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Legislativas (5)

por Pedro Correia, em 12.05.11

 

 

DEBATE JERÓNIMO DE SOUSA-FRANCISCO LOUÇÃ

 

Debate? Que debate? Quem teve a paciência de escutar até ao fim o frente-a-frente desta noite, na RTP, entre Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa certamente não descortinou qualquer motivo de fundo para o PCP e o Bloco de Esquerda se apresentarem em listas separadas a estas eleições. É certo que o secretário-geral comunista, há uns dias, disse numa entrevista desconhecer qual é a ideologia do BE. Mas ao ser desafiado pelo jornalista Vítor Gonçalves a reeditar estas dúvidas, Jerónimo preferiu chutar para canto. Ninguém diria que estes dois partidos já estiveram envolvidos em acesos despique verbais. Ninguém diria que houve até uma época em que o Avante! mimoseava os bloquistas com farpas bem aguçadas.

Esse tempo, pelos vistos, passou. Bloco e PCP convergem hoje no essencial: são do contra. Contra o Governo socialista, contra a alternativa à direita, contra a intervenção do FMI em Portugal, contra o memorando de entendimento com a União Europeia, contra o programa de privatizações, contra o pagamento da dívida pública sem uma renegociação imediata. O moderador do debate bem tentou encontrar algumas divergências dignas de nota entre eles, mas o resultado foi quase nulo. Jerónimo ainda mencionou a política europeia, distanciando-se do "federalismo" do Bloco. E - ao contrário de Louçã - não considera "questão tabu" a possibilidade de Portugal dizer adeus ao euro para regressar ao escudo. Há ainda uma questão de estilo: "Nós não fulanizamos", disse o secretário-geral comunista. Com Sócrates ou sem Sócrates, o PS estará sempre na mira das críticas do PCP. A tal ponto que Jerónimo foi incapaz de manifestar qualquer preferência entre um governo liderado pelos socialistas e um Executivo de maioria social-democrata.

Eis um dos nós cegos da política portuguesa: enquanto à direita a política de alianças é clara, à esquerda o PS está condenado a mirar-se ao espelho. O PCP só admite "coligar-se" com um partido fantasma: Os Verdes. E o Bloco parece hoje apenas apostado em duplicar o histórico papel de consciência crítica desempenhado pelos comunistas na democracia portuguesa, evitando qualquer aproximação aos socialistas com vista à construção de alternativas de governo.

Esta noite, de qualquer modo, Louçã mostrou-se um pouco mais acutilante ao procurar transformar o frente-a-frente numa espécie de prolongamento do debate da noite anterior com o secretário-geral socialista. Insistiu em denunciar a falta de transparência do PS na questão da taxa social única, antecipando que os socialistas preparam uma "alteração drástica" à actual contribuição das entidades patronais para a segurança social. E foi capaz de descer um pouco mais ao concreto na questão da dívida, propondo um "fundo de resgate" que prevê a criação de um imposto das mais-valias urbanísticas e um imposto sobre as transacções da Bolsa. A emissão de títulos europeus de dívida é outra solução proposta pelo Bloco. Jerónimo foi mais vago: este frente-a-frente confirmou que a economia não é o seu forte. Esteve melhor na intervenção final, marcada por um toque pessoal, raro nos comunistas: "Eu vivo melhor do que os meus pais e pensava que as minhas filhas iriam viver melhor que eu."

Nesse momento, o secretário-geral do PCP falou por milhões de pessoas. A maioria dos portugueses pensava o mesmo que ele. A realidade, infelizmente, vai-nos demonstrando o contrário dia após dia.

 

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FRASES

Louçã - «Esta troika é a junção dos maiores gastadores da economia portuguesa. Propõe o programa mais recessivo da democracia portuguesa.»

Jerónimo - «Foi o Governo que se deitou abaixo. Não havia razão institucional para que o Governo se demitisse.»

Louçã - «O PS arrastou o País para uma crise gravíssima nos últimos anos, particularmente no último ano. E faltou à verdade aos portugueses.»

Jerónimo - «PS, PSD e CDS têm um programa comum.»

Louçã - «Portugal deve pagar a sua dívida em função da sua economia.»

Jerónimo - «Portugal não estava preparado para essa integração [no euro]. Perdemos competitividade, soberania e maleabilidade monetária.»

 

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ADENDA

Por curiosidade, recordo o que escrevi sobre o debate Francisco Louçã-Jerónimo de Sousa da campanha legislativa de 2009.

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4 comentários

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De Pedro Correia a 12.05.2011 às 22:53

Incrível, este jogo dúplice. Bonomia nos debates televisivos, traulitada no jornal do partido. Como os Bourbons do 'ancien régime', este PCP não aprende nada nem esquece nada.
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De Francisco Castelo Branco a 13.05.2011 às 18:50

a Esquerda radical há muito que devia ser renovada, para bem da própria democracia
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De Pedro Correia a 13.05.2011 às 19:55

A esquerda radical tem um dilema: não é suficientemente radical para rejeitar a democracia "burguesa" nem suficientemente reformista para integrar uma solução governativa.

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