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Legislativas (6)

por Pedro Correia, em 14.05.11

 

 

DEBATE PAULO PORTAS-PEDRO PASSOS COELHO

 

O presidente do PSD perdeu esta noite uma excelente oportunidade de invocar algumas bandeiras sociais do seu partido perante os eleitores indecisos que o escutavam. E a ocasião era até propícia para o efeito: Pedro Passos Coelho tinha pela frente, no estúdio da SIC, o líder do partido situado mais à direita no hemiciclo de São Bento. Passos preferiu, no entanto, falar de temas macro-económicos: poupança do Estado, receita adicional dos cofres públicos, taxa social única, crescimento económico, criação de emprego, um "esforço adicional" dos portugueses para a diminuição do défice das nossas contas. Questões importantes, sem dúvida. Mas insuficientes para quem esperaria do principal partido da oposição uma olhar menos economicista sobre os problemas que afligem o País. Paulo Portas, que recentemente se gabou de liderar um partido situado "à esquerda" do PSD em preocupações sociais, tinha razões para estar satisfeito quando Clara de Sousa deu por concluído o debate.

Portas e Passos mostraram-se cautelosos ao longo deste frente-a-frente. Sabendo que existem fortes probabilidades de coexistirem num governo a empossar por Cavaco Silva após as legislativas de 5 de Junho, mostraram uma notável contenção verbal que em certos momentos roçou a monotonia. José Sócrates, adversário de ambos, esteve mais ausente deste debate do que se esperava. E nos escassos minutos de real despique político a iniciativa coube quase sempre ao presidente do CDS-PP, certamente animado pelas sondagens. "Temos visto o PSD variar em muitos assuntos muito depressa", afirmou Portas, ironizando acerca da "enésima versão do PSD sobre a taxa social única" ou as posições erráticas que os sociais-democratas têm assumido em matéria fiscal. "O senhor já uma vez teve que se desdizer quando disse que não aumentava impostos", lembrou. E foi ainda mais incisivo ao apontar o dedo crítico ao partido laranja em questões agrícolas: "A política do PSD para a agricultura, nos últimos anos, foi um deserto."

Passos, aparentando mais calma do que o seu interlocutor, aludiu a uma maioria absoluta em que nem sequer no PSD já ninguém parece acreditar: na sua opinião, "não é irrealista" que os eleitores dêem aos sociais-democratas "as mesmas condições que deram ao PS no passado". Nenhum estudo de opinião sustenta tal tese. O presidente laranja sabe, portanto, que uma coligação com os democratas-cristãos constitui o maior seguro de vida política pós-eleitoral para o partido que lidera. Daí talvez a excessiva bonomia com que tratou Portas. Noutros tempos, com outros líderes, este jamais teria sido um debate entre iguais. Mas o PSD já não é o que era. E o CDS também não. Algo se vai movendo no aparente imobilismo da política portuguesa.

 

...................................................................

 

FRASES

Portas - «As pessoas estão preocupadas em soluções para o País e não em tricas entre os políticos.»

Passos - «Um governo PS-CDS-PSD seria uma salada russa.»

Portas - «O PSD não fez o suficiente para ser premiado com o voto.»

Passos - «O programa desenhado pela troika é o preço da incompetência que tivemos durante seis anos a governar Portugal.»

Portas - «O senhor foi muleta de José Sócrates.»

Passos - «O PSD não é muleta de ninguém.»

 

...................................................................

 

ADENDA

Por curiosidade, recordo o que escrevi sobre o debate Manuela Ferreira Leite-Paulo Portas da campanha legislativa de 2009.

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26 comentários

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De torcato guimaraes a 14.05.2011 às 03:01

Revi a visao do debate. Tenho simpatia pelo PP. Achava que houve empate. Empate nos fundamentos.

De facto, o Pedro tem razão.
No mercado do voto, Portas deu mais certeza, realismo e vertente na agricultura e no social. Passos esteve bem no diagnóstico.
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De Pedro Correia a 14.05.2011 às 13:42

Certo. Julgo que Portas fixou melhor o seu eleitorado neste frente-a-frente do que Passos Coelho. O líder do PSD está claramente desgastado e fragilizado com as sucessivas trapalhadas e o clamoroso ruído de fundo que as segundas linhas do partido persistem em desencadear. Estas coisas têm um preço elevado em política. A história do PSD, de resto, é fértil em exemplos destes, liderança após liderança.
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De Mário Cruz a 14.05.2011 às 03:33

Não perceber a impossibilidade de um partido com 10% dos votos (nos anos bons) poder ter, dentro de duas semanas, 23,5% para poder liderar a direita, é ingenuidade ou irrealismo. Só Sócrates ganha com estes calculismos balofos do CDS e de certos comentadores distraidos.
Todos os votos que passem do PSD para o CDS são votos perdidos, favoráveis por isso a Sócrates.
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De Pedro Correia a 14.05.2011 às 13:43

