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Delito de Opinião

Convidada: HELENA FERNANDES

Pedro Correia, 23.05.11

 

Amor postal

 

As idas aos sótãos têm sempre um efeito nostálgico. Uma saudade bastante empoeirada e menos romântica do que nos filmes, ainda assim. As teias são reais e nunca se sabe quando uma aranha simpática nos salta para cima, em jeito de nos desejar as boas-vindas ao seu lar.

De toda a tralha que habita no sótão, entre brinquedos, bugigangas inúteis e as pilhas de dossiês com fotocópias e rabiscos tirados nas aulas, que provavelmente hoje não perceberei, há uma caixinha especial que, volta e meia, gosto de visitar - a caixa das cartas.

É uma pena que os mais novos não partilhem dessa experiência. Hoje é tudo mais rápido e mais simples, mais automático. Eles têm a tecnologia, mas não têm a emoção.

Lembro-me bem do papel com cheiro e desenhos românticos. Para aqueles mais sérios havia o papel de carta normal (ainda existem blocos de papel de carta?) e as canetas cuja tinta exalava um aroma amendoado.

Receber e escrever cartas às amigas era sempre uma grande emoção. Sempre que iam de férias, sabia que ia receber uma idiotice em forma de postal. Então, os postais da adolescência eram o máximo! Parecia que elas não sabiam que o carteiro os podia ler.

Mas as cartas mais divertidas eram sem dúvida as cartas de amor. Escrevi várias, nunca mandei nenhuma. Sempre fui orgulhosa demais. Ainda assim, empenhava toda a minha criatividade no desenho de corações e florezinhas, como se isso compensasse o facto de sempre ter sido péssima a expressar as minhas emoções.

 

 

Bom, bom mesmo, era receber uma carta de amor. Oh, se era! Mandavam-nas por amigas, ou arranjavam maneira de elas aparecerem num dos nossos livros e depois ficavam ao longe, meio escondidos, meio à espreita, a observarem a nossa reacção; e como se o rubor na face não fosse o suficiente para os denunciar, ainda eram vítimas das macacadas dos amigos. Éramos uns tolos alegres. Que saudades!

Infelizmente, para os meus pretendentes, e felizmente para mim, porque ainda hoje me rio à custa deles, o seu Português era sempre péssimo e a imaginação também não abonava a seu favor. A maior parte deles ia directo ao assunto. O que conta é a intenção, não é? Mas um, só um, disse que eu era a musa dele, a deusa de não-sei-o-quê e o não-sei-quantos do pôr-do-sol. Por isso, ainda hoje me lembro dele. É uma pena que a minha repulsa pelos erros tenha sido mais forte do que aqueles lindos olhos azuis.

Com o tempo, perdeu-se o hábito. Foi substituído por palavras mal escritas e símbolos idiotas em mensagens de texto, porque escrever ”amo-te” dá mais trabalho do que “<3”. Foi-se a escrita, foi-se o romantismo. Ficaram os corações matemáticos que insinuam que o amor é melhor a três. Valem-nos as recordações que ficaram no papel, que nenhum curto-circuito, ou chip, ou atalho de teclas pode eliminar, só mesmo o tempo.

Foto: Ana Silva

 Helena Fernandes

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