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Diário irregular

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.05.11

 

12 de Maio de 2011

 

"Quando levanto os olhos para o céu

levo comigo o que recordo da História.

os pulhas e os santos, transporto-os comigo na memória" – Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia

 

Partir nem sempre é fácil. Regressar é muitas vezes doloroso.

 

Qualquer imagem, por muito bem gravada que esteja na nossa memória, tende a desvanecer-se com o correr dos dias. A nossa memória encarrega-se de fazer a selecção, ainda que muitas vezes não se perceba qual seja o critério. Há rostos da minha juventude, de mulheres que amei perdidamente, pensava eu, em relação às quais recordo momentos que eu julgava preciosos, mas cujos contornos eu hoje não consigo reconhecer. Em contrapartida, não me esqueço dos olhos e da cor da pele de uma mulher com quem apenas troquei um breve mas intenso sorriso no dia em que ela apanhou o elevador onde eu seguia. Há mais de duas décadas, num luxuoso hotel de Manila. Com as imagens que tenho do meu País acontece mais ou menos o mesmo. Meia dúzia de dias bastam para esquecer os rostos de quem nos governa, de quem aspira a governar-nos e de quem nunca nos governará. E não fiquei incomodado com isso.

 

Ao percorrer sozinho uma auto-estrada deserta, debaixo de um esmagador céu azul de Maio, cortado aqui e ali pelo voo de uma cegonha ou de um gaio, com os campos verdes e o sol tão alto, interrogo-me: porque terá de ser sempre tão doloroso viver num país tão belo?

 

O cenário é o mesmo. Continuam os “debates”, os “frente-a-frente”, isto é, a gritaria. A análise da gritaria é agora o passatempo de muitos. Dedicam-se a alinhavar frases, gestos e posturas. No fim decidem quem “ganhou o debate”. Um dia perceberão que ninguém ganhou nada.

 

De novo enfiado no meio dos papéis. Um irmão faz uma doação de metade de um imóvel à irmã. Esta, que também é mãe e já era titular da outra metade, faz, por sua vez, no mesmo acto, uma doação à filha da totalidade desse mesmo imóvel, o qual já fora doado aos filhos pelos pais, isto é, pelos avós da donatária que o recebeu da mãe. A mãe tem dupla nacionalidade e vive no estrangeiro. Casou por lá, em regime de separação de bens, com um cavalheiro que nunca veio a Portugal e nunca quis saber de nós. Mas nós queremos saber dele. A escritura foi outorgada e o notário disse à donatária que tinha de ir pagar o imposto de selo para poder requerer o registo em seu nome. Na repartição, depois de uma conferência entre o funcionário e o chefe e mais uma senhora que ia a passar, dizem-lhe que o tributo não pode ser pago ali porque nem ela nem a mãe têm residência em Portugal. É para declarar na repartição de finanças da área de residência do tio, único residente nacional, a 300km dali. Na repartição da área de residência do tio é recusada a recepção da participação para efeitos de liquidação. O sistema informático exige o número de contribuinte do pai da donatária e esta não o tem. O pai da donatária diz que não tem nada que ver com o caso, que o imóvel não era nem nunca foi dele, que quem fez a doação foi a mulher que o recebera dos sogros, que ele é casado em regime de separação de bens, que não pretende vir a Portugal e muito menos ter número de contribuinte. Nada feito. Sem o número de contribuinte de um tipo que se dedica à pesca  na Nova Caledónia os burocratas das Finanças não fazem nada. Se fosse separado judicialmente de pessoas e bens ainda teriam um campo para colocar a cruz. Assim, como não é o caso, nem sequer aceitam a participação do contribuinte para liquidação do imposto devido. E mandam-no embora. Por haver gente desta é que o Tribunal de Justiça da União Europeia acabou uma vez mais de envergonhar o Estado Português. Não lhes servirá de nada porque os “Humphreys” continuarão a mandar. Eles aqui chamam-se José, Pedro, Paulo, Francisco e até Jerónimo. Será possível que ninguém veja o absurdo?

 

Dizem que a vetustez, alguns cabelos brancos e alguma experiência dão um ar respeitável. O ar  podem dar. O bom senso é que não vem com isso. Nem com a idade. O cabeça-de-lista do PSD pelo círculo de Faro, numa das suas magistrais tiradas, comparava a ASAE à PIDE. O Prof.. Catroga comparou José Sócrates a Hitler. Pelo caminho fala de “pentelhos”, revela conversas privadas, confessa que a sua geração desde 1995 que  fez “muita porcaria” e diz que os novos dirigentes vão ter de passar por processos de certificação externa antes da escolha. Não sei se ele também andou escondido nos últimos 15 anos a fazer a “porcaria” de que fala, e que aparenta conhecer tão bem, enquanto o país soçobrava; nem em que consistirá essa certificação. De qualquer forma, estou convicto de que deverá ser melhor do que o que temos.

 

O nível exibido nos últimos dias pelos que vão concorrer às eleições é a prova da necessidade de um processo de certificação. Não poderia estar mais de acordo. O ideal seria alargar essa certificação aos dirigentes partidários, não excluindo os actuais, é claro, posto que têm sido estes quem até agora se encarregou dessa selecção e certificação que só deu em “porcaria” e nos põe a todos a discutir “pentelhos”. Pena que Catroga não se tivesse lembrado disto quando era ministro das Finanças, quer dizer, antes da sua geração começar a fazer a “porcaria” (o melhor mesmo é dizer “trampa”) que fez nos últimos quinze anos. Teríamos evitado que os incautos da sua geração andassem a comprar e a vender acções a Oliveira e Costa deixando o BPN de pantanas, fizessem anúncios para o BPP a troco de € 2.500, e que Dias Loureiro fosse elevado à categoria de conselheiro de Estado. E, talvez, quem sabe, agora não houvesse reformados cheios de gás a ganharem mais de € 9.000,00 por mês enquanto o resto do país definha para lhes pagar as reformas e já nem às espinhas do cherne consegue chegar. Quanto mais segui-lo. E, talvez, quem sabe, também não estivéssemos entregues a algumas seitas, que mais se assemelham a algumas máfias japonesas, que vão a votos no dia 5 de Junho, e que têm sido geridas por quem, enquanto andou na escola, se limitou a fazer o tirocínio dos cábulas para agora poder vir governar-nos. Ao Prof. Leite Campos já o mandaram dar pareceres para o Olimpo. O Prof. Catroga, a avaliar pela reforma que aufere, pelos convites para perorar 24h por dia em todos os canais televisivos e pelas pérolas que saem da sua boca, tantas e tão lúcidas, deve ser uma espécie de Passos Coelho da sua geração. Ministro já ele foi. E sem certificação externa. E eu que pensava que ele era um economista normal. Já tinha saudades desta gente. São uns pândegos.

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2 comentários

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De anamar a 12.05.2011 às 19:48

Sérgio,
magistral o seu texto...
E...porque gostamos deste país? Porque o bom é inimigo do ótimo... E porque nos deixamos encadear pelo azul, e,e, e....
Eduardo Catroga é inteligente... anda muito efusivo. Idadde? Mas falta-lhe a lucidez e bom senso do seu irmão Fernando que vai brilhando de catedra, pela História das Ideias.
Tudo de bom...
Ana
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De Teresa Ribeiro a 12.05.2011 às 22:40

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