Nenhum voto é perdido. E nenhum partido é dono de nenhum voto.
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De Mário a 14.05.2011 às 16:18

Oh Pedro não seja sarcástico sobre propriedades. Cada eleitor é dono do seu voto e faz com ele a porcaria que quiser.
Mas aqui neste assunto de que estavamos a tratar, basta saber fazer umas continhas. Se o partido líder da direita tiver 23,5 % dos votos, quantos terá o PS? Pois é, nesse caso o PS ganhará sempre as eleições. Claro que se o PS ganhar será convidado a formar governo. E quem vai com o Sócrates para o governo? O seu CDS? Para fazer de office-boy e apanhar a trampa que o PS vai continuar a fazer no governo, com o mesmo líder que lá anda há 15 anos?
Se é isto que defende Pedro, reconheça-o e deixe-se de sonhos.
Marcelo Rebelo de Sousa disse-o com clareza, há uma semana. Portas com 15% dos votos será uma marioneta nas mãos de Sócrates. Entendamos isto e fujamos de tal hipótese, se pudermos.
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De Pedro Correia a 14.05.2011 às 16:43

O Presidente da República já foi claro: não voltará a empossar um governo sem apoio maioritário no Parlamento. Faz muito bem. Aliás, já o devia ter feito em 2009. O Governo que sair das eleições será, portanto, aquele que a aritmética parlamentar determinar. Resta ver quem tem habilidade suficiente para transformar esta aritmética parlamentar numa aritmética política.
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De Mário a 14.05.2011 às 17:12

Habilidade não falta, nem nunca faltou ao Sócrates. Só não acho inteligente votar na plasticina que se oferece às mãos de Sócrates, para ele a modelar a gosto.
Dar 15% a Portas para este se unir a Sócrates no governo, parece-me um erro que qualquer português médio deve pesar e rejeitar.
Nem outros militantes sólidos do PS, como Vitorino, António Costa ou Assis conseguem dominar Sócrates. É uma veleidade de ingénuo pensar que Portas faria com Sócrates o que nenhum socialista conseguiu até à data.
Votar Portas pode ser tão errado como votar Sócrates. A não ser que Portas diga, com a clareza que ainda não disse, que NUNCA e por motivo nenhum se aliará a Sócrates.
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De Pedro Correia a 14.05.2011 às 17:33

Se Portas declarasse isso, com esse carácter tão irreversível, estaria a desvalorizar o potencial eleitoral do seu partido. Compete aos dois maiores partidos clarificar a política de alianças pós-eleitoral. O PSD já o fez. Sócrates, como de costume, nada diz sobre este assunto.
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De José Manuel Faria a 14.05.2011 às 19:47

Um partido pode ter 100 000 votos e não estar representado no parlamento, teoricamente, estes votos não são perdidos, na prática são-no.

Os pequenos partidos vêm fugir-lhe dezenas de milhares de votos nos círculos pequenos, porque os eleitores sabem que não serão traduzidos em mandatos.

ps: nunca foi o meu caso.
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De Pedro Correia a 14.05.2011 às 20:09

Teoricamente, existe esse risco - muito menor em Portugal do que num sistema como o britânico, por exemplo, em que ficam 'perdidos' todos os votos que não recaiam na força maioritária de determinado círculo eleitoral. Mas o voto verdadeiramente perdido é aquele que se submete à lógica do mal menor.
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De a.marques a 14.05.2011 às 08:59

Falta ao líder do PSD a agilidade das mil e uma maneiras de fazer bacalhau, dando de barato que o defeito reside apenas na suposta e assustadora ingenuidade em que navega. Aquela da cedência ao professor Castilho é do outro mundo, quando podia ter dito simplesmente: Estamos sempre atentos aos sinais da sociedade.
Notável o descaramento de Portas quando acena com os "seus" 25% ainda a mastigar o alegado ridículo da "maioria absoluta de Passos". A reserva a que se arroga o direito sobre a aplicação da TSU em vez de mostrar o jogo, não é uma tirada menos "brilhante". Passam melhor o cinismo apalhaçado de Portas e a roleta do engano de Sócrates. Inegável.
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De Pedro Correia a 14.05.2011 às 13:45

A rábula dos 25% vale o que vale: destinou-se a demonstrar que o CDS é um partido com um grande potencial de crescimento. Nenhuma percentagem é imutável. Lembremos que o PS já teve 20% numas legislativas. E que o PSD já teve 51%.
Apesar de tudo, a Terra move-se.
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De a.marques a 14.05.2011 às 13:59

O próximo movimento será para todos no dia 5 que aí vem.
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De Pedro Correia a 14.05.2011 às 15:56

Pois. Nesse dia vai mover-se.
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De lucklucky a 14.05.2011 às 12:00

