundário na sua mira: "Fiquei algo mal impressionado com o doutor Paulo Portas, que me parece que está a ficar com uns tiques socráticos, uma vez que ele próprio se arvora a posição de candidato a primeiro-ministro. Isto é o reino do faz de conta, ninguém acredita que Paulo Portas possa ser primeiro-ministro, porque é impossível, tinha de haver um cataclismo eleitoral".

A comunicação social, e bem, agarrou esta frase e outras do mesmo género, apesar de me parecer que não era esta a intenção do convite para aparecer na pré-campanha. Ao falar como falou de Portas, Nogueira deu-lhe palco e avalizou a sua candidatura de terceira via a primeiro-ministro, que, como muitos sabem, não passa de uma estratégia de marketing eleitoral muito bem montada. Nogueira deu-lhe a peça que faltava no seu puzzle: credibilizou essa hipótese, falando dela, diabolizando-a, mas no fundo deixando bem à vista um certo recalcamento por tudo o que Portas lhe fez enquanto director d' O Independente nos idos dos anos 80 e 90. É que muitos cavaquistas, que ainda o são hoje em dia, aprenderam a lidar com Portas. Perdoaram-no, estiveram com ele na Alternativa Democrática de Marcelo, nos governos de Durão Barroso e Santana ou na ascensão e conquista da Presidência da República por parte de Cavaco Silva. Nogueira não. Nunca mais teve nenhum cargo, nenhuma intervenção. Não esteve em comissões de honra, não foi designado conselheiro de Estado, não é comentador político ou articulista de imprensa. Regressa agora quase como saiu. E o mundo mudou, entretanto. Saiu da política quando Paulo Portas se assumiu como político no grupo parlamentar do PP de Manuel Monteiro, volta com a figura que antes odiava como líder de um CDS com mais força que nunca.

O velho lobo do cavaquismo, entretanto tornado em proscrito do cavaquismo e anti-cavaquista, voltou com as melhores intenções. Contava fazer a diferença, só que o timing não foi o ideal. Quanto à forma, pior ainda. Em vez de uma acção recatada onde revelasse os seus conhecidos dotes de orador ou de pensador, foi atirado aos outros lobos, os dos media, que caçam em matilha. Gostava antes de ter ouvido Nogueira falar das oportunidades perdidas em 16 anos de governação, desde que ele próprio perdeu para Guterres e o País entrou na espiral de loucura que se conhece. De bom aluno da Europa o País passou para calão em pouco tempo, mas também a escolaridade obrigatória aumentou... Será que ainda vai a tempo de fazer melhor figura?

 

Francisco Almeida Leite


2 comentários

Sem imagem de perfil

De Mário Cruz a 17.05.2011 às 03:48

Oh Almeida Leite, deve haver por aí alguma "cena sua mal resolvida com o Nogueira" como diz a malta "jove".
O Fernando Nogueira é só um ex-presidente do PSD como o Balsemão ou o Marcelo. É natural que os ex, apareçam todos nestas datas para darem uma "forcinha". Não merecem por isso nem mais, nem menos atenção.
Diga-me mas é se já sabe se o Portas vai usar os votos da malta, anti-Sócrates, para se juntar com o Sócrates depois das eleições. É isso que a "malta" quer saber. Qualquer dica seria útil. "Brigadus".
Imagem de perfil

De Francisco Almeida Leite a 17.05.2011 às 15:26

Não há nada mal resolvido, pelo contrário. Quanto ao dr. portas, concordo consigo: ainda não disse preto no branco o que fará se tiver que formar Governo com o ainda primeiro-ministro.

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D