Resumindo Passos deveria ter apostado no discurso social que nos levou até onde estamos. Não querem mesmo mudar...vão ver quando baterem com a cabeça na parede...
Portas é o pro-estatista, mais ou menos socialista,
nesse sentido o que mais se aproxima do socialismo total coorporativista dos Portugueses- isto é o portugueses só são favoráveis ao socialismo se tiver lá alguma coisa para eles, não é um socialismo a favor dos pobres.
Passos é uma coisa inconsistente, mais socialista que Portas ás quartas e sextas, liberal às terças e quintas. Poderia ter falado de liberdade, de liberdade de escolha, de criar, de concorrer, construção de reputação. Nada.
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De Pedro Correia a 14.05.2011 às 12:07

Sim, faltou discurso social - nada mais surpreendente num partido que se intitula Social (Democrata). Um partido que pretende ser interclassista nunca pode esquecer o discurso social, sobretudo num período como aquele que atravessamos. Se quiser ser liberal, mude o nome e assuma-se como Partido Liberal (o do Reino Unido vale actualmente 13% nas intenções de voto).
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De O Rural a 14.05.2011 às 12:10

Com os OLHOS nos OLHOS talvez Passos ponha Paulo a deixar de olhar para o lado, o Sócrates para o espelho, Louçâ para o espaço, e o PCP para o passado.

Há muitas minas e armadilhas para Passos pisar mas vai sobreviver.

O País foi aramadilhado ee não governado.
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De Pedro Correia a 14.05.2011 às 13:45

Isso é que é ter fé inquebrantável.
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De O Rural a 14.05.2011 às 12:15

Com os OLHOS nos OLHOS talvez Portas deixe de olhar para o lado, Sócrates deixe de olhar para o espelho, Louçã deixe de olhar para para o espaço e o PCP deixe de olhar para o passado.

Passos Coelho, continua a olhar para o povo olhos nos olhos mesmo que pises as muitas minas e armadilhas com que o país está armadilhado por estes especialistas que tens pela frente.
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De Javali a 14.05.2011 às 17:54

Não me parece que o facto de Paulo Portas não olhar os seus interlocutores nos olhos quando estes se lhe dirigem revele algum traço de carácter particular ou suspeito. É apenas maneira de estar. PPC não devia ter pedido a PP que o olhasse nos olhos; é feio. Compreende-se que PPC tenha sentido irritação por estar a falar com PP e este estar a olhar para baixo, para os seus papéis (por acaso é irritante), mas não me parece que essa postura resulte de uma estratégia para desvalorizar o que lhe diz o seu interlocutor, mas mais de naturalidade. Nada de mais. Pintelhos.
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De Pedro Correia a 14.05.2011 às 20:12

Também me parece irrelevante perder tempo a analisar para onde Portas fixa os olhos. É uma questão de estilo, cada qual é como é. O que importa é a mensagem emitida, não o facto de se estar a olhar para um papel poisado na secretária ou para um teleponto 'high tech'.
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De Eduardo Louro a 14.05.2011 às 17:50

Também comento estes debates lá no meu cantinho. http :/ quintaemenda.blogs.sapo.pt 68099.html )Tento fazê-lo com a objectividade possível nestas coisas e com um grande desígnio: que o país se consiga unir para afastar um tipo perigoso, como no meu Benfica se fez há uns anos. Sei que, na circunstância, não se consegue mandar o homem para a prisão – como acho que seria da mais elementar justiça – mas contentar-me-ia com o objectivo de o empurrar para que, depois do próximo dia 5, fossem os que agora o aclamam a mandá-lo para a reforma dourada a que certamente este Estado já o habilitou.
Mas Passos Coelho não pode limitar-se a ser Manuel Vilarinho… Eu, que não gostaria que o fosse, acho-o cada vez mais parecido. Ainda se o país fosse como o Benfica… Mas não é! Para o bem e para o mal!
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De Pedro Correia a 14.05.2011 às 20:09

Comparar Passos Coelho a Vilarinho? Essa é uma análise verdadeiramente original, Eduardo.
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De Eduardo Louro a 14.05.2011 às 20:28

Não se trata de comparar Passos Coelho a Vilarinho, não foi essa a minha ideia nem me parece que se possa concluir isso do meu comentário. O que eu disse, e penso que se percebe, foi que PPC não pode limitar-se à simples condição de catalisador de descontentamentos. Gostaria que se "fizesse à vida", com atitude mobilizadora e de conquista. Que não fosse um mal menor... Que fosse de debate em debate até à vitória final! Mas se tiver de ser de derrota em derrota até à vitória final... vamos a isso!
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De Pedro Correia a 15.05.2011 às 00:03

Julgo que o desfecho destas legislativas se jogará muito em torno da política de alianças pós-eleitoral. Tenho escrito bastante sobre isto. À direita, existe uma coligação potencial entre PSD e CDS. À esquerda, resta o PS isolado. Sócrates está, de resto, ainda mais isolado hoje do que já estava em 2009, quando foi incapaz de constituir um governo com apoio maioritário no Parlamento. Pormenor fundamental, neste contexto: o Presidente da República já deixou bem claro, sem ambiguidades, que não voltará a empossar um governo minoritário.

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